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a mulher de trinta anos balzac

Autor: Honoré de Balzac
Clássico / Literatura Francesa
Editora: L&PM
Páginas: 207
Ano: 2011
Ano de Publicação Original: 1842

 

A Mulher de Trinta Anos, um dos cerca de 90 romances que compõem a grandiosa A Comédia Humana de Balzac, apesar de ser sua história mais famosa, não é considerada a melhor. De toda forma, gostei muito do que li e fiquei entusiasmada para ler mais de sua obra.

A escrita foi o que mais me encantou, muito mais do que a história em si, que se perde um pouco por falta de continuidade entre os capítulos e por personagens que aparecem e desaparecem sem muitas explicações. Na verdade, essa imprecisão se deve ao fato de esses capítulos terem sido lançados originalmente como contos ou episódios separados, apesar de compartilharem a mesma protagonista, Júlia. Só depois, ao reunir suas histórias para a criação de A Comédia Humana, Balzac une (e retoca) as 6 partes que compõem A Mulher de Trinta Anos. Li que era comum ele deixar histórias incompletas, para serem reparadas depois, enquanto escrevia outra e outra e outra. Excentricidades de gênio, claro. rs

O autor é aclamado por ter feito um retrato da sociedade parisiense pós-napoleônica muito além do que seus contemporâneos conseguiam enxergar. Sua análise do comportamento feminino é considerada ainda atual, e lendo suas percepções sobre a menina, a mulher, a esposa e a mãe Júlia facilmente entendemos porque. Guardadas as devidas diferenças de época e costumes, sim, muito do que lemos é exatamente o que sente uma mulher. Minha única ressalva (e talvez decepção) é que a mulher escolhida é a desiludida. E não somos todas desiludidas, certo? Não no século XXI.

“O coração tem uma memória que é só dele. Uma mulher incapaz de recordar os acontecimentos mais graves irá lembrar-se por toda vida das coisas que importam a seus sentimentos.”

Apesar das imprecisões cronológicas já citadas, a escrita é tão fascinante que os fatos em si ficam em segundo (ou terceiro) plano. Balzac é tão detalhista que facilmente nos transportamos para aqueles cenários e visualizamos cada personagem, e parece até que conseguimos enxergar dentro de cada um deles. A adjetivação excessiva pode desagradar aos mais minimalistas, mas não a mim. Para mim foi um deleite.

Por mais que o título dê a entender que se trata apenas da mulher na faixa do 30, o que temos aqui é toda a vida de Júlia, desde a adolescência. Conhecemos a Júlia jovem, querendo casar-se com Vitor d’Aiglemont. Mesmo alertada pelo pai de que essa não seria uma boa escolha, Júlia se casa e logo percebe seu erro. A partir daí vamos conhecendo mais da Júlia desiludida, do seu comportamento, suas tristezas e frustrações (e novas paixões?). Balzac passa a exaltar a mulher madura, comparando-a e diferenciando-a da jovem.

“…uma jovem tem ilusões demais, é inexperiente demais e o sexo é cúmplice demais de seu amor, para que um rapaz possa sentir-se lisonjeado; ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios a serem feitos. Enquanto uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe. Essa escolha já não é uma imensa lisonja? Armada de um saber obtido quase sempre ao preço de infelicidades, a mulher experiente, ao que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar. […] Uma jovem só será amante se estiver muito corrompida […]; ao passo que uma mulher tem mil maneiras de conservar ao mesmo tempo seu poder e dignidade. Uma, demasiado submissa, oferece-nos as tristes seguranças do repouso; a outra perde muito para não exigir do amor suas incontáveis metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra destrói em seu proveito uma família inteira. […] mas a mulher possui incontáveis atrativos e oculta-se sob mil véus; enfim, ela acalenta todas as vaidades, enquanto a noviça só acalenta uma. Aliás, na mulher de trinta anos agitam-se indecisões, temores, dúvidas e tempestades que jamais ocorrem no amor de uma jovem. Ao chegar a essa idade, a mulher pede a um homem jovem para restituir-lhe a estima que lhe deu; […] enquanto a jovem apenas sabe gemer. Enfim, a mulher de trinta anos pode fazer-se jovem, representar todos os papéis, ser pudica, e inclusive tornar-se mais bela com uma infelicidade.”

Mesmo com toda a inconsistência no enredo e apesar de alguns piratas que surgem no final (o que foi aquilo?), a leitura desse livro é, digamos, obrigatória para qualquer mulher. Para os homens, eu não saberia recomendar, pois não sei se têm dentro deles o que, indiscutivelmente, Balzac tinha: uma alma feminina.

“Antes de mais nada, seu instinto tão delicadamente feminino dizia-lhe que é muito mais belo obedecer a um homem de talento do que conduzir um tolo, e que uma jovem esposa, obrigada a pensar e agir como homem, não é nem mulher nem homem, abdica todos os encantos de seu sexo ao perder suas fraquezas, e não adquire nenhum dos privilégios que nossas leis reservaram aos mais fortes.”

“Quando anunciaram à marquesa a chegada do sr. de Vandenesse, ela perturbou-se; e ele sentiu-se quase envergonhado, apesar da segurança que, nos diplomatas, é uma espécie de hábito. Mas a marquesa logo adotou aquele ar afetuoso sob o qual as mulheres protegem-se contra as interpretações da vaidade. Essa atitude exclui qualquer segunda intenção e controla, por assim dizer, o sentimento temperando-o nas formas de polidez. […] Somente aos trinta anos uma mulher pode conhecer os recursos de tal situação, nela sabendo rir, gracejar, enternecer-se sem comprometer-se. Possui então o tato necessário para fazer vibrar num homem todas as cordas sensíveis, e para estudar os sons que obtém. Seu silêncio é tão perigoso como sua fala.”

“Para o desespero das mulheres, sua apresentação era impecável, e todas invejaram-lhe o corte do vestido, a forma de um corpete cujo efeito foi atribuído ao gênio de uma costureira desconhecida, pois as mulheres preferem acreditar na ciência dos vestidos do que na graça e na perfeição daquelas que sabem usá-los.”

4 corações 4 Estrelas

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Sinopse: A mulher de trinta anos – Nesta análise das mazelas do matrimônio enquanto cerceamento da mulher, o autor retrata o casamento como pilar da sociedade burguesa (pós-revolucionária, ‘o encanto do amor desapareceu em 1789’) na França. O autor traz uma imagem da situação de mulheres curvadas sob o peso de suas obrigações sociais e legais.

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