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Autora: Marguerite Duras
Literatura Francesa / romance / clássico moderno
Editora: Cosac Naify
Páginas: 112
Ano: 2007
Publicação Original: 1984

 

Antes de tudo, é preciso desmistificar Marguerite Duras. Sempre ouvi falar que seu estilo era para poucos e confesso que deixei O Amante guardado na estante por um bom tempo, esperando o momento de estar disposta a lê-lo com bastante atenção, afinal, era um livro “difícil”. Então, digo, não é esse bicho de sete cabeças que pintam.

O Amante conta um período da vida de uma mulher quando, aos 15 anos e meio, ela inicia precocemente sua vida sexual. A menina, que um dia foi rica, é pobre, mas é branca e vive na colônia francesa na Indochina – onde hoje é o Vietnã. Lá conhece um chinês, um homem mais velho que passa a ser seu amante, o amante de Cholen, em um relacionamento que envolve dinheiro. Marguerite nos conta como foi essa relação, tendo como pano de fundo a família problemática da protagonista: uma mãe depressiva, um irmão mais velho viciado que rouba o que pode da mãe e um irmão mais novo e frágil.

O livro é considerado a obra mais autobiográfica de Duras, a própria autora admite isso, mas há os que acreditam que ela construiu o próprio mito, que ninguém jamais saberá o que aconteceu de fato, que ninguém jamais saberá quem ela foi de verdade. Diz-se, ainda, que O Amante surgiu a partir de um conjunto de fotografias, quando seu filho pediu-lhe que ela narrasse os momentos gravados naquelas imagens. De fato, a leitura nos dá a sensação de realmente estarmos ouvindo uma senhora contar parte de suas memórias de adolescente, com um misto de nostalgia e melancolia. 

A história em si é muito simples. A arte está na brilhante estrutura da narrativa, que foge completamente dos padrões clássicos. Marguerite nos presenteia com um estilo original, um texto fragmentado, cheio de memórias soltas. A impressão que temos é a de que aquilo jamais formará uma história coesa – mas forma, claro! Aliás, eis aí a genialidade da autora.

Ela brinca com os tempos verbais magistralmente. Escreve sobre o passado ora no pretérito, ora no presente; às vezes, em primeira pessoa, se aproximando da personagem, às vezes, em terceira, se distanciando dela, como se falasse de outra mulher.

Amei a história? Não tanto. É um daqueles livros que vou marcar para reler daqui a uns dez anos, para ter uma nova percepção e ver tudo com um olhar um pouco mais maduro. Ainda assim, foi uma ótima leitura, com um texto de uma sensibilidade que salta aos olhos.

É um livro indispensável para quem gosta de literatura e admira uma narrativa irretocável. É uma aula de escrita concisa e elegante, como um tapa na cara de autores prolixos.

E aqui estou, finalizando esta resenha e pensando: por que escrevi que não gostei tanto da história se ela não me sai da cabeça, se todas as memórias lidas parecem vivas e se tenho a sensação de que elas jamais se apagarão? Não sei, vai ver é o poder dos bons escritores. 😉

5 Estrelas

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

marguerite duras o amante

Sinopse: O Amante – Considerado o livro mais autobiográfico da escritora, dramaturga e cineasta Marguerite Duras (1914-1996), “O amante”, escrito em 1984, recebeu o Prêmio Goncourt, o mais importante da literatura francesa e se consagrou como sua obra mais célebre. O romance narra um episódio da adolescência de Duras: sua iniciação sexual, aos quinze anos e meio, com um chinês rico de Saigon. Se as personagens e fatos são verídicos, a escrita os transfigura e transcende; não sabemos em que medida a história é verdadeira. Os encontros amorosos são, ao mesmo tempo, intensamente prazerosos e infinitamente tristes; a vida da família contrapõe amor e ódio, miséria material e riqueza afetiva. A presença da mãe, sua desgraça financeira e moral, do irmão mais velho, drogado, cruel e venal, e do irmão mais novo, frágil e oprimido, constituem uma existência predominantemente triste, e por vezes trágica, de onde Duras extrai um esplendor artístico que se reflete em sua própria pessoa – personagem enigmática, quase de ficção. Tem sido dito que ler este livro é como folhear um álbum de fotografias – a narrativa se desenrola em torno de uma série de imagens fascinantes. Esse trabalho primoroso com as imagens também pode ser verificado nos mais de vinte filmes dirigidos por Duras e na possibilidade de seus textos se transformarem em filmes, como o fez Jean-Jacques Annaud com “O amante” em 1991.

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