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Autor: Victor Hugo
Clássico / Literatura Francesa / 1001 livros
Editora: Cosac Naify
Páginas: 1972
Ano: 2012
Ano de Publicação Original: 1862

 

Como começar a escrever sobre o melhor livro que você já leu na vida? Como fazer justiça a essa grandiosidade que é Os Miseráveis? Como expressar a capacidade de Victor Hugo em conduzir e caracterizar seus personagens com tamanha coerência? Como!? Como demonstrar a imensa admiração que agora nutro por esse escritor?

Nada do que eu disser será o bastante, portanto, lhes digo: leiam-no! E aconselho que não tenham pressa, aguardem o momento certo e a disposição para adentrar nas quase duas mil densas e profundas páginas. Invistam em uma boa edição, com boa tradução, pois provavelmente será O livro da sua vida. {ao final falo sobre a minha edição} 

Eu tive a oportunidade de assistir ao musical no West End e desde então virei fã de carteirinha, daquelas que, vira e mexe, está no youtube vendo e revendo os concertos comemorativos. Mas, e quanto ao livro? Como ler tantas páginas de uma história que você já conhece e sem o fundo musical que você adora? E mais… Victor Hugo é tido por muitos como um defensor das “vítimas da sociedade”, como eu iria digerir isso? Ah, meus colegas, quem assim o interpretou só pode ter ficado bem na superfície de seu texto. Ele vai muito além disso, muito… Confundem-no como defensor de criminosos, quando na verdade ele defende os injustiçados e critica a raiz do problema.

Os Miseráveis se passa na França, na primeira metade do século XIX e tem como personagem central Jean Valjean, um homem condenado a 19 anos de prisão, a princípio por roubar um pão para alimentar os sobrinhos. Posto em liberdade, é rechaçado pela sociedade, até ser acolhido por um Bispo – e toda a sua misericórdia – que lhe aponta o caminho da redenção. E é essa árdua caminhada e sua constante luta com sua consciência que acompanhamos.

Por mais que seja uma história conhecida por muitos, prefiro não contar nada além, prefiro não falar de Fantine, de Cosette, de Marius ou de tantos outros personagens que vão, indubitavelmente, lhe encantar. São muitos, muitos personagens e todos, sem exceção, incrivelmente bem caracterizados. Ninguém aparece nessa história de fininho ou por acaso. Eles são sempre coerentes, atemporais, bem embasados, sabemos como pensam e como agem, conhecemos seu caráter e seus porquês. São tão verossímeis, tão variados, tão reais… são tantos tipos que me perguntei diversas vezes quem foi Victor Hugo. Quem foi esse profundo conhecedor da consciência, da essência e das características humanas? Essa tipificação que ele faz é sensacional.

Victor Hugo nos fala de Deus, sempre! Mostra-nos a bondade de um homem desprendido de todo o materialismo, um misericordioso; nos traz uma mãe e seu amor incondicional, sua dor, seu martírio, a angústia de não poder dar tudo o que quer para sua filha; nos traz picaretas e bandidos da pior espécie; faz-nos adentrar na mente dos revolucionários daquela época, da juventude que lutava por um país melhor; mostra-nos as terríveis injustiças que afetam a vida das pessoas e que têm um efeito dominó destruidor, como uma bola de neve sem fim. Ele nos fala de fofoca, dos fatos não apurados, da maneira irresponsável com que repassamos algo sem averiguar sua veracidade e, assim, da noite para o dia, destruímos a vida do outro.

Victor Hugo fala muito da nossa consciência e da força que ela exerce sobre nossas decisões, da luta que com ela travamos diariamente. E, principalmente, ele fala do perdão, da misericórdia e suas consequências. Faz uma profunda reflexão sobre os conventos, os claustros e a vida das irmãs que abdicam de sua liberdade.

Fala da importância do trabalho e do perigo do ócio; da necessidade de educação para todos a fim de igualar as oportunidades da população e extinguir a injustiça social; fala da História, de como ela é escrita, de como deve ser um historiador; da gíria, sua origem e seu papel na sociedade e na literatura; fala de progresso e, claro, de liberdade, igualdade e fraternidade. Critica o comunismo e a partilha, uma vez que eles extinguem a competição e, por consequência, o trabalho. Fala tudo isso de maneira tão lúcida e tão coerente que tudo tem sempre um ar de verdade absoluta.

“O crescimento intelectual e moral não é menos indispensável que o progresso material. O saber é um viático; pensar é a primeira necessidade; a verdade alimenta tanto quanto o pão.”

“Destruamos a caverna Ignorância e destruiremos a toupeira Crime”

Victor Hugo faz com que mergulhemos em Waterloo sob uma perspectiva um pouco diferente da dos livros de História. Aliás, agora posso dizer que sei o que significou a batalha de Waterloo para a Europa naquela época. Leva-nos a compreender melhor as barricadas e as inúmeras revoluções do período pós-napoleônico na França.

Ele fala, fala, fala e, por vezes, parece que o que está contando é desnecessário, exagerado ou detalhado demais, então lá na frente lhe surpreende conectando todas as pontas. São muitas páginas e a leitura não é das mais rápidas. Não por ter uma escrita difícil ou algo do tipo, mas por trazer à tona muitas reflexões acerca da condição humana.

E para rechear tudo, ainda temos um lindo romance, uma história de amor pura e singela, daquelas paixões meio proibidas, meio mágicas, um tanto poéticas, que extravasa e tudo vence.

“Tirem a esses murmúrios de dois amantes a melodia que sai da alma e que os acompanha como uma lira, e o que resta não passa de sombra. Diremos então: – Ora! só isso! – Sim, isso mesmo; criancices, repetições, risos por nada, inutilidades, bobagens, tudo o que há no mundo de mais profundo e sublime! As únicas coisas que valem a pena ser ditas e ouvidas. O homem que jamais ouviu essas ninharias, essas frivolidades, o homem que jamais as pronunciou, é um imbecil, é um mau homem.”

É difícil falar desse livro, de tudo que nele há, da sua beleza e grandiosidade… só lendo para entender. É incrível, sensacional, único! É mais que bem construído, é mais que poético, é mais que bem escrito, é mais que engenhoso. É surpreendente, apaixonante, viciante, contagiante…

“Morrer de amor é viver.”

Se antes era difícil responder qual o melhor livro que eu já lera, agora ficou fácil, facílimo! Os Miseráveis, meu querido! Todo leitor MERECE esse prazer!

5 Estrelas 5 corações

favoritos

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer” (Clique aqui para ver mais sobre o Projeto 1001 livros e as resenhas já feitas da lista)

os miseráveis edições

Sobre a minha edição:

{não é publipost} A primeira edição que comprei de Os Miseráveis foi aquela maravilhosa, em capa dura, da Martin Claret. A edição está linda, diagramação perfeita, páginas amarelas, bom tamanho de fonte, só tem um porém: é bem frágil, temos a sensação de que ele vai se desfazer se o manusearmos muito. Juntando essa fragilidade à dificuldade de carregar um volume tão grande – além de ter um bebê de 5 meses ao meu lado vinte e quatro horas por dia -, resolvi comprar o ebook da Cosac Naify. (Pra quem lê sentado com o livro apoiado em uma mesa, não vejo problemas com a edição da Martin Claret)

A comparação entre Cosac Naify e Martin Claret foi inevitável. Os trechos que eu destacava no ebook, eu tentava marcar também no livro com flags (mania minha), e fui percebendo a diferença entre as duas traduções. Qual a mais fiel? Não tenho como saber. Qual a mais poética? Da Cosac, sem dúvida. Trechos lindos que eu destacava na edição da Cosac eram um pouco sem graça na da Martin Claret. Resultado: comprei o físico da Cosac também para poder ter as benditas marcações. {ô vício!}

A da Cosac é boa para ler? Nem boa, nem ruim. É uma edição de bolso, então é aquele livro gordinho, pequeno, de páginas brancas, comum. É dividida em dois volumes e vem em um box em cartão duro.

Vi ainda uma terceira edição. Existe um ebook na Amazon que custa cerca de 10 reais, então pedi uma amostra grátis antes de escolher o da Cosac. Não recomendo, a não ser que você não se incomode quando Charles vira Carlos, e por aí vai. Eu não gosto quando traduzem nomes próprios, mas isso é bem pessoal.

É um livro que vale muito a pena investir em uma boa edição. A mais bonita é a da Martin Claret, disparada, mas para ler sugiro o ebook da Cosac.

os miseraveis 1001 livros

Desenhos super fofos dos personagens de Os Miseráveis no livro 1001 livros para ler antes de morrer

“O que é preciso para fazermos desaparecer essas larvas? Luz. Luz em quantidade. Não há morcego que resista à aurora. Iluminemos a sociedade pela parte de baixo.”

“O comunismo e a lei agrária julgam resolver o segundo problema. Mas se enganam. O modo como repartem mata a produção. A partilha igual suprime a emulação e, por consequência, o trabalho. É uma partilha feita pelo açougueiro, que mata o que divide. Portanto, não podemos aceitar essas pretensas soluções. Matar a riqueza não é reparti-la.”

Para comprar, clique nos livros abaixo:

 

Sinopse: {Cosac} Edição comemorativa do bicentenário de Victor Hugo (1802-1885), em tradução inteiramente revista e adequada à leitura contemporânea. 
Esse tratamento e a edição com 816 notas de pé de página, elucidativas do contexto histórico e cultural da França no século XIX, fazem desta a versão definitiva da obra em português. Hugo narrou seu romance magistral numa linguagem que representou para a literatura “o mesmo que a Revolução Francesa na História”, segundo o crítico Sérgio Paulo Rouanet. O fio condutor é o personagem de Jean Valjean, que, por roubar um pão para alimentar a família, é preso e passa dezenove anos encarcerado. Solto, mas repudiado socialmente, é acolhido por um bispo. O encontro transforma radicalmente sua vida e, após mudar de nome, Valjean prospera como negociante de vidrilhos, até que novos acontecimentos o reconduzem ao calabouço.

 

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