Crianças francesas não fazem manha, Pamela Druckerman

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Autora: Pamela Druckerman
Não-Ficção / Educação Infantil / Cultura Francesa
Editora: Fontanar
Páginas: 272
Ano: 2012

 

Subestimei demais este livro. Um dos motivos foi por ter ouvido falar que a autora recomendava deixar o bebê chorando por um bom tempo para discipliná-lo. E, bem, ela não faz isso. Na verdade, diferente do que imaginei, ela não recomenda nada. Pamela Druckerman apenas diz como as coisas são na França. Simples assim!

A autora, uma jornalista novaiorquina que se muda para Paris depois de se casar, começa a observar as diferenças comportamentais entre franceses e americanos quando engravida de sua primeira filha. Eu não esperava que o livro fosse quase um relato de uma experiência pessoal, então estranhei um pouco o começo, quando ela estava se apresentando, mas após entender o propósito do livro, passei a gostar bastante.

Quem espera um manual, uma lista de problemas e soluções ou algo do tipo, irá se decepcionar. O livro é mais para entender, de uma maneira descontraída e bem-humorada, a filosofia francesa de educar (que não é lá muito bem-humorada, rs)Se ela é boa ou ruim a médio e longo prazo não se sabe, mas ela parece funcionar ali, no quesito disciplina e boa alimentação, na primeira infância.

Entendendo essa filosofia, o leitor pode incorporar à sua rotina, dentro de seus princípios, os hábitos que julga bons, mas a verdade é que não dá para “ser francesa” fora da França. Os franceses parecem dispostos a seguir as mesmas regras sociais [sem nem perceber], incluindo corrigir deslizes dos filhos dos outros. A maneira como eles educam os filhos é muito homogênea, o que facilita a vida de todos. Não tem, por exemplo, uma tia oferencendo doce na hora errada ou deixando o sobrinho bagunçar toda a sua casa. É como se, em prol de uma sociedade sem crianças birrentas, todos se empenhassem.

Essa homogeneidade pode parecer fantasia da autora, mas já li o mesmo em outros livros, como Piquenique na Provence, de Elizabeth Bard, jornalista americana casada com um francês. O livro de Bard não foca na maternidade, mas como ela engravida e tem um bebê, seu relato se assemelha muito – muito mesmo – com o de Pamela.

Não existe muita novidade nas “técnicas” francesas, são os famosos limites, a diferença é que eles conseguem seguir com rigor e firmeza o que julgam correto.

O livro é bem escrito e muito bem estruturado, e, mesmo que não se concorde com toda a filosofia educacional francesa, há sim bons hábitos e boas dicas (muitas!) para serem incorporadas ao nosso dia-a-dia. De toda forma, tendo filhos ou não, é uma ótima leitura para quem gosta e quer entender um pouco mais do estilo de vida francês. Vale a leitura!

 

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Sinopse: Exaustão com o choro e a manha das crianças pequenas, falta de tempo para suas próprias necessidades e para um convívio romântico em casal, sofrimento com insegurança, preocupação excessiva, dependência e culpa. Tudo isso faz realmente “parte do pacote” de ter filhos? Pamela Druckerman começou a perceber que, na França, a resposta é um enfático não. A jornalista americana se muda para Paris logo após se casar. Lá, além das diferenças culturais mais conhecidas, começa a observar que as crianças se comportam de forma muito mais educada do que jamais viu. Estarrecida, ela percebe que os jantares nas casas dos franceses não são eventos caóticos em que crianças interrompem os adultos, brigam com os irmãos ou reclamam dos legumes. Esse é apenas um dos exemplos que a fazem querer descobrir qual é a mistura de autoridade e relaxamento dos pais que faz com que as crianças francesas sejam tão comportadas, sem ficarem reprimidas ou sem personalidade. Afinal, qual é o segredo para que durmam a noite toda? Para que não tenham ataques de birra em público? Para que sentem-se de maneira educada à mesa e experimentem muito mais do que nuggets e batatas? Para que desenvolvam a autoestima e se tornem articuladas? Os pais que ela observou em Paris parecem ter encontrado o equilíbrio perfeito entre ouvir os filhos e deixar claro que são os adultos que mandam. Dentro de um limite conhecido como cadre, essas crianças têm total liberdade e autonomia, mas fora dele, quem exerce autoridade são os pais. Pamela nota que os franceses conseguem balancear admiravelmente suas necessidades e as das crianças, não se acorrentam a um falso conceito de pais perfeitos e, ainda assim, são atentos, carinhosos e criam filhos educados e felizes. A autora empreende uma surpreendente jornada pela cultura francesa e passa a rever alguns conceitos da criação de filhos. Por anos, ela investiga as respostas a essas e outras questões, além de viver muitas experiências no próprio cotidiano, já que se torna mãe em Paris. O resultado é um relato inteligente, bem-humorado e ao mesmo tempo bem-fundamentado dos segredos dos franceses para ter filhos criativos e educados – e também um manual para os pais não se tornarem escravos de pequenos tiranos.

O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger

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Autor: J.D. Salinger
Clássico Moderno / Lit. Americana / 1001 livros
Editora: do Autor
Páginas: 251
Ano: 2015
Ano de Publicação Original: 1951

 

O apanhador no campo de centeio, de Salinger, estava na minha lista de leitura há bastante tempo, mas eu sempre adiava na esperança de que lançassem uma edição menos feia e com um preço melhor. Terminei gastando quase 80 reais nessa edição em capa mole, sem arte, com péssima diagramação e páginas brancas, muitas falhas de revisão e uma tradução que pode não agradar a todos.⠀

Quando comecei a leitura, estranhei o linguajar vulgar e as gírias esquisitas. Fui atrás do original e me deparei com um texto cheio de palavrões, gírias e muitas, muitas contrações. Meu desconforto com a edição brasileira pode ter sido pelo uso de gírias muito regionais que eu desconhecia. [Debatendo o livro com uma amiga, ela me disse que eram gírias antigas, usadas naquela época, e por isso mesmo ela gosta da tradução, que mantenha vivas essas expressões.] Em algumas situações, não dá pra entender mesmo a intenção da tradução, como quando alguém diz “Oba”, o colega responde “oba”, e no original era simplesmente “hi” e “hi”. Confesso, xinguei os tradutores, coitados, não tinham tanta culpa assim. É o tipo de escrita que, inevitavelmente, se perde na tradução, por melhor que ela seja. Se você lê em inglês, não pense duas vezes.⠀

The Catcher in the rye é narrado em 1ª pessoa por um adolescente cheio de conflitos, que acaba de ser expulso de mais uma escola. Holden não gosta de nada, não consegue se interessar por nenhuma atividade e está sempre meio revoltado com tudo e todos que o cercam. O protagonista critica tanto os outros que termina ele mesmo sendo digno de pena do leitor. [Teria aí alguma referência ao Misantropo de Molière?]

É assim, meio sem começo, sem meio ou fim, meio sem história. É como entrar na cabeça de um adolescente, mas de forma alguma é como se um adolescente o tivesse escrito. Ele não nos daria tantas informações irrelevantes e tão sem graça. Salinger conseguiu escrever um livro que diz muito através do superficial, do banal e do irrelevante. Todo esse dar-de-ombros, esse desejo de fuga e essa inconsistência resultou em um retrato do adolescente perdido.⠀

Tive uma adolescência tranquila, cheia de amigos, então não me identifiquei com o protagonista, mas certamente aquele que se isolou mais nessa fase da vida verá a si mesmo em algumas dessas páginas.⠀

A leitura não foi nada do que eu esperava [mas que mania pretensiosa essa de querer adivinhar o que nos trazem os clássicos, ein?!], mas foi incrível e com cara de que ressoará por muito tempo nas minhas lembranças.

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer” (Clique aqui para ver mais sobre o Projeto 1001 livros e as resenhas já feitas da lista)

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Sinopse: O Apanhador no Campo de Centeio na edição brasileira narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 16 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um reputado internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter recebido más notas em quase todas as matérias e ter sido expulso. No regresso a casa, decide fazer um périplo adiando assim o confronto com a família. Holden vai refletindo sobre a sua curta vida, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta definir alguma diretriz para seu futuro. Antes de enfrentar os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, a sua irmãzinha) e tenta explicar-lhes a confusão que passa pela sua cabeça. Foi este livro que criou a cultura-jovem, pois na época em que foi escrito, a adolescência era apenas considerada uma passagem entre a juventudade e a fase adulta, que não tinha importância. Mas esse livro mostrou o valor da adolescência, mostrando como os adolescentes pensam.

O legado de Eszter, Sándor Márai

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Autor: Sándor Márai
Lit. Húngara / Clássico
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 113
Ano: 2001
Ano de Publicação Original: 1939

 

Sabe quando você lê um livro e gosta tanto que compra – cega e obsessivamente -todos os outros do autor? Foi o que aconteceu quando li As Brasas, comprei tudo que encontrei de Sándor Márai, e não me arrependo.

O Legado de Eszter foi escrito uns poucos anos antes de As Brasas, e eu diria que é como uma prévia do que viria a ser a obra-prima do escritor. Como sempre, o enredo é muito simples e o foco está na condição humana, nos sentimentos, nos comportamentos.

Eszter e Nunu, uma antiga criada, recebem um comunicado de que Lajos voltará para lhes fazer uma visita, após vinte anos de ausência. Todos naquela casa se preparam para a chegada daquele homem sem caráter, sem escrúpulos, que fora cunhado de Eszter e o único homem que ela amou na vida.

Sem reviravoltas ou grandes floreios, Márai nos leva para dentro daquela casa, nos faz sentir todo o peso que paira sobre aquele lugar, sobre tudo que ele poderia ter sido e vivido. Vai nos sufocando com palavras carregadas de angústia e amargura, nos enfeitiçando com um texto limpo e delicado e, pouco a pouco, vai tirando as camadas que cobrem e sustentam Eszter, até que ela se transforme em pó, como se não aguentasse tamanha nudez.

Quem gostou de As Brasas certamente gostará de O legado de Eszter, pois segue a mesma linha intimista e dolorosa. Só não esperem que seja superior, não é, é um livro bem mais simples, mas maravilhoso. Vale a pena!

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“Passado algum tempo não é possível ‘acertar-se’ nada entre as pessoas; compreendi essa verdade desesperançada ali, no banco de pedra. O homem vive e remenda, repara, constrói e depois, por vezes, estraga a vida; mas com a passagem do tempo percebe que o todo, que se erigiu daquela forma, a partir dos erros e acasos, não é modificável. Lajos já não podia fazer mais nada. Quando alguém emerge do passado e anuncia em tom comovido que deseja acertar ‘tudo’, o propósito só pode suscitar compaixão e riso; o tempo já ‘acertou’ tudo, a seu modo singular, o único possível.”

Sinopse: Eszter e a velha criada Nunu já se acomodaram a uma existência de aldeia, quase solitária, pacata, acreditando-se livres das memórias de uma época em que a energia e o encanto de Lajos aturdiam a todos na casa. Naquele tempo, enfeitiçados por suas promessas, os pais e os irmãos de Eszter entregaram- lhe quase tudo o que tinham.

Entretanto, Eszter e Nunu recebem um dia um telegrama: Lajos anuncia que voltará, depois de uma ausência de vinte anos. As duas se debatem entre a esperança de que virá para saldar suas dívidas e o pressentimento do perigo – talvez venha em busca de algum resto da herança miúda deixada pelo pai de Eszter.

Atordoada por um turbilhão de sentimentos contraditórios, ela se prepara para a chegada. Lajos – que entre juras de amor por ela, Eszter, desposou sua irmã Vilma -, o falsificador de promissórias, o descrente, o fugitivo, o indigno de confiança, o que mente com lágrimas de verdade, foi o único homem que Eszter amou.

Assistimos, incrédulos, aos passos sedutores de Lajos, ensaiados, e à entrega angustiada mas inevitável de Eszter. Um fim paradoxal revela a lei ausente dos manuais de ética: o que um dia se iniciou tem de ser encerrado. Descobrimos que ´as decisões solenes e definitivas, que traçam o relevante na linha do destino de nossas vidas, são bem menos conscientes do que acreditamos mais tarde, nos momentos de rememoração e lembrança´. Na prosa límpida e precisa de Márai, ao emergirem das páginas, Eszter e Lajos se alinham aos personagens inesquecíveis da literatura universal.

O Ruído do Tempo, Julian Barnes

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Autor: Julian Barnes
Ficção Histórica / Música
Editora: Rocco
Páginas: 176
Ano: 2017

 

Uma biografia meio romanceada de um dos maiores compositores do século XX, escrita por um autor consagrado com um Man Booker Prize. Foi assim que O Ruído do Tempo me foi apresentado. Prometia boa literatura e um pouco da vida de Shostakovich, uma deliciosa combinação.

O autor escolheu alguns episódios – sempre envolvidos com o governo comunista soviético – da vida de Shostakovich para abordar, então não temos aqui uma biografia completa e linear, nem um estudo sobre a sua música. Aliás, a música é pouco citada.

O Ruído do Tempo foca nos conflitos vividos pelo compositor, nas difíceis decisões que teve que tomar [ou que tomaram por ele] e que influenciaram completamente sua vida e carreira. Ficção e realidade se misturam quando entramos na mente de Shostakovich, nos seus pensamentos, nas suas angústias.

O primeiro e mais importante episódio narrado aconteceu em 1936, quando Stálin foi assistir a aclamada ópera de Shostakovich, a Lady Macbeth de Mtensk. Dias depois, saiu no Pravda, principal jornal da época, que aquilo era “confusão ao invés de música”. A obra foi censurada e Dmitri Shostakovich caiu em desgraça. É a partir daí que tudo se desenrola.

A sensação que temos é a de que Shostakovich era tão bom, mas tão bom, que o Governo, vendo que ele fazia muito sucesso com o público, resolveu usá-lo a seu bel-prazer. Seria uma ótima propaganda. Vejam como valorizamos a música! E Shostakovich teve que dançar conforme a música. Era isso ou morrer!

Covardia, fraqueza ou falta de opção? Sua vida ou sua integridade? Era um gênio, não um herói. Julian Barnes fala que ser covarde é mais complicado do que ser herói. Para ser herói basta uma morte simbólica, enquanto o covarde vive a angústia da mentira por toda uma vida. Será?

Há ainda um outro ângulo, uma outra possibilidade a ser considerada. Alguns acreditam que Shostakovich era irônico. Fingia ser a favor do regime, mas expressava o que bem queria em suas sinfonias. Há quem reconheça essa rebeldia em sua obra.

“O sarcasmo era perigoso para quem o empregava, identificável como linguagem do destruidor e do sabotador. Mas a ironia – talvez, às vezes, ele esperava – permitiria que conservasse o que valorizava, mesmo quando o ruído do tempo se tornava alto o bastante para quebrar vidraças. O que ele valorizava? Música, família, amor. Amor, família, música. A ordem de importância costumava variar. A ironia podia proteger a música? Desde que a música continuasse a ser uma linguagem secreta que permitia que contrabandeasse coisas pelos ouvidos errados. Mas não podia existir apenas como um código: às vezes era preciso dizer as coisas de forma direta. A ironia poderia proteger seus filhos? Maxim, na escola, com dez anos de idade, tinha sido obrigado a caluniar o pai publicamente numa prova de música. Nestas circunstâncias, de que servia a ironia para Galya e Maxim?”

O livro me trouxe muitas reflexões acerca dos musicistas e suas reais relações com os governos tirânicos. Até onde o público sabe a verdade? Até que ponto um artista abandonaria sua música? Até que ponto somos íntegros quando a vida de sua família corre perigo? Fugir, como fez Stravinsky, por exemplo, é uma opção?

Não bastasse tudo isso, a escrita de Barnes é fabulosa. Com uma narrativa não linear, daquelas que não se pode piscar, o autor me deixou estupefata, querendo ler tudo que já escrevera. Entrei pela música e saí deslumbrada com um livro sensacional!

5 Estrelas 5 corações

Para Ouvir:

Mesmo quem acha não conhece o compositor, certamente reconhecerá sua popular Valsa nº 2, que já foi tema de alguns filmes. Deixo aqui um vídeo da Valsa e o de uma de sua sinfonias mais bonitas, a Sinfonia nº 5.

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Sinopse: Em seu primeiro romance desde O sentido de um fim, vencedor do Man Booker Prize, e após o sensível ensaio sobre o luto Altos voos e quedas livres, Julian Barnes resgata e ficcionaliza a trajetória do compositor russo Dmitri Shostakovitch para retomar questões recorrentes em sua obra como a memória e a verdade. A história tem início em 1937, na União Soviética, quando Shostakovich tem certeza de que será preso, exilado na Sibéria, talvez até executado, após escrever um de seus maiores concertos, Lady Macbeth de Mtsensk, que não agradou ao governo. A partir daí, Barnes constrói (ou desconstrói) uma breve biografia de um dos grandes nomes da música do século XX, um personagem complexo e contraditório, com uma narrativa extremamente humana sobre integridade, coragem e poder que celebra, acima de tudo, a liberdade artística. Aclamado pela crítica estrangeira, O ruído do tempo já se destaca como uma das incontestáveis obras-primas de Julian Barnes.

Pais e Filhos, Ivan Turguêniev

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Autor: Ivan Turguêniev
Literatura Russa / Clássico / 1001 livros
Editora: Cosac Naify
Páginas: 352
Ano: 2015
Ano de Publicação Original: 1862

 

Pais e Filhos foi lançado em 1862 e para que entendamos bem a grandiosidade desta obra devemos contextualizá-la muito bem. A Rússia passava por um momento de grande impacto social: o fim da servidão, regime em que o camponês era propriedade do dono da terra. Turguêniev, brilhantemente, não só faz um panorama deste novo cenário, como se aproveita dele para nos mostrar com mais intensidade as relações entre pais e filhos e as divergências de pensamento entre essas diferentes gerações.

Arkádi acaba de terminar a faculdade e resolve retornar, ao lado de seu amigo Bazárov, à propriedade de seus pais. Eis onde tudo começa. Da propriedade da família de Arkádi à da família de Bazárov, passando – estrategicamente (e, por que não, romanticamente?) – pela casa de Ana Serguêievna, Turguêniev vai nos apresentando as ideias e as atitudes das diferentes gerações, desde o pai que tenta se modernizar, às mães e seu amor irrestrito, até o tio conservador que não aceita tudo facilmente.

Bazárov se considera um niilista, aquele que não crê em nada, que se recusa a seguir regras e a reconhecer autoridades. É um personagem fantástico, mas de uma arrogância que me deu raiva. Turguêniev o coloca – aparentemente – em um pedestal, como se ele fosse o herói de tudo. Mas… mas… aparentemente. Ou, ironicamente!, já que o autor nos mostra que o niilismo de Bazárov não se sustenta por completo.

Então, quem estava certo? Os tradicionalistas ou os niilistas? Nem um, nem outro. Nem Pável, o tio conservador de Arkádi, nem Bazárov, seu antagonista. Turguêniev alfineta os dois lados, ambos sucumbem – aqui e acolá – ao que rechaçam.

E os pais? Sempre os pais! Sempre presentes, sempre ali, faça chuva ou faça sol! Dispostos a tudo, inclusive a não falar com seus filhos, se assim o desejarem. Como somos imaturos aos 20 e poucos anos! Como entendemos pouquíssimo da maternidade quando ainda não somos mães… Deu para sentir o que sentiram os pais de ambos os jovens, sem que Turguêniev precisasse sequer nos descrever.

O amor, diante de tanta negação, é, talvez, o maior vencedor desse livro. Ou sou eu que vejo amor em tudo… É para os braços dos pais que os filhos voltam, é nos braços da amada que os jovens querem estar, por mais que queiram romper com qualquer ideia do romantismo.

Turguêniev abordou diversos temas de forma simples, contando uma história que quase não tinha o que contar, mas que, incrivelmente, traz uma profunda reflexão para o leitor acerca das relações humanas. Nem niilismo, nem tradicionalismo, Pais e Filhos é muito mais que meros conceitos. Muito bom!

5 Estrelas

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Sinopse: Traduzido pela primeira vez diretamente do russo para o português, este clássico é responsável por uma das maiores polêmicas da literatura russa. No início da década de 1860, dois eventos transformaram significativamente a sociedade russa: o fim da servidão e a fundação do movimento Terra e Liberdade, organização secreta que lutava contra as autoridades e instituições oficiais. A abordagem desse contexto fez com que Pais e filhos despertasse uma das maiores fendas da história da literatura russa. O termo “niilista” se popularizou e Ivan Turguêniev (1818-1883) foi acusado de ser responsável por atos criminosos cometidos por radicais influenciados por sua obra. Na trama, o jovem Arkádi Nikolaitch, acompanhado de seu amigo e mentor Bazárov, volta à propriedade de sua família após formar-se na universidade. Bazárov é um personagem singular: despreza qualquer autoridade, é antissocial e se autoproclama um “niilista”.

Bartleby, o escrevente – uma história de Wall Street, Herman Melville

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Autor: Herman Melville
Clássico / Conto / Lit. americana
Editora: Autêntica
Páginas: 152
Ano: 2015
Ano de Publicação Original: 1853

 

Uma amiga me emprestou Bartleby, o escrevente, de Herman Melville, autor de Moby Dick, e me disse: é curtinho, em um instante você lerá. De fato, é curto, mas ele se agiganta dentro do leitor e não acaba quando viramos a última página. Ficamos horas a fio pensando nos quês e nos porquês.

Bartleby é contratado pelo narrador dessa história, um advogado, para trabalhar como copista em seu escritório. A princípio, ele exerce sua função corretamente, depois se recusa a fazer certas atividades, até que para completamente de trabalhar – e não reage a nada.

Ele me lembrou Meursault, personagem de O Estrangeiro, livro lançado cerca de meio século depois, dentro da chamada teoria do absurdo, do francês Albert Camus. Os dois tem aquele “dar de ombros” sem fim, aquela apatia que deixa o leitor com vontade de sacudir o personagem, de mandar agir ou esboçar reação.

O conto traz problemas bem comuns no nosso dia-a-dia. O quão atual não é uma pessoa que, diante de uma situação difícil de resolver, passa a adiar a tentativa de solucionar o caso? Essa mesma pessoa, que sentia apenas um pequeno incômodo, passar a ver tudo como um enorme fardo a partir do momento em que terceiros começam a julgá-lo, a apontar o dedo em sua direção, a questioná-lo. Será que é sempre assim, nos incomodamos mais pela reação que os outros tem do que pelo real incômodo?

E quanto aos colegas de trabalho, suas alternâncias de humor, seus dedos apontados… São personagens que parecem tão simples, mas carregam inúmeras faces.

O que dizer também dos janelões… imensos, grandiosos! Eles não estão na história por acaso. Enormes vidraças que deveriam servir para contemplação e entrada de luz natural, servem apenas para ver a parede de tijolos do prédio vizinho. Luz? Entra pouquíssimo… Então vem a solidão, a loucura, entramos no tal “absurdo”…

Que pequeno grande livro! Diz muito mais do que conta, merece ser descamado, merece ser lido… e – dada as inúmeras interpretações possíveis – merece ser relido.

5 Estrelas

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Sinopse: Um advogado nova-iorquino de meados do século XIX resolve contratar um novo copista. Atendendo ao anúncio do advogado, apresenta-se à porta de seu escritório um jovem que ele caracteriza como uma figura “palidamente asseada, lastimosamente respeitável, incuravelmente desolada”. Era Bartleby. No começo, o novo copista trabalhava fazendo o que se esperava dele: cópias.

Mas, depois, bem, depois, não vamos estragar a história. Bartleby, o escrevente_ é um conto de Herman Melville (1819-1891), o autor de _Moby Dick, publicado pela primeira vez em 1853. O personagem central é tão marcante e o conto tem uma força tal que Bartleby tem fascinado leitores e críticos desde sua primeira publicação.

Foi, contemporaneamente, teorizado por filósofos tão ilustres quanto Gilles Deleuze, Jacques Derrida, e Giorgio Agamben (v. Bartleby, ou da contingência, Autêntica, 2015). A presente edição apresenta o conto numa nova tradução ao lado do original em inglês.

O Barco das Crianças, Mario Vargas Llosa

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O barco das crianças

 

Autor: Mario Vargas Llosa
Ilustradora: Zuzanna Celej
Ficção Juvenil / Lit. Hispano-americana /
Lit. Latino-americana / Nobel
Editora: Alfaguara
Páginas: 112
Ano: 2016

 

O Barco das Crianças é uma bela e comovente história escrita por ninguém menos que Mario Vargas Llosa, vencedor do Nobel de Literatura de 2010, voltada para o público infantojuvenil.

História, ficção e fantasia se misturam nas conversas de um velhinho solitário e Fonchito, uma criança curiosa. De sua casa, Fonchito observava o velhinho sentado em um banco, contemplando o mar. Certo dia, ele resolve ir lá para descobrir o que tanto o homem olhava. A resposta vem em forma de uma história interessantíssima sobre a Cruzada das Crianças, contada pelo velhinho, um pouco por dia.

Aparenta ser um livro bem infantil, pelo título, capa, ilustrações e tamanho do texto, mas pode ser um pouco pesado para as crianças menores, já que fala da Cruzada das Crianças.

Uma mistura de lenda e História, essa Cruzada teria acontecido por volta do século XII, na Europa, e assim como as demais Cruzadas, tinha a intenção de recuperar Jerusalém e devolvê-la aos cristãos. As crianças teriam partido do porto de Marselha e as que não morreram de frio, de fome ou afogadas, terminaram vendidas como escravas. Ou talvez tenham terminado como nos conta o velhinho… quem sabe?!

O livro é lindo de todas as formas. As ilustrações [aquarelas] são muito bonitas, bem delicadas e tem um quê de nostalgia, tem algo que me fez lembrar-me de um livro infantil – da Coleção Mundo da Criança – que eu lia na casa da minha avó quando era pequena.

Llosa tenta resgatar nas crianças a vontade e o interesse delas em conversar com os mais velhos, em ouvir o que eles tem para lhes contar. Essa troca saudável entre gerações tão diferentes está cada dia mais rara, infelizmente. Pontos para o autor!

Além de ter muito conteúdo histórico para ser aprendido, O Barco das Crianças é meio mágico, deixa enigmas no ar e inúmeras possibilidades de interpretação.

Um livro um pouco triste, meio melancólico, mas encantador. Simples e, ao mesmo tempo, rico. Uma história singela, escrita com esmero para todas as idades. Uma contribuição e tanto de Vargas Llosa para o mundo da boa literatura infantojuvenil.

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Esse livro:

Ilustrado *** História *** Para ler em família *** Lida com a morte *** Texto rico

HdP - Selo Crescidinhos HdP - Selo Família

 

 

 

 

 

Sinopse: Diariamente, ao se preparar para ir à escola, Fonchito vê de sua casa um homem sentado no banco do parque, contemplando o mar. Intrigado, resolve ir ao seu encontro e perguntar o que ele procura ali, todas as manhãs. O velhinho, com um sorriso nos lábios, decide compartilhar com Fonchito uma história muito antiga e… extraordinária. Assim, sempre antes de o ônibus da escola chegar, Fonchito ouve um novo capítulo das aventuras de um barco cheio de crianças que, desde a época das Cruzadas, singra os mares do mundo. Inspirado pelo conto A cruzada das crianças, de Marcel Schwob (1867-1905), Mario Vargas Llosa compõe uma bela ficção histórica com ecos de fábulas e mitos antigos.