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a revolução dos bichos george orwell

 

 

Autor: George Orwell
Clássico Moderno / 1001 livros / Sátira
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 147
Ano: 2007
Ano de Publicação Original: 1945

 

Sempre quis ler 1984, obra-prima de George Orwell, mas A Revolução dos Bichos não estava nos meus planos, confesso. Até que, revirando as páginas de “1001 livros para ler antes de morrer”, me deparei com sua recomendação. Era um livro curtinho, ótimo para intercalar com as 2500 páginas da minha leitura atual. George Orwell utiliza uma granja e seus animais para satirizar o socialismo soviético e faz isso com brilhantismo. Que leitura incrível!

Major, um porco velho, discursa e deixa algumas recomendações para os animais pouco antes de sua morte. Cansados de serem explorados pelo sr. Jones e querendo seguir os preceitos do Major, os animais se rebelam. Liderados pelos porcos Napoleão {Stalin} e Bola-de-Neve {Trotski}, expulsam o granjeiro e começam uma nova sociedade, uma sociedade igualitária, justa, sem hierarquias ou mordomias – ou assim eles sonhavam. Porém – rapidamente – o poder os corrompe e a utopia desmorona. Napoleão expulsa Bola-de-Neve, torna-se um líder único, tirano, cheio de luxos, e o que parecia um regime ideal mostra-se algo pior do que viviam antes.

É um manifesto contra o comunismo, sem dúvidas, mas ele extrapola. É uma fábula sobre poder, traição e ganância. A Revolução dos Bichos desmancha e desmonta não só a utopia do socialismo soviético, mas qualquer (des)governo autoritário. É incrível como ele cai como uma luva para o momento em que vivemos, infelizmente. [Estou fazendo um esforço tremendo para não falar de política, pois não é minha intenção.]

Os animais, que se queixavam de ter que trabalhar para Jones, passam a trabalhar para consumo próprio. E trabalham, e trabalham… cada dia mais. Às vezes, eles têm a impressão de que estão trabalhando mais do que antes, mas logo chega Garganta, um porco com um poder de persuasão enorme, e lhes faz crer que antes da Revolução tudo era pior, que eles eram quase escravos e passavam fome. E, tolos e ignorantes que são, os animais acreditam.

Disciplina, camaradas, disciplina férrea! Esse é o lema para os dias que correm. Um passo em falso, e o inimigo estará sobre nós. Por certo, camaradas, não quereis Jones de volta, hein?

A vida agora tinha muito mais dignidade. Havia mais canções, mais discursos, mais desfiles.

Qualquer semelhança com a atualidade é pura imaginação de vocês! 😉 E o que falar de transformar em monstros seus inimigos?

Suponhamos que tivésseis decidido seguir Bola-de-Neve, com suas miragens de moinho de vento – logo Bola-de-Neve, que, como hoje sabemos, não passava de um criminoso.

Orwell nos mostra a arte de negar derrotas e transformá-las em vitórias, a arte de ludibriar os outros e fazer com que propaguem mentiras como se fossem verdades.

E o discurso que Napoleão fez congratulando-se com a atuação deles, pareceu-lhes que, afinal de contas, haviam obtido uma grande vitória.

Napoleão bem sabia dos maus resultados que poderiam advir caso a verdadeira situação alimentar da granja fosse conhecida […] deu ordens para que as tulhas do depósito, que estavam quase vazias, fossem recheadas de areia quase até a boca, depois completadas com cereais e farinha grossa.[…] Whymper foi ludibriado e continuou a dizer lá fora que, absolutamente, não havia falta de alimento na Granja dos Bichos.

E quanto a liberdade, o lazer, a qualidade de vida? Claro! Praticamente pilares do comunismo!

Napoleão fez saber que haveria trabalho também nos domingos à tarde. Esse trabalho era estritamente voluntário, porém o bicho que não aceitasse teria sua ração diminuída pela metade.

E as mordomias? Ah!, as mordomias… Os luxos, antes tão criticados, se tornam um deleite, completamente indispensáveis. Ah, somente aos líderes, claro.

Era absolutamente necessário […] que os porcos, sendo os cérebros da granja, tivessem um lugar calmo onde trabalhar.

Redução? Jamais. Reajuste, sim.

Naquele momento, de fato, fora necessário realizar um reajuste de rações (Garganta sempre se referia a ‘reajustes’, nunca a ‘reduções’), mas em comparação com o tempo de Jones, a diferença para melhor era enorme.

As citações falam por si só, o livro foi/é de suma importância. É preciso mencionar também a coragem de Orwell em escrever tal livro em plena II Guerra Mundial. Quanta audácia, sr. Orwell!

George foi extremamente perspicaz, inteligente e conciso. O texto flui facilmente, é claro, sagaz e, eu diria, memorável. Ele usa a ironia e o sarcasmo com tanta maestria que me fez rir de sua destreza durante a leitura. Sarcasmo esse um pouco debochado, mas sem jamais perder a fineza.

Um livro sensacional, leitura obrigatória e elucidativa. Finalizo com a melhor e mais forte citação do livro, na minha opinião:

Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros.

5 Estrelas5 coraçõesfavoritos

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer” (Clique aqui para ver mais sobre o Projeto 1001 livros e as resenhas já feitas da lista)

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Sinopse: Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, “A Revolução dos Bichos” é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos
Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista.
De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos – expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História – mimetizam os que estavam em curso na União Soviética.
Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A Revolução Dos Bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.

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