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a pianista

 

 

Autora: Elfriede Jelinek
Nobel / Literatura Européia
Editora: Tordesilhas
Páginas: 336
Ano: 2011
Publicação Original: 1983

 

Céus! Por onde começo? Começo dizendo que é nauseante e perturbador ou que é fascinante e impecável? Começo pela crueldade exasperante ou pelo ritmo frenético? Não sei, só sei que nada, absolutamente nada, que eu escreva fará justiça a essa narrativa.

Estava eu na livraria passando a vista – e as mãos – nas lombadas dos livros quando esse título me chamou atenção. Claro, uma amante da música clássica logo se interessa por algo como A Pianista. Então, a livreira, muito boa, diga-se de passagem, aproximou-se e começou a falar maravilhas desse livro. A adaptação para o cinema fora premiada no Festival de Cannes e a escritora (e pianista), a austríaca Elfriede Jelinek, ganhara o Nobel de Literatura em 2004. Eu não precisava de mais atrativos para levá-lo, mas até então achava que se tratava de uma história bonita e emocionante. É o oposto, lhes digo! E ainda assim, magnífica!

A Pianista (ou A professora de Piano, tradução do título original) fala de uma relação destrutiva e obsessiva entre mãe e filha. Erika Kohut, a filha, é uma professora de piano de meia idade que ainda vive na asa da mãe, que a comanda sob rédeas curtíssimas. A mãe, que a criou sozinha, forçou-lhe o sonho de ser uma pianista de sucesso. Na infância, enquanto as outras crianças brincavam, Erika estudava até calejar.

Para Erika não há privacidade, não há hora de lazer e tampouco pode gastar seu salário como deseja. Mãe e filha dividem a mesma cama, o quarto não tem tranca e as mãos de Erika estão sempre sob o olhar vigilante da mãe para que ela permaneça imaculada. Se Erika sai da linha, apanha. E no meio dessa confusão, eis que surge o jovem aluno Klemmer, por quem a professora se apaixona. Será sua salvação ou sua completa destruição?

Qual o limite de uma mãe? Até que ponto é saudável repassar seus sonhos frustrados para os ombros de uma filha? Logo no início do livro conseguimos relacionar essas duas personagens fictícias com outras tantas da vida real. A autora alfineta essa dependência (ou interdependência), mais comum do que imaginamos, de mães que vivem exclusivamente em função de seus filhos e que, quando estes saem do casulo, entram em desespero ou depressão, como se a sua vida já não fizesse sentido.

A sra. Kohut não quer que a filha se relacione com ninguém, para que sejam sempre as duas, sua televisão e nada mais, e para que o salário seja poupado e assim, um dia, possam ter um apartamento melhor. Erika admira as vitrines e compra vestidos sem que sua mãe saiba, mas não os veste. Que comportamento podemos esperar de uma relação tão doentia? Erika é fria e seca de tanto desejo repreendido. Sempre que pode, escapole. Consome pornografia barata e o voyerismo é seu escape, o que a leva a bairros sujos e parques escuros. Mas tem pressa, seu tempo é limitado, pois a sra. Kohut a espera todos os dias, sabe todos os seus horários, conhece sua rotina e seus alunos. Não dá brecha para erros.

Ela não sente prazer. Sente-se tão murcha e insensível que o sadomasoquismo e a autoflagelação é o que ainda pode lhe propiciar alguma sensação. E quando uma mulher assim se apaixona? Para Erika a relação de dominação e submissão é a única que conhece, a única sob a qual viveu todos esses anos. Um manda, outro obedece. Um falha, outro castiga. Mas e quando Klemmer percebe que a entrega não existe, que a submissão não é arbitrária, mas uma imposição com regras e limites estabelecidos por quem se diz submissa?

É assustador saber que a autora admite ter traços autobiográficos nesse livro. Há uma cena de autoflagelação chocante, dura e repulsiva, e é preciso estômago para seguir adiante. Aliás, há duas cenas assim e me pergunto até que ponto são fictícias.

A autora critica um lado, o lado ruim, da extrema rigidez e disciplina austríaca em relação à música erudita. Nada nesse livro é visto a partir do lado positivo, devo salientar. Nada é romanceado. Tudo é feio, nada é bonito. Nem mesmo as interpretações das músicas de Bach, Brahms ou Schummann escapam. Não mostra o lado mágico, mas o mecânico e sem emoção. Apesar da forte crítica à sociedade vienense ser atemporal, deve-se ter em mente que o livro foi lançado há três décadas e que muito daquele conservadorismo exacerbado já se abrandou um pouco.

Mais do que o tema, a escrita é a alma desse livro. Uma narrativa impecável! Um narrador onisciente que, com destreza, consegue intercalar as vozes dos três personagens-chave sem precisar nem ao menos finalizar um parágrafo. A autora escreve de maneira brilhante em uma narrativa abarrotada de metáforas e analogias, em um ritmo eletrizante. A voracidade e agressividade de suas palavras consomem o leitor e é impossível não entrar naquele espiral alucinatório de sua mente.

Seus personagens são repulsivos e não causam simpatia nem piedade alguma. Quem me dera ter conhecimento suficiente no campo da psicologia para poder ter o deleite de analisar e interpretar essas mentes com mais profundidade.

Seria estranho recomendar um livro extremamente perturbador? Recomendo-o! Quem se arriscar na sua perversidade vulgar, nua e crua, ganhará em troca uma leitura de sensações difíceis de serem descritas, uma experiência única, rica e diferente.

5 Estrelas

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

** Autora ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2004 (Clique aqui para ver mais resenhas de vencedores de Nobel)

a pianista elfriede jelinek

Sinopse: Publicado em 1983, o romance A pianista foi um gerador instantâneo de polêmicas, sobretudo pela forma direta pela qual expõe as perversões sexuais da protagonista e sua conturbada relação com a mãe. Além disso, foi sentido como um soco no estômago pela moral da classe média austríaca, um triste prenúncio dos escândalos que temos acompanhado ultimamente, como entende o apurado posfácio de Marcelo Backes. 
A escrita envolvente de Jelinek, com seu ritmo e idiossincrasia próprios, transportados com maestria ao português por Luis S. Krausz, narra em ordem não linear a história de Erika Kohut, concertista frustrada que se limita a dar aulas de piano no Conservatório de Viena. Aos 36 anos, Erika ainda mora na casa da mãe, com quem divide a mesma cama. A relação das duas é, ao mesmo tempo, de dependência e ódio. Em uma das primeiras passagens do romance, vemos uma luta que transcende o jogo de nervos e se torna física; por fim, Erika arranca um tufo dos cabelos da mãe. No transcorrer do romance, surge entre as duas o pior pesadelo para a mãe: um homem que se apaixona pela filha, Walter Klemmer, estudante de música. A devoção de Klemmer é manipulada por Erika, que faz dessa paixão uma neurótica relação masoquista – registrada numa carta em que a pianista pede para ser torturada pelo jovem –, enquanto deflagra uma guerra doméstica contra a mãe.