O Pintassilgo, Donna Tartt

O Pintassilgo
Autora: Donna Tartt
Pulitzer 2014 / Ficção realística
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 721
Ano: 2014

 

Quando marco para ler um livro que ganhou um prêmio como o Pulitzer já vou preparada para uma leitura, no mínimo, “diferente”. Tanto pode ser boa como ruim, mas geralmente foge do comum. Terminei O Pintassilgo sem saber muito para que lado enveredar, mas continuo com o primeiro pensamento: diferente. Em que sentido? No modo como uma história simples foi contada – e alongada – por mais de 700 páginas.

O Pintassilgo conta a história de Theo, um garoto nova-iorquino que sobreviveu ao atentado terrorista que matou sua mãe. Sem ter para onde ir, termina acolhido na família de Andy, um amigo rico, e passa a ser um estranho naquele ninho. Tempos depois, seu pai reaparece e o leva para viver com ele e sua namorada em Las Vegas. É lá que ele conhece Boris (por que existem tantos Boris nesse mundo, por quê?!), um garoto encrenca, e a partir de onde tudo começa a desandar. Quando volta a Nova Iorque, passa a trabalhar em um antiquário com Hobie, um senhor que lhe ensina técnicas de restauração. Será que esse trabalho pode reverter os danos que “las vegas” lhe causou?

Não sabia bem o que esperar desse livro e seu início logo me mostrou que seria preciso paciência, que a história em si nem era o mais importante. Como já sabia pela sinopse que a mãe do garoto morria, pensei que leria isso logo de cara, mas não é o que acontece. São páginas e mais páginas, fatos e mais fatos, detalhes e mais detalhes até que tudo aconteça. Dizer que a autora foi bem prolixa pode soar como algo negativo, mas direi mesmo assim. Prolixa. Muito! No entanto, mesmo alongada, a leitura não foi entediante. Arrastada, sim. Chata, não. E isso pode parecer contraditório, mas foi bem o que senti, e talvez seja um dos fatores que diferencia um bom escritor de um ruim.

Donna Tartt nos passa a sensação de que ela é facilmente distraída por qualquer assunto que lhe venha a mente. É como se ela estivesse nos contando algo importante, mas qualquer besouro que passe por perto merece suas quinzes páginas de história. E com isso temos um livro pra lá de extenso, com uma história que não sai muito do lugar, mas que dá brechas para reflexões profundas. Não quero usar a palavra tédio, pois não a acho adequada, já que a autora tem o talento de nos deixar presos, atentos, sem pestanejar, fascinados com o que nos conta, mas por muitas vezes tudo é muito maçante.

O livro é escrito em primeira pessoa e em longos capítulos, mas estes se subdividem em pequenas partes, o que acelera um pouco a leitura. A escrita é muito boa, flui com uma facilidade impressionante e, incrivelmente, não é repetitiva. Digo isso porque a vida do protagonista, essa sim, é repetitiva. Os anos passam, ele muda de amigos, de casa, de cidade, de emprego, de amores, mas é como se sua vida fosse a mesma um dia após o outro, como se ele ainda estivesse preso naquele museu onde aconteceu o atentado. Ou, talvez, como se ele não devesse ter sobrevivido, simplesmente, como se não houvesse escapatória para episódios assim.

O Pintassilgo nos mostra – lentamente – as consequências de perder seu referencial de vida tão cedo, nos mostra como um adolescente precisa de bons exemplos, de atenção, de cuidado e, principalmente, de orientação. É o livro dos “se”. E se ele tivesse… e se não estivesse… e se ela não pudesse… e se… e se… e se… Será que somos quase sempre produtos do meio? Será que a boa índole prevalece? Existem pessoas mais influenciáveis que as outras?

É bem conflitante falar desse livro, pois se por um lado ele é fantástico, por outro, sua história é bastante depressiva e triste. A autora realmente me fez refletir sobre os Theos perdidos pelo mundo, sobre como se tornam facilmente invisíveis, como são vulneráveis e rapidamente engolidos por qualquer escape, por mais momentâneo e arriscado que seja. Há vida sem um propósito, sem um sonho, sem uma meta?

Um dos pontos altos do enredo é que ele está sempre mencionando arte, seus pintores e pinturas. Para quem gosta de arte, como eu, isso é, digamos, uma “tomada de fôlego” no meio de todo esse turbilhão.

É difícil dizer que recomendo, pois é estranho indicar uma história um tanto deprimente como essa. Aos que, mesmo sabendo de sua melancolia e prolixidade, ainda se interessaram pelas reflexões que ele traz, certamente terão uma leitura interessante.

3 corações 4.5 Estrelas
o pintassilgo donna tartt

Sinopse: Quando Theo Decker, nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe, o pai o abandona e a família de um amigo rico o adota. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com os quais não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma lembrança poderosa de seu último momento ao lado dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte.
Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração.
O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.
 

4 respostas em “O Pintassilgo, Donna Tartt

  1. Oi Carol, entende bem essa descrição de arrastado, mas não chato. Tenho evitado livros muito grandes porque não consigo não me irritar com algumas enrolações que os autores fazem. Mas sei também que tem alguns que merecem ser lidos, só que, depois de ler essa resenha, acho que não quero ler esse 🙂

    beijos

    Curtido por 1 pessoa

    • Julia, tem que estar bem no clima de um livro arrastado e meio depressivo mesmo (se é que existe o dia em que estamos nesse clima rsrs) Mas apesar de ter gostado e de entender bem o porquê dele ter ganhado o Pulitzer, não consigo sair recomendando ele sem ressalvas. :)))
      Bjs

      Curtir

Deixar um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.