A Mulher de Trinta Anos, Honoré de Balzac

a mulher de trinta anos balzac

Autor: Honoré de Balzac
Clássico / Literatura Francesa
Editora: L&PM
Páginas: 207
Ano: 2011
Ano de Publicação Original: 1842

 

A Mulher de Trinta Anos, um dos cerca de 90 romances que compõem a grandiosa A Comédia Humana de Balzac, apesar de ser sua história mais famosa, não é considerada a melhor. De toda forma, gostei muito do que li e fiquei entusiasmada para ler mais de sua obra.

A escrita foi o que mais me encantou, muito mais do que a história em si, que se perde um pouco por falta de continuidade entre os capítulos e por personagens que aparecem e desaparecem sem muitas explicações. Na verdade, essa imprecisão se deve ao fato de esses capítulos terem sido lançados originalmente como contos ou episódios separados, apesar de compartilharem a mesma protagonista, Júlia. Só depois, ao reunir suas histórias para a criação de A Comédia Humana, Balzac une (e retoca) as 6 partes que compõem A Mulher de Trinta Anos. Li que era comum ele deixar histórias incompletas, para serem reparadas depois, enquanto escrevia outra e outra e outra. Excentricidades de gênio, claro. rs

O autor é aclamado por ter feito um retrato da sociedade parisiense pós-napoleônica muito além do que seus contemporâneos conseguiam enxergar. Sua análise do comportamento feminino é considerada ainda atual, e lendo suas percepções sobre a menina, a mulher, a esposa e a mãe Júlia facilmente entendemos porque. Guardadas as devidas diferenças de época e costumes, sim, muito do que lemos é exatamente o que sente uma mulher. Minha única ressalva (e talvez decepção) é que a mulher escolhida é a desiludida. E não somos todas desiludidas, certo? Não no século XXI.

“O coração tem uma memória que é só dele. Uma mulher incapaz de recordar os acontecimentos mais graves irá lembrar-se por toda vida das coisas que importam a seus sentimentos.”

Apesar das imprecisões cronológicas já citadas, a escrita é tão fascinante que os fatos em si ficam em segundo (ou terceiro) plano. Balzac é tão detalhista que facilmente nos transportamos para aqueles cenários e visualizamos cada personagem, e parece até que conseguimos enxergar dentro de cada um deles. A adjetivação excessiva pode desagradar aos mais minimalistas, mas não a mim. Para mim foi um deleite.

Por mais que o título dê a entender que se trata apenas da mulher na faixa do 30, o que temos aqui é toda a vida de Júlia, desde a adolescência. Conhecemos a Júlia jovem, querendo casar-se com Vitor d’Aiglemont. Mesmo alertada pelo pai de que essa não seria uma boa escolha, Júlia se casa e logo percebe seu erro. A partir daí vamos conhecendo mais da Júlia desiludida, do seu comportamento, suas tristezas e frustrações (e novas paixões?). Balzac passa a exaltar a mulher madura, comparando-a e diferenciando-a da jovem.

“…uma jovem tem ilusões demais, é inexperiente demais e o sexo é cúmplice demais de seu amor, para que um rapaz possa sentir-se lisonjeado; ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios a serem feitos. Enquanto uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas às do amor, a outra obedece a um sentimento consciencioso. Uma cede, a outra escolhe. Essa escolha já não é uma imensa lisonja? Armada de um saber obtido quase sempre ao preço de infelicidades, a mulher experiente, ao que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar. […] Uma jovem só será amante se estiver muito corrompida […]; ao passo que uma mulher tem mil maneiras de conservar ao mesmo tempo seu poder e dignidade. Uma, demasiado submissa, oferece-nos as tristes seguranças do repouso; a outra perde muito para não exigir do amor suas incontáveis metamorfoses. Uma desonra-se sozinha, a outra destrói em seu proveito uma família inteira. […] mas a mulher possui incontáveis atrativos e oculta-se sob mil véus; enfim, ela acalenta todas as vaidades, enquanto a noviça só acalenta uma. Aliás, na mulher de trinta anos agitam-se indecisões, temores, dúvidas e tempestades que jamais ocorrem no amor de uma jovem. Ao chegar a essa idade, a mulher pede a um homem jovem para restituir-lhe a estima que lhe deu; […] enquanto a jovem apenas sabe gemer. Enfim, a mulher de trinta anos pode fazer-se jovem, representar todos os papéis, ser pudica, e inclusive tornar-se mais bela com uma infelicidade.”

Mesmo com toda a inconsistência no enredo e apesar de alguns piratas que surgem no final (o que foi aquilo?), a leitura desse livro é, digamos, obrigatória para qualquer mulher. Para os homens, eu não saberia recomendar, pois não sei se têm dentro deles o que, indiscutivelmente, Balzac tinha: uma alma feminina.

“Antes de mais nada, seu instinto tão delicadamente feminino dizia-lhe que é muito mais belo obedecer a um homem de talento do que conduzir um tolo, e que uma jovem esposa, obrigada a pensar e agir como homem, não é nem mulher nem homem, abdica todos os encantos de seu sexo ao perder suas fraquezas, e não adquire nenhum dos privilégios que nossas leis reservaram aos mais fortes.”

“Quando anunciaram à marquesa a chegada do sr. de Vandenesse, ela perturbou-se; e ele sentiu-se quase envergonhado, apesar da segurança que, nos diplomatas, é uma espécie de hábito. Mas a marquesa logo adotou aquele ar afetuoso sob o qual as mulheres protegem-se contra as interpretações da vaidade. Essa atitude exclui qualquer segunda intenção e controla, por assim dizer, o sentimento temperando-o nas formas de polidez. […] Somente aos trinta anos uma mulher pode conhecer os recursos de tal situação, nela sabendo rir, gracejar, enternecer-se sem comprometer-se. Possui então o tato necessário para fazer vibrar num homem todas as cordas sensíveis, e para estudar os sons que obtém. Seu silêncio é tão perigoso como sua fala.”

“Para o desespero das mulheres, sua apresentação era impecável, e todas invejaram-lhe o corte do vestido, a forma de um corpete cujo efeito foi atribuído ao gênio de uma costureira desconhecida, pois as mulheres preferem acreditar na ciência dos vestidos do que na graça e na perfeição daquelas que sabem usá-los.”

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Sinopse: A mulher de trinta anos – Nesta análise das mazelas do matrimônio enquanto cerceamento da mulher, o autor retrata o casamento como pilar da sociedade burguesa (pós-revolucionária, ‘o encanto do amor desapareceu em 1789’) na França. O autor traz uma imagem da situação de mulheres curvadas sob o peso de suas obrigações sociais e legais.

Arsen, Mia Asher

arsen

 

Autora: Mia Asher
Drama / Romance Adulto
EDITORA: KINDLE
PÁGINAS: 419
ANO: 2013

 

Quem é dos meus círculos de leitura provavelmente já me viu falando desse livro, que é um dos melhores e mais angustiantes que já li do gênero. Foi uma das primeiras leituras de 2014 e me marcou tanto que no meio do ano eu já o estava relendo. Sempre digo que quando gostamos demais de algo, nossa opinião se torna um pouco suspeita, mas… eu não poderia deixar faltar aqui o registro que fiz dele há mais de um ano assim que terminei a leitura (leia-se: emoções à flor da pele) 😉 Ah, só lembrando, ele é do tipo que ou se ama ou se odeia!


Deixem que eu abra meus comentários eliminando alguns possíveis futuros leitores que detestariam esse livro: temos aqui um triângulo amoroso, então visualizem em neon e caixa alta a palavra traição. Se o tema não lhe agrada ou se você é do tipo que não gosta de protagonista indecisa ou egoísta, perdida entre dois amores, por favor, não leia essa história (ou leia e se surpreenda rs). Mas se você acha que as pessoas cometem erros e não são sempre fadinhas perfeitas e encantadoras, pode mergulhar de cabeça.

Arsen conta a história de três pessoas: um marido perfeito, uma esposa cheia de dor e um belo garoto que se esconde atrás de uma fachada de playboy. Cathy e Ben estão juntos há 10 anos, casados há 6, e após alguns abortos o casamento já não é mais a lua de mel de outrora. Incapaz de segurar uma gravidez, Cathy se sente quebrada, defeituosa, envenenada, morta… Não se sente mulher o suficiente para o sempre-feliz-e-sem-defeitos Ben. Até que um dia se vê entre um homem e um garoto, um amor e uma paixão, entre Ben e Arsen, entre a razão e o desejo.

O livro é contado em primeira pessoa pela Cathy, mas temos a visão do Arsen e do Ben em alguns poucos capítulos. A escrita é informal e pode não agradar a todos, já que é bem gráfica e faz uso de alguns palavrões. O desenvolvimento e a estrutura da história são muito bem elaborados e a leitura flui com facilidade.

Cathy. Alguns não a suportaram, eu tentei entendê-la e enxergar nela uma pessoa real, que erra e que é egoísta, às vezes. Entendi suas dúvidas, seus medos, seu pavor, seu desespero. Entendi sua sensação de vazio. Entendi sua vontade de se sentir viva novamente, sem pressão ou sem a necessidade de ser perfeita. De verdade, eu a compreendi, mesmo quando me irritou, mesmo quando eu quis lhe dar uns tapas, lhe xingar, lhe chamar de vadia…eu a entendi. E sofri com ela. Muito. Existe uma cena extremamente forte, que me deixou com um nó na garganta e da qual não consigo me esquecer.

“Eu me sinto incompleta. Eu me sinto meio vazia, meio cheia.”

Ben. Oh, Ben! Personagem mais doce não há. Nem mais perfeito. Nem mais carinhoso. Nem mais fofo. A ausência de defeitos em Ben é, sem dúvidas, o maior motivo do repúdio que sentimos às atitudes de Cathy. Vimos o Ben jovem, quando conheceu e se apaixonou pela Cathy, e vimos o Ben adulto, maduro e casado. Vimos um Ben inquebrantável se quebrar. E chorei. Ó, céus!, como chorei e sofri com ele. Em um capítulo narrado por Ben, por volta dos 75% da leitura, a dor foi quase insuportável. A partir daí o leitor se vê esgaçado, estilhaçado em pedacinhos, soluçando como uma garotinha.

“O amor tem o poder de lhe destruir.”

Arsen. Um garoto que bem cedo descobriu o quanto a vida pode machucá-lo e resolveu se esconder da realidade. Um playboy que vive cercado de mulheres bonitas e famosas, que é capaz de fazê-las derreter, suspirar e até esquecer-se de quem são. Em um momento ou outro até quis que ele e Cathy se envolvessem, pois queria vê-la sorrir novamente, queria vê-la gritar de felicidade. Arsen tinha o poder de apagar seu sofrimento, de deixá-lo escanteado e esquecido nem que fosse por algumas horas. Mas não, não me apaixonei por ele e tampouco torci para que ficasse com a Cathy.

“Ninguém disse que trair fosse outra coisa que não um inferno. É nauseante. Eu não consigo parar de fazê-lo.”

É difícil rotular esse livro e encaixá-lo em algum gênero, pois há partes, as da adolescência dos personagens, em que se parece com um New Adult. No entanto, com o desenrolar da história, ficamos mais propensas a classificá-lo como um drama ou um romance adulto contemporâneo, pois os problemas são mais complexos do que um com-quem-quero-ficar ou quem-eu-quero-ser.

Aqui vemos o triste retrato do que é uma crise em um casamento, das consequências de uma traição, do sofrimento incessante que é ver – e sentir – tudo desabar. Até a metade da leitura eu diria que era um bom livro, mas talvez mais um no meio de tantos. Eu tenho tentado ser mais rígida, menos boazinha e mais racional na hora de avaliar os livros, mas os últimos 25% dessa história derreteram toda a minha razão. Essa última parte me fez chorar como poucos livros fizeram e não posso deixar de considerar isso como um talento da autora.

É uma história sobre casamento, infidelidade, traição, desejo, perdão, amor, paixão e perdas. É, principalmente, uma história sobre erros. É de partir o coração e de fazer você pensar e repensar seu comportamento, seu dia a dia, seu casamento. (E certamente, toca de maneira diferente os casados e os solteiros) É uma história que consome, comove, torce e espedaça o leitor. Não é um livrinho, ou talvez o seja se você não olhar bem nas entrelinhas as mensagens que ele nos deixa. Deixa-nos uma lição, ou muitas lições, eu diria. Quem brinca com fogo sempre se queima…Esteja preparado!!

5 corações 5 Estrelas

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Sinopse: One glance was all it took…

I’m a cheater.
I’m a liar.
My whole life is a mess.

I love a man.
No, I love two men…
I think.

One makes love to me. The other sets me on fire.
One is my rock. The other is my kryptonite.

I’m broken, lost, and disgusted with myself.

But I can’t stop. This is my story.
My broken love story.

Um teto todo seu, Virginia Woolf

um teto todo seu

 

Autora: Virginia Woolf
Não Ficção / Literatura Inglesa / Feminismo
EDITORA: TORDESILHAS
PÁGINAS: 190
ANO: 2014

 

Feminismo na sua melhor forma: culto e ponderado

Ler Virginia Woolf, apesar de requerer muita concentração, é sempre um deleite, mas falar sobre o que se leu não é das tarefas mais fáceis, pois o brilhantismo com o qual aborda os temas nos deixa atônitos, sem palavras, como se não nos restasse nada a dizer além de repetir seus pensamentos.

Um teto todo seu surgiu a partir de duas palestras, intituladas As mulheres e a ficção, que ela ministrou em uma universidade em 1928. Alterando os textos e ampliando a palestra, ela traça um panorama sobre o papel da mulher na ficção (e na sociedade). Utilizando-se da ficção, Virginia sai de cena para dar lugar a uma ensaísta, Mary Benton, que vai ao Museu Britânico colher informações sobre a produção literária feminina e o que se escrevia sobre as mulheres até então. Ao longo do livro Virginia critica, com o humor refinado que lhe é peculiar, o machismo que encontra nas prateleiras do Museu, analisa escritoras como Jane Austen, Charlotte e Emily Bronte, e até cria uma irmã para Shakespeare, tão talentosa quanto ele, e nos explica com maestria o porquê dela não ter sido tão genial quanto o irmão.

De maneira concisa e clara nos leva à sua conclusão de que para se escrever bem há que se ter um teto todo seu e 500 libras no bolso por ano, há que se ter um espaço próprio, com chave para que ninguém lhe interrompa, e uma renda fixa para que a mente esteja tranquila, livre de preocupações e, principalmente, de amargor.

Diferente da maioria das feministas, especialmente das atuais, Virginia não exalta a mulher em detrimento do homem. Para ela ambos podem escrever bons livros, desde que esqueçam seu sexo e escrevam livres disso.

“É fatal, para qualquer um que escreva, pensar no próprio sexo. É fatal ser um homem ou uma mulher pura e simplesmente. […] E fatal não é uma figura de linguagem; pois qualquer coisa escrita sob esse preconceito consciente está fadada à morte. Deixa de ser profícua. Por mais brilhante, efetiva, poderosa e magistral que possa parecer durante um dia ou dois, vai murchar ao cair da noite.” (p.146)

“A totalidade da mente precisa estar aberta para termos a sensação de que o escritor está transmitindo sua experiência com perfeita plenitude. É preciso haver liberdade, é preciso haver paz. (p.147)

Por mais que Virginia tenha escrito esse ensaio em 1929, ele, provavelmente, nunca ficará obsoleto em sua essência. É impossível não trazer seu conteúdo para os dias atuais e ver o que evoluiu, e se evoluiu. Certamente, se Virginia “acordasse” hoje e piscasse os olhos três vezes para poder crer no que via ela pediria para dormir novamente e só acordar daqui a uns outros 85 anos. Não é que o feminismo tenha andado para trás ou para frente, mas é como se ele tivesse se perdido ali no meio do caminho.

A ideia de querer que a mulher seja totalmente igual ao homem é completamente equivocada, e Virginia, bem à frente do seu tempo (e do nosso!), já dizia isso:

“Seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e variedade do mundo, como faríamos com apenas um?”(p.126)

“Toda essa peleja de sexo contra sexo, de qualidade contra qualidade; todo esse clamor por superioridade e essa imputação de inferioridade pertencem ao estágio colegial da existência humana, no qual há ‘lados’ e é necessário que um lado derrote o outro, e é de extrema importância subir em uma plataforma para receber das mãos do próprio diretor um troféu ornamentadíssimo. Conforme amadurecem, as pessoas deixam de acreditar em lados ou em diretores ou em troféus ornamentadíssimos.”(p.149)

Virginia conclui nos incentivando a escrever “todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja”, e espera que tenhamos dinheiro suficiente para viajar e vagar, e, claro!, para ter um teto todo nosso.

Esse livro não foi nada do que imaginei – e que audácia (leia-se tolice) minha ter tido a pretensão de imaginar seu conteúdo! Um livro fantástico, daqueles para se ter à mão na cabeceira da cama. Leitura mais que recomendada.

4 corações 5 Estrelas

um teto todo seu virginia

Sinopse: Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época.
Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.
 

 

Consequences: Consequences, Truth, Convicted – Aleatha Romig

Li a trilogia Consequences, da autora Aleatha Romig, no início de 2014 e ela entrou, sem dúvidas, na minha lista de melhores do ano. São livros tão cheios de reviravoltas que precisamos comentar com alguém, gritar, desabafar… não foi à toa que insisti para que algumas amigas lessem. Eu quis torturá-las, admito! Como prometido, vou colocar aqui as resenhas tal qual as escrevi quando terminei a leitura.

Consequences (Consequences #1)

 

consequences

 

 

 

Autor: Aleatha Romig
Thriller Psicológico / Dark Romance
Editora: Romig Works
Páginas: 372
Ano: 2011

 

Que essa resenha vai ser a mais confusa que já escrevi é a única certeza que tenho no momento. Uma hora da madrugada e eu penso “não tenho condições de digerir o que acabo de ler, preciso me recompor e amanhã escrevo meu comentário”. Mas, ora bolas, PERDI MEU SONO!

Consequences aparecia há um bom tempo na minha lista de recomendações do GoodReads e sua classificação bem alta chamou a minha atenção. No entanto, vi que alguns leitores haviam usado a tag “erotica” para classificá-lo e cansada de “mais do mesmo” no gênero deixei a recomendação de lado até poucos dias atrás. Então, devo esclarecer, esse livro NÃO é erótico e me pergunto se quem pensa assim leu todas as páginas dessa história. Provavelmente, não.

É o primeiro livro de uma trilogia (há mais livros, mas são apenas pontos de vistas e outras explicações) e conta a história de Claire Nichols, uma meiga e doce bartender que sonhava com sua carreira de meteorologista até ser brutalmente raptada pelo mega milionário Anthony Rawlings. Claire acorda em um quarto luxuoso na mansão de Anthony e para sobreviver vai ter que seguir suas duras regras. Anthony a faz acreditar que eles têm um acordo: ele assumiu suas dívidas e quando considerar que estão pagas, ela terá sua liberdade de volta, mas, para isso, precisa se comportar e ser treinada.

Esse livro me prendeu de uma forma absurda desde as primeiras páginas e mesmo quando eu pausava e fazia qualquer outra atividade, meus pensamentos continuavam nele.

Claire começa a desenvolver a Síndrome de Estocolmo e se o leitor não tiver um perfeito entendimento de tal, não compreenderá suas atitudes nem suportará essa personagem, que foi a criatura mais submissa e obediente de tudo que já li e se você detesta personagens submissas é provável que não consiga chegar ao final (de tirar o fôlego) dessa história e, assim sendo, não vai entender nada. NADA! Por isso, repito, tenha em mente os sintomas da síndrome, não questione o porquê de Claire não tentar fugir e, aconteça o que acontecer, chegue até a última página.

Síndrome de Estocolmo “é uma síndrome na qual as vítimas começam por identificar-se emocionalmente com os sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência. Pequenos gestos gentis por parte dos raptores são frequentemente amplificados […]. O complexo e dúbio comportamento de afetividade e ódio simultâneo junto aos raptores é considerado uma estratégia de sobrevivência por parte das vítimas.”

Existe abuso? Sim. Talvez se eu tivesse lido a sinopse eu não teria lido esse livro, como fiz com tantos outros com o mesmo tema. Mas se esse é seu medo, devo dizer que a autora fez tudo muito tolerável. As cenas existem, estão ali, mas não são gráficas, não são detalhadas e, portanto, suportáveis.

Claire se viu ora apaixonada por Anthony, ora com ódio, mas sempre submissa. Sempre. Os pequenos gestos bondosos de Tony eram recebidos com um brilho no olhar e ela tentava botá-los sempre antes dos pontos negativos – que não eram poucos. Existem momentos “mágicos” nesse livro que deixam o leitor sorrindo até que você para e se pergunta “o quê?! Por que estou torcendo por ele? Por que quero ajudar esse psicopata? Por que quero pensar que ele pode ser uma boa pessoa?”. Sim, caro colega, somos acometidos pela síndrome tanto quanto a Claire. A autora maestralmente manipula nossa mente, torce, esgana, esgaça e espreme até você querer gritar e correr para o psicólogo mais próximo. Sim, há momentos em que você se vê apaixonada por um raptor e isso requer tratamento, não? Em outros você o repudia com todas as suas forças. Arghh…torturante!

Apesar do espiral de sensações, a leitura é fluida até os 50% do livro. A partir daí fica um pouco mecânica e repetitiva, mas dos 80% em diante tudo se explica – ou se complica – e a tensão do início parece boba se comparada a desses 20% finais. O coração acelera, palpita, lateja; a respiração falha, falta, sufoca; tudo desaba, tudo.

Nunca, nunca!, eu imaginaria um final desses e nada poderia ter me preparado para tal. As peças começam a se encaixar e todos os momentos vividos tem algum significado. É um thriller psicológico dramático de enlouquecer qualquer um. Não tenho como colocar em palavras a raiva que senti de um dos personagens ao terminar esse livro. Muita, muita raiva. O que? Como? Não! WTF! WTF! WTF! What the fuck!!. Ao passo que tudo se mexia dentro de mim, eu pensava “Que autora genial! Que desfecho de tirar o fôlego!”.

Consequences mexe tanto com o leitor que é difícil recomendá-lo, mas é tão genial que é mais difícil ainda não o fazer. Classificá-lo é ainda mais complicado, mas uma coisa é certa, se for ler, repito, chegue até a última página, caso contrário vai achar que se trata de um reconto da Bela e a Fera, e não, isso não é um conto de fadas.

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Truth (Consequences #2)

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AUTOR: ALEATHA ROMIG
THRILLER PSICOLÓGICO / DARK ROMANCE
EDITORA: ROMIG WORKS
PÁGINAS: 480
ANO: 2012

 

Assim como Consequences, Truth deveria vir com acompanhamento psicológico incluso. Esses livros, um tanto incomuns, manipulam sua mente e mexem com seus conceitos e convicções de tal forma que você mal se reconhece. Você pode amar ou odiar essa história e seus personagens, mas jamais ser indiferente. Sim, eu fui das que amei (e é preciso um pouco de coragem para dizer isso, rs), no entanto, entendo bem os motivos dos que não a suportaram.

Contém, inevitavelmente, spoilers do primeiro livro, Consequences. Se não leu o primeiro livro, pare por aqui 😉 

Terminamos Consequences enfurecidos, clamando por vingança e querendo que Anthony Rawlings apodreça na cadeia e pague por todos os seus erros. Queremos ver Claire se vingar, seguir em frente, encontrar o emprego dos seus sonhos e um novo amor. Mas…digamos, essa história não é tão previsível assim.

Truth começa pouco mais de um ano após a prisão de Claire, com o pedido (misterioso) de perdão aceito pelo Governador de Iowa. Perdoada, ela tenta seguir em frente e refazer sua vida, com novos amigos e novos ares, longe da perseguição e da loucura de seu ex-marido. Harry e Amber aparecem na vida de Claire dispostos a lhe ajudar, mas são tão perfeitos que eu me perguntava se alguma surpresa me aguardava nas páginas seguintes.

Harry, oh! (pausa para um suspiro), é o melhor “amigo” que alguém poderia querer, mas…(e é aqui que preciso do psicólogo) apesar de ter me conquistado e eu ter querido que ele e Claire se envolvessem, não era por ele que eu torcia. Pode um leitor em sã consciência querer que o raptor que abusou Claire física e sexualmente se torne uma boa pessoa? Arghhh… Sim, eu quis que o Tony se transformasse, mudasse, aprendesse a amar, se arrependesse, se rendesse. Talvez eu seja uma amante das “causas perdidas” (na literatura, que fique claro!), dos badboys durões que relutam em se apaixonar, dos homens poderosos que terminam vulneráveis, perdidos de amor. Mas como esquecer tudo que ele fez? Arghhh…impossível? É uma luta constante entre o amor e o ódio.

Pode alguém que nunca foi amado aprender a amar?

Conhecemos mais do passado de Tony, ou Anton, e por mais que nada justifique seu comportamento, nos ajuda a compreendê-lo um pouco, a entender seus sofrimentos e motivos, ainda que, repito, injustificáveis.

A história não tenta nos fazer esquecer o mal que Tony causou, nem fingir que ele nunca existiu. A questão é: pode Claire perdoar Tony e seguir em frente? Ou ainda, pode seguir em frente com ele? Perdoar implica em nunca cobrar do perdoado a dor, a dívida ou o sofrimento causado. Diante de um certo fato que acontece com Claire, como não entender sua decisão? Para os que a julgam, devemos lembrar que, sim, ela foi forte, resistiu, lutou e tentou até onde pôde. Do lado de cá das páginas é fácil pensar e agir com a razão, mas e do lado de lá e na situação em que ela se encontra?

“Perdoar é um dos mais nobres gestos de que é capaz o ser humano […] Quem sabe perdoar, praticamente atingiu a perfeição” (Pe. José Artulino Besen)

Que o devido crédito seja dado a essa autora, ela sabe como manter o leitor entretido, curioso e completamente dentro da trama. É daqueles livros que mesmo fora da leitura você se pega pensando na cena em que parou, com o coração apertado e uma sensação de que está vivendo aquilo. A leitura é cativante, apesar de nos dar a impressão de ser mais longa do que deveria. Admito que esperava um pouco mais, tendo em vista o primeiro livro, mas gostei do que li e de como a autora buscou sempre nos surpreender. Por mais que prevíssemos algo e pensássemos que já tínhamos resolvido as charadas, ela sempre nos trazia uma nova surpresa, um novo rumo, uma nova informação. Ela nos trouxe, inclusive, um vilão maior, o verdadeiro manipulador das peças desse jogo. Argh, e como eu não queria que fosse essa pessoa!

É provável que os capítulos que envolvem a personagem Sophia sejam importantes para o terceiro livro, mas aqui eles foram bem entediantes. Sophia e Derek não me prenderam nem um pouco.

Em contraponto, ver Tony “evoluindo”, tentando se controlar, se redimindo e se rendendo foi de aquecer o coração. A autora não o transforma em um anjo, nem tenta mudá-lo da noite para o dia, o que seria muito pouco plausível. As mudanças ocorrem paulatinamente e, não sem esforços, vemos Anthony lutando para ser menos controlador e tentar conquistar sua Claire.

Mal posso esperar para ler o desfecho dessa história, descobrir todos porquês e, apesar de já torcer para que Tony seja uma pessoa digna de perdão e de ser amada, espero que ele não me decepcione com nenhum erro, por menor que seja. Ele não pode ser menos que perfeito para que eu admita que, sim, merece a doce Claire, seu amor (e meu perdão!)

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Convicted (Consequences #3)

convicted

 

 

AUTOR: ALEATHA ROMIG
THRILLER PSICOLÓGICO / DARK ROMANCE
EDITORA: ROMIG WORKS
PÁGINAS: 400
ANO: 2013

 

A série Consequences foi feita para aqueles que acreditam que as pessoas cometem erros – alguns gravíssimos, mas principalmente para aqueles que acreditam que essas pessoas podem mudar, se arrepender, pagar por seus deslizes e, um dia talvez, serem perdoadas. O terceiro livro, Convicted (Culpado), traz o desfecho – incrível – da história de Claire e Tony e fecha todas as lacunas abertas desde as primeiras páginas de Consequences. São três livros bem diferentes um do outro, cada um cheio de distintas e fortes sensações, que se completam perfeitamente.

Contém, inevitavelmente, spoilers dos dois primeiros livros, Consequences e Truth. Se ainda não os leu, melhor pular essa resenha 😉

Consequences nos apresentou aquele Anthony poderoso, amargo, cheio de ódio e vigantivo, um Anthony que nunca foi amado e não sabia o que era amar. A autora manipulou nossos sentimentos e brincou com o amor e o ódio; fez-nos detestarmos a nós mesmos por desejar que Tony, no fundo, fosse uma pessoa boa; e nos deu raiva, ó, céus, muita raiva. Então, o leitor entra em Truth querendo vingança, torcendo por uma Claire forte e racional. Conhecemos Harry e Amber, e quase até torcemos por Harry, quase. Verdades vêm à tona e temos um Tony mais dócil, um Tony que aprende a pedir perdão e que começa a entender as entrelinhas do amor. Existe um sonho que vai mudar todo o rumo da história – Oh! Pausa para um suspiro! A autora disponibilizou essa cena escrita pelos olhos de Anthony no GR e a preocupação que eu tinha dela não ter sido consensual evaporou em poucas linhas. O final de Truth, apesar de aceitável, foi um pouco esquisito, e só nesse terceiro livro o compreendemos.

O início de Convicted me deu medo. Mesmo. Muito. A história é reiniciada no ano de 2016 e o que lemos não é nada animador. Aliás, é apavorante. Ficamos curiosos para saber o que aconteceu para estarmos diante de tais fatos e seus porquês. A autora começa a intercalar cenas de 2016 com o “passado”. As verdades começam a surgir, as peças começam a se encaixar e, aos poucos, tudo vai se esclarecendo.

Em um determinado momento do livro, mesmo compreendendo as revelações feitas, eu tinha dúvidas (e receios) sobre como a autora faria para que o leitor perdoasse Tony por completo. Que explicações seriam plausíveis o suficiente para o que aconteceu no primeiro livro? E Aleatha Romig surpreendeu! Fez-nos perdoá-lo da melhor maneira possível. Alguns atos simplesmente não tem explicação ou justificativa aceitável, e o fato da autora não ter tentado inventar desculpas mirabolantes mereceu meu aplauso.

O que começou como um thriller psicológico fantástico termina como uma bela história de amor, de aprender a amar e ser amado. Como Tony saberia o que era o amor se nunca havia sido amado na vida? Se jamais tivera o carinho dos pais? Se seu maior exemplo era um avô arrogante e bruto? Claire, com sua doçura e seu amor incondicional, faz o coração de Tony derreter, faz com que ele queira ser uma pessoa melhor, digna e merecedora de seu carinho.

Ah, já ia me esquecendo de Meredith, como poderia?! Imaginem que ela foi fundamental nessa história. Meredith e Courtney nos trouxeram momentos en-can-ta-do-res nesse livro, dignos de verdadeiras amigas. Emily continuou me dando nos nervos. Arghh… E Sophia, não teve jeito, não me conquistou nem achei que merecesse tantos capítulos nesses dois últimos livros. Não posso deixar de mencionar Phil, também peça chave e não vou dizer se para o bem ou para o mal, para não tirar-lhes a graça. Harry e Amber, er…prefiro não comentar. Catherine, quem é ela mesmo?

Trilogia incrível, bem escrita, muitíssimo bem desenvolvida e sem pontas soltas. Uma trama perfeita, entre culpados e inocentes, entre o amor e o ódio, entre a vingança e o perdão.

É uma bela história de amor e de perdão, cheia de mistérios, dor, mentiras e arrependimentos, cheia de muros altos a serem escalados e de espinhos que machucam e fazem sangrar. Mas, além de tudo, é uma história que mostra que, sim, o amor pode mudar uma pessoa. O amor, sim, mudou o Tony como nunca imaginei que pudesse mudar.

5 corações5 Estrelas

Consequences-Series

A série fez tanto sucesso que a autora resolveu sair escrevendo mais outros tantos livros dentro dela. São livros contados pelo ponto de vista de Anthony e outras explicações (ou revelações?). Não senti necessidade alguma de ler mais do que os 3 livros principais, que já tem começo, meio e fim muito bem definidos. Aliás, não gosto quando os autores “se aproveitam” de uma história de sucesso e saem lançando mais um monte de “acréscimos”. No entanto, deixo aqui a ordem completa (e o apelo para só lerem os demais livros após os 3 principais, mesmo o #1.5 ou #2.5).

#1 – Consequences (2011)

#1.5 – Behind his eyes – POV de Anthony de Consequences (2014)

#2 – Truth (2012)

#2.5 – Behind his eyes – POV de Anthony de Truth (2014)

#3 – Convicted (2013)

#4 – Revealed – The Missing Years (2014)

#5 – Beyond the Consequences (2015)

 

 

 

 

O Velho e o Mar, Ernest Hemingway

o velho e o mar
Autor: Ernest Hemingway

Clássico Moderno / Lit. Americana /
Nobel / 1001 Livros

Editora: Bertrand Brasil

Página: 126

Ano: 2005

Publicação Original: 1952

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O Velho e o Mar é daqueles livros que você se questiona o porquê de não ter lido antes. Hemingway é tão fantástico que conquista até leitores como eu, mais inclinados a uma escrita cheia de adjetivação. É incrível como consegue nos transportar àquele cenário, mesmo com a escrita “seca”, concisa e sem floreios que lhe é peculiar.

O velho e o mar é o segundo livro que leio do autor, e nele, mais do que no primeiro, é possível perceber a importância de Hemingway para a literatura moderna e o quanto essa quebra de tradições clássicas significou para o meio literário. Seja nas artes, na arquitetura ou na literatura, romper um estilo e estabelecer novos parâmetros não é uma tarefa fácil e Hemingway o fez com genialidade, e só aqui compreendi o porquê de ter merecido um Nobel.

O autor conta a história de um velho pescador, Santiago, que mesmo muito experiente está há 84 dias sem conseguir pescar nada. Com o incentivo do jovem amigo Manolin, resolve encarar mais um dia no mar. E é essa ida solitária em busca de algum peixe que acompanhamos, não só como leitores, mas principalmente como espectadores.

Deixa-nos tantas mensagens e são tantas metáforas que acredito que a cada releitura uma nova interpretação seja captada. Fala sobre a vida e toda a experiência que você acumula nela; fala de amizade, reconhecimento e carinho; e do conhecimento passado de geração em geração. É bonito de se ver a admiração, o respeito e a gratidão que o jovem Manolin tem por aquele experiente velhinho que lhe ensinara a pescar.

Sim, fala de velhice e de orgulho. E é incrível como, em tão poucas páginas, Hemingway consegue fazer um retrato tão realístico e triste do homem que envelhece, do homem que mesmo experiente e cheio de conhecimento se vê, de certa forma, impotente, uma vez que suas condições físicas já não são as mesmas. Mostra-nos o quão importante era para ele conseguir a façanha de “domar” aquele peixe enorme, muito mais por orgulho do que pela fome ou dinheiro. Fala de determinação, da sua luta incansável de ir até o fim, e, novamente, do orgulho que não lhe permitia desistir.

A beleza está na simplicidade, se o leitor esperar qualquer rebuscamento irá se decepcionar. É impressionante como, mesmo com tanta frugalidade, essa estória me encantou e me emocionou. E mais ainda, como me deixou triste.

Um clássico para todas as idades, para se ler e se reler. Recomendo, sem dúvida alguma.

5 Estrelas

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* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

** Autor ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954 (Clique aqui para ver mais resenhas de vencedores de Nobel)

Sinopse: Essa é a história de um homem que convive com a solidão do alto-mar, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e sua inabalável confiança na vida. Esse é o fio do enredo – fio tenso como o que prende na ponta da linha o grande peixe que acaba de ser pescado – com o qual Hemingway arma uma das mais belas obras da literatura contemporânea. Há 84 dias que Santiago, um velho pescador, não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salao, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas Santiago possui têmpera de aço, acredita em si mesmo, e parte sozinho para o mar alto, munido da certeza de que, desta vez, será bem-sucedido no seu trabalho.

A Viajante do Tempo (Outlander #1), Diana Gabaldon

a viajante do tempo novo

 

 

AUTORA: DIANA GABALDON
ROMANCE HISTÓRICO
EDITORA: SAÍDA DE EMERGÊNCIA
PÁGINAS: 800
ANO: 2014

 

Lá estava eu, me sentindo “órfã” após o término de uma trilogia incrível e arruinada para qualquer história que não fosse, oh!, tão magnífica quanto aquela! Lia uns e outros e, mesmo gostando, sentia falta de algo grandioso. Um belo dia, não tão belo assim rs, pois esse livro foi dificílimo de encontrar (na época a ed. SdE ainda não tinha começado a relançar a série, então minha edição é da Rocco comprada em sebo) resolvi escutar as recomendações de umas amigas e ver o que de tão bom tinha em Outlander. Tudo que eu sabia era que a moça caía 200 anos no tempo, nada mais.

Primeira página: Inverness. Ponto. Ganhou-me! Se você é alucinada pela Escócia como eu, vai enlouquecer. Se não é, vai ficar.

A inglesa Claire, enfermeira durante da II Guerra Mundial, casou-se com Frank Randall, um professor universitário fascinado por História e por seus antepassados, pouco antes do início da Guerra, que logo os separou. Após a guerra, novamente reunidos, seguiram para Inverness – norte da Escócia. Lá, Claire vê uma cena esdrúxula e um tanto mística em Craigh na Dun – uma espécie de Stonehenge fictícia, um círculo de pedras misterioso – e resolve retornar ao local para ver se poderia encontrar algo por lá que explicasse tal cena. E é aí que tudo começa.

Claire passa por uma pedra, como uma fenda no tempo, e surge cerca de 200 anos antes, em 1743, no mesmo local, com as mesmas roupas que usava. Os homens das Highlands que a encontram não entendem quem é aquela mulher. Uma prostituta? Uma espiã? Uma bruxa? Na dúvida, levam Claire até que descubram quem ela realmente é. Eis que surge Jamie, e se seu coração pulsa e você precisa de ar para viver, anote minhas palavras: você vai cair de amores por Jamie, muito! E você vai sofrer por ele, tanto, tanto…

Para os mais avessos à fantasia, asseguro-lhes que a única parte que caracterizaria essa história como tal é a “queda” no tempo e nada mais. Todos os personagens são plausíveis e suas atitudes completamente condizentes com a época e o local. A autora mistura mitos da região, contos, religião, medicina, crenças, batalhas, brigas, amor e ódio… Nos transporta para uma época em que a tortura e o abuso eram rotineiros e os homens, uma espécie de brutamontes. As mulheres que conheciam ervas e misturas que curavam eram confundidas com bruxas e queimadas em praça pública ou condenadas à forca, atraindo curiosos que aplaudiam fervorosamente.

Se eu fizer uma analogia entre o livro e um castigo, eu diria que a autora começa com uma palmadinha, passa para um tapa, um soco, uma surra, até que, no final, açoita e deixa tudo em carne viva. Então, não se enganem com o início leve e divertido dessa história, pois certamente não é para os mais frágeis. Os capítulos finais são de uma dureza que eu jamais tinha experimentado em um livro. Aquilo doeu em mim, lá dentro, dilacerou meu coração, corroeu tudo que podia, esgaçou cada pedacinho do meu peito. Fechei e reabri o livro infinitas vezes, e quando parecia que a ferida ia cicatrizar, a autora vinha e botava o dedo, fazendo todo o sangue jorrar novamente. Por mais que eu tentasse – e eu tentei, ó, como tentei – não visualizar a cena, ela estava lá, a cada fechar de olhos, a cada pulsar, na minha cabeça. Oh, doce Jamie! O que eu faria por você?

Vi alguns poucos comentários na Amazon falando do “absurdo” de um certo castigo que ocorre lá pela metade do livro, que as pessoas não deviam admitir isso e bla-bla-bla. Que parte perderam da leitura? Certamente a de que a história se desenrola em meados do século XVIII, em plena região das Highlands escocesas! Se nos dias de hoje a lenda – mesmo contada como lenda – do monstro do Lago Ness ainda sobrevive e é um dos principais atrativos da cidade, imagine o que não era aquela região em 1700!

Apesar das torturas, boa parte dessa história é alegre e até engraçada. A maneira como os personagens principais se provocam nos mais inusitados momentos levaram algumas boas risadas minhas. Além disso, a excelente caracterização da época, dos costumes locais, da tradição dos kilts, da relação entre pai e filho e entre marido e mulher, da arquitetura e da natureza, as brigas entre os clãs, entre ingleses e escoceses, foram um deleite e um aprendizado à parte. A escrita é outro ponto alto, sempre envolvente e elegante, cativa o leitor desde as primeiríssimas páginas.

É uma bela história de amor entre duas pessoas de épocas tão diferentes, mas que encontram um no outro tudo o que precisam. Um é a base, o outro a estrutura. É daqueles amores assim, difícil de esquecer, que marca, que permanece, que dá saudades, que te prende. É daqueles amores inquebrantáveis, sólidos, raros, que abdica… Jamie e Claire, um herói e sua heroína, no mínimo, fascinantes.

5 corações 5 Estrelas

favoritos

 

A série está sendo relançada pela editora Saída de Emergência. Os dois primeiros livros já estão disponíveis. Os da Rocco, só em sebo e se você tiver muita sorte 😉

a viajante do tempo 3

Minha edição, ainda da editora Rocco ❤ ❤ ❤

Minha coleção <3

Minha coleção ❤ Em destaque o livro #2, A Libélula no âmbar, o mais difícil de encontrar na época 😉

 

 

Queda de Gigantes (O Século #1), Ken Follett

queda de gigantes

 

 

 

AUTOR: KEN FOLLETT
FICÇÃO HISTÓRICA
EDITORA: SEXTANTE
PÁGINAS: 912
ANO: 2010

 

Sempre paquerava com Queda de Gigantes nas livrarias, mas nunca tomava coragem para levá-lo. Era, afinal, uma trilogia gigante, ainda inacabada na época, e é um pouco frustrante esperar continuações. Até que, finalmente, após comentários elogiosos de amigos, iniciei a leitura e, Wow!, ficou acima das minhas expectativas. Não que eu esperasse pouco, mas pensava que seria uma leitura lenta, e foi o oposto.

O primeiro livro da trilogia O Século cobre toda a Primeira Guerra Mundial – e, claro, um pouco do pré e pós guerra – de maneira espetacular. Acompanhamos o desenrolar da guerra pelos olhos de cinco famílias distintas, entre mineradores, condes, princesas, operários, comerciantes e políticos. Ken Follett misturou com maestria personagens fictícios aos históricos.

Assim que abrimos o livro nos deparamos com uma lista enorme e “assustadora” de personagens, à qual pensei que voltaria diversas vezes, mas não foi preciso. As famílias nos são tão bem apresentadas que não me vi confusa em nenhum momento sequer. Cada cidadão citado torna-se rapidamente memorável e, mesmo que passemos alguns capítulos (que seriam alguns meses ou anos) sem saber aonde estavam e o que faziam, eles não se perdem na história.

Gosto de ficção histórica pois sempre aprendo mais com ela do que em qualquer livro de História, e com Queda de Gigantes não foi diferente. Livros de História são secos e cheios de datas que jamais se fixarão em nossas cabeças. Em 1862 Fulano de Tal foi decapitado por traição ao Rei Sicrano de Tal. Pronto. Acabou-se! Sem graça, sem atrativos, completamente “esquecível”. Eu quero é saber quem era Fulano de Tal, seus amigos, o que fazia, como pensava, e é justamente isso que Ken Follett nos traz.

Sempre tive mais interesse em entender a Segunda Guerra do que a Primeira, até porque essa última aconteceu sem um motivo plausível! Acredite, depois de 912 páginas cheias de romance e fatos reais incrivelmente bem apresentados e mixados não há como não aprender e compreender bem tudo sobre ela.

Pontos negativos? Falta poesia e magia na escrita. As frases são curtas, diretas e sem muita adjetivação, mas talvez seja justamente isso que faz com que a leitura seja tão rápida e nada cansativa. Se recomendo? Depois de tanto aprendizado, não tenha dúvidas disso!

4 corações 5 Estrelas

Sinopse: Cinco famílias, cinco países e cinco destinos marcados por um período histórico. ‘Queda de gigantes’, o primeiro volume da trilogia ‘O Século’, começa no despertar do século XX, quando ventos de mudança ameaçam o frágil equilíbrio de forças existente – as potências da Europa estão prestes a entrar em guerra, os trabalhadores não aguentam mais ser explorados pela aristocracia e as mulheres clamam por seus direitos. Na Grã-Bretanha, o destino dos Williams, uma família de mineradores de Gales do Sul, acaba irremediavelmente ligado por amor e ódio ao dos aristocráticos Fitzherberts, proprietários da mina de carvão onde Billy Williams vai trabalhar aos 13 anos e donos da bela mansão em que sua irmã, Ethel, é governanta. Na Rússia, dois irmãos órfãos, Grigori e Lev Peshkov, seguem rumos opostos em busca de um futuro melhor. Um deles vai atrás do sonho americano e o outro se junta à revolução bolchevique. A guerra interfere na vida de todos. O alemão Walter von Ulrich tem que se separar de seu amor, lady Maud, e ainda lutar contra o irmão dela, o conde Fitz. Nem mesmo o americano Gus Dewar, o assessor do presidente Wilson que sempre trabalhou pela paz, escapa dos horrores da frente de batalha. Enquanto a ação se desloca entre Londres, São Petersburgo, Washington, Paris e Berlim, ‘Queda de gigantes’ retrata um mundo em rápida transformação, que nunca mais será o mesmo.