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Ainda nos dias de hoje, em pleno século XXI, os leitores sofrem com o inaceitável preconceito literário. Basta dar uma navegada nas redes sociais para perceber que a intolerância insiste em dar as caras, o chato metido a intelectual parece ser uma espécie que jamais entrará em extinção. (notem que chamo de chato o metido a intelectual, e não o intelectual, o culto, o educado, o inteligente e respeitoso – esse merece sempre minha admiração.)

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Consideremos como tribo um grupo de leitores que tem gosto em comum, participam dos mesmos fóruns de discussão, dos mesmos grupos de leitura e, portanto, terminam se acostumando com opiniões parecidas com a sua. Quando o leitor se afasta de sua tribo, começa a perceber que seu gosto, por mais estranho que isso possa parecer, incomoda alguém.

Os gêneros da ficção são inúmeros, mas uma parte dos leitores acha que só um tipo é válido: o que eles consideram culto. Não basta pensar que os outros leitores são inferiores, nem basta se pabular do que leu, esses “críticos” adoram menosprezar quem não se encaixa na tribo cult.

Esse preconceito em relação aos best-sellers não é novidade. Essa tribo que se considera intelectual sempre repete clichês como “Odeio best-sellers”. Como se ‘best-seller’ fosse um gênero literário e todos os livros que vendem muito fossem iguais. Victor Hugo e Goethe já foram best-sellers, e aí?!

Há que se separar a literatura de entretenimento da acadêmica, da obrigatória para quem é do ramo. Existe a leitura por hobby e a leitura para quem trabalha com isso. Imagine alguém chegando em casa, estressado após um dia exaustivo de trabalho, cheio de problemas pessoais. Esse alguém vai à estante e escolhe um livro. O que você escolheria? Um livro denso, que requer muita concentração e esforço, ou um romance leve, divertido, que vai lhe relaxar? É tão difícil entender a diferença?

Não me entendam mal, não sou contra a leitura de livros clássicos, sérios ou densos, mas há hora para tudo e o leitor jamais deve ser julgado por suas escolhas. Estou sempre com mais de 1 livro em andamento: um clássico, uma biografia, um romance bobo e um romance “bom”, por exemplo. Eles me dão opções suficientes para ter o que ler em cada momento. Ando mais devagar com uns que com outros e não vejo problema algum com isso. Ler Balzac não me impede de gostar de Jogos Vorazes. E se um dia o fizer, ótimo, verei em todos os leitores de best-sellers potenciais leitores de clássicos. É tão simples!

Uma importante revista postou em sua página no Facebook no fim de 2014 que o livro do ano fora A Culpa é das Estrelas. O livro de John Green passou meses ocupando o topo da lista dos mais vendidos, então, claro, não haveria problema em destacá-lo, certo? Infelizmente, errado! Fiquei boquiaberta aos abrir os comentários e senti vergonha de ser conterrânea daqueles, er…, cidadãos.

Os comentários xingavam não só o livro, mas os leitores. Variavam entre “Oi??? Literatura?” e “Lixo” a “Escolher isso é querer nivelar por baixo né”. Fico me perguntando qual livro esses “críticos” queriam ver como o mais vendido do ano. Algum do Faulkner? Ou, quem sabe, Em Busca do Tempo Perdido, de Proust?

Um comentário em especial chamou a minha atenção: “Com todo respeito, mas chamar isso de literatura é uma afronta aos grandes escritores. Essa ‘onda’ de livros ‘young adult’ está tornando os jovens cada vez mais alienados. Trágico!” 

Humm…Interessante. Pulemos o “com todo respeito…”, por motivos óbvios, e passemos a “afronta aos grandes escritores”. Por que um escritor que vende muito seria uma “afronta aos grandes escritores”? Quem estaria apto a dizer que escritor X é ruim e Y é bom? Qual seria o limite entre literatura e o que eles chamam de “não-literatura”?

Os grandes escritores são selecionados pelo tempo, que se encarrega de eternizar as grandes obras, mas isso não diminui a importância da literatura de entretenimento, dos best-sellers, dos livros que, por um motivo ou outro, encantam uma geração.

Essa ‘onda’ de ‘young adult’, como fala a especialista super-cult, tem iniciado milhares de jovens no mundo da leitura. Harry Potter começou a formar, há quase 20 anos, uma legião de leitores cada vez mais ávidos por histórias que lhe despertem para novos mundos, que lhe instiguem, lhe provoquem, lhe façam sorrir, que lhe deem prazer. São esses mesmos jovens que hoje movimentam o mercado editorial no Brasil, que lotam os eventos de livros e que tem encontrado em escritores populares, ídolos. Seria isso algo ruim? Idolatrar sempre foi uma característica da adolescência, então por qual motivo não poderiam eleger um autor, ao invés de um cantor ou ator, para ser seu ídolo? Isso é ser alienado?! Pior, seria isso algo “trágico”?! Vejam bem, ela diz que é TRÁGICO!

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Ainda me lembro de muitos professores reclamando, dizendo que os adolescentes tinham que ler Machado de Assis e Graciliano Ramos, pois Harry Potter era literaturazinha passageira, coisa de criança. Passageira? An…ram… Certo dia, olhando a lista dos 10 livros mais vendidos da semana, percebi que 8 deles eram livros young-adult (jovem adulto), e isso continuou por semanas. Isso poderia significar que só se lê livros desse tipo hoje em dia, mas não é o que tem mostrado o mercado e as feiras especializadas. Não são os adultos que estão lendo livros para jovens, mas são os jovens que estão consumindo a maior parte da literatura vendida no país e, portanto, estão ocupando os topos das listas.

Esses dados comprovam que, sim, Harry-Potters e Crepúsculos podem, sim, “iniciar” leitores. Será que isso é um tapa na cara dos “educadores” que um dia criticaram a leitura dessas sagas simplesmente porque não eram livros “sérios”? Aqueles mesmos educadores que insistiam que estudante brasileiro só deveria ler clássicos nacionais? Acredito que esses dados são a esperança de que teremos, em um futuro próximo, adultos que leem mais.

Vi uma reportagem com dois jovens que obtiveram nota máxima na redação do ENEM em 2014 (a mesma redação que presenteou com um zero mais de 500 mil estudantes – quinhentos mil!!!) e sabe o que eles tinham em comum? A paixão pela leitura! E em especial pela leitura dessas sagas tão criticadas, voltadas para o público jovem-adulto.

Vejo crianças de 7 anos engolindo Diários de um Banana ou Percy Jacksons. Vejo que essas mesmas crianças vão crescendo e se interessando por John Green, Meg Cabot ou a brasileiríssima Paula Pimenta, e assim sucessivamente. Sem dúvidas, o hábito da leitura por prazer plantado desde a infância leva os leitores a lerem Machado, Dickens ou as irmãs Brontë por vontade própria algum dia. O interesse muda com o tempo, as expectativas mudam, o gosto muda, apura, sofistica. Ninguém começa lendo Proust ou Turgenyev, mas se aprender a gostar de ler, um dia chega lá – se assim o desejar.

Dizer que os livros para jovens-adultos estão deixando os jovens alienados é não perceber nada que acontece a seu redor. NADA! (Lembra dos 500 mil alunos?!) Fico me questionando se esses pseudo-intelectuais moram no Brasil, um país onde a média de livros lidos por ano é de apenas 4 títulos.

Há quem pense que ler livros ruins não acrescenta em nada, que é melhor não ler nada que ler algo ruim. Há, ainda pior, quem pense que atrofia o cérebro, que uma vez lido é impossível “deslê-lo”, que o estrago já foi feito. Que bobagem! Um livro ruim atiça o lado crítico do leitor, faz com que ele que pense em muitos porquês e forme uma opinião. É claro que com isso não estou dizendo que se deva ler livros ruins, mas se um cair na sua mão, que seja aproveitado da melhor maneira.

Concordo que há livros ruins, medíocres, de péssima qualidade, especialmente com o mercado querendo vender muito, querendo lucrar. Com a facilidade de publicação que há hoje em dia, muitos escritores que jamais conseguiriam contrato com uma editora terminam lançando seus livros de forma independente no meio digital e uma parte deles é ruim mesmo. Jamais disse que os livros devem ser passíveis de críticas, pois tem muitos livros cujo português é vergonhoso, lastimável. O que enfatizo é que o leitor não deve ser menosprezado ou julgado por lê-los. Que sejamos sempre maduros e critiquemos com fundamentos sérios o livro, jamais o leitor.

É natural que depois de alguns lixos ele queira algo mais, algo melhor. Quantas vezes não vi, nos grupos de leitura, pessoas pedindo dicas de livros melhores, pois cansara de “mais do mesmo”? Quantas vezes não vi leitores pedindo dicas de clássicos para iniciantes? É um processo e ele deve ser respeitado.

Devo enfatizar que o contrário também acontece: o culto também sofre preconceito. Talvez paguem a conta dos pseudo-intelectuais sem que tenham nada a ver com isso. Muitas vezes, comentar que está lendo James Joyce, por exemplo, leva alguns a torcerem o nariz, a acharem que o comentário é apenas para se mostrar culto ou inteligente, quando na verdade o leitor só quer ter com quem conversar sobre uma excelente leitura que fez. O preconceito é abominável de qualquer forma e essa conversa de que quem só lê clássicos ou livros “difíceis” é um chato ou coisa parecida é tão ruim quanto julgar os que leem best-sellers.

John Green pode, sim, levar a Tolstoi, mas forçar um livro chato e enfadonho leva à desistência. Obrigar alguém a ler um livro cansativo logo nos primeiros anos de vida ou nas horas de lazer é criar uma geração que repele a leitura, que a associa a algo penoso.

Que jamais percamos o prazer de ler o que queremos, que jamais tenhamos vergonha do que escolhemos. Que a evolução seja constante, mas natural e sadia, sem pressões ou constrangimentos. Que as boas leituras cheguem de mansinho e nos conquistem, que a bela escrita nos faça salivar, nos vicie, nos faça suspirar. Que os preconceituosos leiam mais para que abram suas cabeças e se tornem mais tolerantes. Que Hemingways, Virginias e Goethes possam conviver em paz na mesma estante que Colleens, Kieras e Perkins.

Que desgostemos sem medo de qualquer livro, que possamos dar nossa opinião mais sincera, mas que jamais desrespeitemos aqueles que tem opinião contrária. Que o respeito seja sempre o princípio básico e que a paixão pelas palavras se espalhe, invada os lares e possa plantar sonhos no coração de cada um. Que a leitura receba sempre um enorme SIM!

eu sou livre viva livraria

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