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Hotelles

 

Autora: Emma Mars
Lit. Francesa / Lit. Erótica / Mistério
Editora: Rocco
Páginas: 496
Ano: 2015

 

Hotelles: Quarto 1 foi o livro sorteado do mês para leitura em conjunto de um grupo que participo. Pegou boa parte dos membros de surpresa: uns, já cansados de romances eróticos, não queriam ler nada do tipo nem tão cedo; outros, jamais haviam lido nada do gênero. Diante disso, devo dizer, Hotelles não tem nada a ver com a receita de bolo já batida do CEO poderoso que se apaixona pela mocinha ingênua e, assim, surpreendeu positivamente a maioria de nós. É literatura erótica – e é preciso distingui-la de romance erótico – com um enredo excelente, cheio de mistérios e enigmas que vão sendo desvendados ao longo da trama.

Annabelle “Elle” Lorand é uma francesa, aspirante a jornalista, que acaba se tornando uma acompanhante de luxo por influência de sua amiga, Sophia, e por precisar de dinheiro para pagar os caros tratamentos de saúde de sua mãe. Quando está com um cliente em um evento, acaba conhecendo David Barlet, que por ela se interessa, a ponto, inclusive, de lhe propor casamento. Estranhamente, Elle também se vê envolvida, de certa forma, com Louis Barlet, irmão de David.

Nesse período, ela recebe misteriosamente um caderno e passa a receber cartas anônimas, com conteúdo sexual, charadas e instruções, que a encorajam a pensar mais em quem ela realmente é e a escrever seus pensamentos pecaminosos do dia, para que ela possa revelar-se a si mesma.

O que escondem os irmãos Barlet? Quais suas reais intenções? O que é verdade e o que é mentira? Quem envia as cartas anônimas? Quem envia as instruções tão fielmente seguidas e bem desvendadas por Elle? Quem seria essa espécie de mestre cuja intenção era…hum…educar uma prostituta?

“Infelizmente, a realidade não é Caim e Abel […] Ela é sempre infinitamente mais emaranhada. E nosso papel é justamente o de destrinçar essa meada inextricável. O de puxar o fio desse novelo para depois mostrá-lo ao público, sem jamais imputar a quem quer que seja um suposto pecado original. Não existe uma causa primordial. Não há apenas um ponto visível na longa cadeia da casualidade. Compete a nós escolher um ponto e explicar por que o escolhemos.”

Fiquei cheia de perguntas, tentando entender aquela teia que envolvia e emaranhava os personagens, e isso foi a maior – e melhor – surpresa do livro. Eu não esperava um enredo com tantas intrigas, com tanto suspense e reviravoltas, com um jogo de mistérios a ser desvendado.

Hotelles é narrado em primeira pessoa, com um vocabulário rico e uma linguagem elegante – até onde pode ser um livro desse gênero, claro. Tem-se a sensação de estar sentada diante de uma antiga cortesã que conta sua história com um certo glamour decadente, típico da Paris do pecado. Aliás, tive a sensação de que não só a história se passava em algum período do passado, como também fora escrita nele.

Com um texto tão atemporal, a autora peca ao citar duas ou três vezes palavras como smartphone e 3g, desnecessárias a meu ver. Sem necessidade também são algumas das cartas escritas pela própria Elle, que vulgariza um pouco o livro.

É escolha das “hotelles” estender ou não a noite com os clientes, e quando isso é feito elas vão ao Hôtel des Charmes, um lugar onde cada quarto homenageia uma antiga e famosa cortesã parisiense. A autora descreve esses ambientes com uma riqueza de detalhes que me encantou. Conta também curiosidades daquelas que dão nome aos quartos e, mesmo que não tenham sido as pessoas mais importantes do mundo, me vi querendo bisbilhotar suas vidas.

“Toda ou quase toda a história amorosa de Napoleão Bonaparte se passou dentro deste pequeno perímetro. […] A algumas ruas daqui ele viu Joséphine pela primeira vez. E dentro desse palácio hoje desaparecido ele recebia a maior parte de suas inúmeras amantes.”

A autora cita, despretensiosamente, arte, arquitetura, decoração. Cita nomes como Liszt, Chopin ou Mata Hari. Conta-nos fofocas da Paris de outrora e faz com que caminhemos pelas suas ruas com propriedade. Brinda-nos com descrições de cheiros e fragrâncias, uma vez que a personagem principal tem uma sensibilidade olfativa impressionante.

Os personagens são bem desenvolvidos, mas não nos mostram a cara à primeira vista. Vamos vendo cair, uma por uma, as máscaras que lhes escondem, vamos descobrindo-lhes aos poucos.

Como ponto negativo, cito uma certa inverossimilhança em alguns fatos que acontecem. É difícil imaginar alguém aceitando e desvendando tão facilmente todos aqueles enigmas, mas tentei entrar na fantasia da autora.

É difícil recomendar de olhos fechados, pois certamente não é um livro que vá agradar a todos. Alguns, talvez, podem achar o ritmo um pouco lento; outros, podem sentir falta de romantismo, de amor.

É o primeiro livro de uma trilogia e o mais curioso é que o gancho para o segundo livro não está no final, mas no começo do primeiro livro. Ainda assim, tem um final satisfatório e não deixa aquela sensação de história incompleta. Quando os demais forem lançados, porém, certamente os lerei.

Em suma, um livro muito bem escrito, rico em detalhes, com personagens bem estruturados e uma trama envolvente, que faz o leitor querer virar página após página sem parar. A escrita, a originalidade e a imprevisibilidade da história foi o que me conquistou, e o fato de que tudo isso se passa em Paris foi um deleite à parte.

3.5 corações 4 Estrelas

 

“Ela estava sem nenhuma dúvida executando um serviço encomendado, mas, como todas as acompanhantes de alto luxo, sabia dar a seus gestos fabricados a ilusão do sentimento. Atriz, mais do que prostituta.”

“Então era verdade o que diziam: os olhares de desejo tinham o efeito de nos moldar, de exaltar em nós o que há se mais belo, de mais amável. E os olhares colados em mim na véspera tinham definitivamente me livrado dos resíduos adolescentes grudados até hoje. Eu tinha deixado minha antiga pele no Des Charmes e saído de lá nova, vestida com um novo eu capaz de se sentir belo e desejável. Que quisessem possuir este novo corpo não me parecia mais absurdo.”

“Eu não era a única que se metamorfoseara. Nele, a modificação era mais sutil ainda, no espaço de um segundo eu teria jurado captar nos seus lábios o mesmo sorriso canalha, cruel e canibal, que Louis pousava em suas presas.”

“As notas de baunilha e lavanda que escapavam pela janela entreaberta confundiam-se com o perfume das plantas. Tal era o poder de Louis Barlet: em toda parte deixar sua marca, moldar cada lugar, cada situação à sua exata imagem, reconfigurá-la apenas pelo poder de sua presença, como quis fazer comigo ao escrever meu nome pela cidade.”

hotelles quarto 1 banner

Sinopse: Hotelles: Quarto 1 – Um quarto de hotel no meio da tarde, na sempre sedutora Paris, é o cenário escolhido pela escritora francesa Emma Mars para contar a história de Annabelle, jovem jornalista que trabalha esporadicamente como acompanhante de luxo. É no Hôtel des Charmes que ela conhece o atraente David Barlet, um magnata da mídia com quem engrena um relacionamento, sem deixar de manter encontros com outros clientes. Presa a um arriscado e excitante jogo sexual, Annabelle protagoniza uma história rica em detalhes picantes, sem cair na vulgaridade. Espécie de versão contemporânea do clássico Bela da tarde, Hotelles – Quarto 1 é o primeiro de uma trilogia que mistura romance, mistério e intrigas, temperada com uma boa dose de sensualidade.

Mas nem tudo é um mar de rosas, pois entre eles há um segredo. Quem será o enigmático homem enviando a Elle mensagens que parecem adivinhar seus desejos mais secretos? Por que ela se submete a suas instruções e se deixa atrair novamente até o hotel, tornando-se prisioneira desse arriscado jogo sexual?

Acompanhe Elle na descoberta de suas fantasias e deixe-se levar também por essa história rica em detalhes, com uma mescla bem dosada de erotismo, suspense e mistério. 

 

 

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