Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway



Autor: Ernest Hemingway

Clássico Moderno / 1001 livros /
Nobel / Literatura Americana

Editora: Bertrand Brasil

Páginas 672

Ano: 2012

Ano de publicação original: 1940

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Eu já havia me apaixonado profundamente por Hemingway quando comprei Por quem os sinos dobram, mas ele passou muito tempo na minha estante esperando, talvez, mais maturidade da leitora aqui. Jamais imaginei que gostaria tanto deste livro.

Hemingway nos leva à guerra civil espanhola através de um personagem norte-americano, Robert Jordan, cuja missão era a de explodir uma ponte. Nas montanhas, conhece outros companheiros, cada um com seu papel naquela luta. E são os dias de convivência com esses novos colegas e de preparação da sua tarefa que acompanhamos neste livro.

Com uma escrita ridiculamente simples, certinha, direta, sem firulas, Hemingway nos transporta para o meio daquele bando e nos faz sentir o cheiro da embriaguez do álcool, do medo e da ansiedade. Com diálogos curtos, conversas banais e alguns xingamentos, Hemingway trata da condição humana. Faz-nos refletir sobre o valor da vida do outro, da vida do inimigo; sobre a ideologia que cega e manipula; sobre as atrocidades cometidas de cada lado da guerra; mostra-nos uma guerra em que não há heróis, mas mortos.

Por quem os sinos dobram é daqueles livros que não dá vontade de largar, especialmente nas primeiras 300 páginas – que passam sem nem sentirmos. ⠀ ⠀ ⠀
Hemingway diz muitíssimo mais do que está escrito, e talvez aí resida a genialidade do autor. Uma joia da literatura do século XX, sem dúvidas. De tão simples, incrível.

5 Estrelas

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* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

** Autor ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954 (Clique aqui para ver mais resenhas de vencedores de Nobel)

Sinopse: Aclamado pela crítica como o melhor livro de ficção sobre a Primeira Guerra Mundial.Esta comovente história, cujo pano de fundo é a Guerra Civil Espanhola, narra três dias na vida de um americano que se ligara à causa da legalidade na Espanha. Robert Jordan é um americano integrante das Brigadas Internacionais, que luta ao lado do governo democrático e republicano, recebendo a missão de dinamitar uma ponte. Com ele está um grupo de guerrilheiros/ciganos, integrado por Pilar, mulher com extraordinária força de vontade, o perigoso Pablo e a bela Maria.Por quem os sinos dobramapresenta ao leitor uma das mais inesquecíveis histórias de amor da literatura moderna.Tal clássico da literatura trabalha o lado humano dos personagens diante da Guerra Civil Espanhola e, apesar de uma obra de muitas páginas, transcorre em leitura leve e poética. As nuances pessoais e íntimas daqueles que viveram aquele tempo encorpam as páginas do que se apresenta como obra histórica do conflito espanhol. Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. – John Donne

O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger

Autor: J.D. Salinger

Clássico Moderno / Lit. Americana / 1001 livros

Editora: do Autor

Páginas: 251

Ano: 2015

Ano de Publicação Original: 1951

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O apanhador no campo de centeio, de Salinger, estava na minha lista de leitura há bastante tempo, mas eu sempre adiava na esperança de que lançassem uma edição menos feia e com um preço melhor. Terminei gastando quase 80 reais nessa edição em capa mole, sem arte, com péssima diagramação e páginas brancas, muitas falhas de revisão e uma tradução que pode não agradar a todos.⠀

Quando comecei a leitura, estranhei o linguajar vulgar e as gírias esquisitas. Fui atrás do original e me deparei com um texto cheio de palavrões, gírias e muitas, muitas contrações. Meu desconforto com a edição brasileira pode ter sido pelo uso de gírias muito regionais que eu desconhecia. [Debatendo o livro com uma amiga, ela me disse que eram gírias antigas, usadas naquela época, e por isso mesmo ela gosta da tradução, que mantenha vivas essas expressões.] Em algumas situações, não dá pra entender mesmo a intenção da tradução, como quando alguém diz “Oba”, o colega responde “oba”, e no original era simplesmente “hi” e “hi”. Confesso, xinguei os tradutores, coitados, não tinham tanta culpa assim. É o tipo de escrita que, inevitavelmente, se perde na tradução, por melhor que ela seja. Se você lê em inglês, não pense duas vezes.⠀

The Catcher in the rye é narrado em 1ª pessoa por um adolescente cheio de conflitos, que acaba de ser expulso de mais uma escola. Holden não gosta de nada, não consegue se interessar por nenhuma atividade e está sempre meio revoltado com tudo e todos que o cercam. O protagonista critica tanto os outros que termina ele mesmo sendo digno de pena do leitor. [Teria aí alguma referência ao Misantropo de Molière?]

É assim, meio sem começo, sem meio ou fim, meio sem história. É como entrar na cabeça de um adolescente, mas de forma alguma é como se um adolescente o tivesse escrito. Ele não nos daria tantas informações irrelevantes e tão sem graça. Salinger conseguiu escrever um livro que diz muito através do superficial, do banal e do irrelevante. Todo esse dar-de-ombros, esse desejo de fuga e essa inconsistência resultou em um retrato do adolescente perdido.⠀

Tive uma adolescência tranquila, cheia de amigos, então não me identifiquei com o protagonista, mas certamente aquele que se isolou mais nessa fase da vida verá a si mesmo em algumas dessas páginas.⠀

A leitura não foi nada do que eu esperava [mas que mania pretensiosa essa de querer adivinhar o que nos trazem os clássicos, ein?!], mas foi boa, sim. (apesar dos pesares)

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Sinopse: O Apanhador no Campo de Centeio na edição brasileira narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 16 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um reputado internato para rapazes, volta para casa mais cedo no inverno depois de ter recebido más notas em quase todas as matérias e ter sido expulso. No regresso a casa, decide fazer um périplo adiando assim o confronto com a família. Holden vai refletindo sobre a sua curta vida, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta definir alguma diretriz para seu futuro. Antes de enfrentar os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, a sua irmãzinha) e tenta explicar-lhes a confusão que passa pela sua cabeça. Foi este livro que criou a cultura-jovem, pois na época em que foi escrito, a adolescência era apenas considerada uma passagem entre a juventudade e a fase adulta, que não tinha importância. Mas esse livro mostrou o valor da adolescência, mostrando como os adolescentes pensam.

As Brasas, Sándor Márai

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Autor: Sándor Márai
Clássico / 1001 Livros / Literatura húngara
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Ano: 1999
Ano de Publicação Original: 1942

 

Eu tenho a mania de simpatizar – do nada – com alguns títulos que aparecem em listas de recomendações mesmo sem ter a mínima ideia do que vou encontrar ali. Foi o caso do espetacular As Brasas.

Listado como um dos 1001 títulos que devemos ler antes de morrer, o livro do húngaro Sándor Márai é de um lirismo encantador e de uma profundidade impressionante, especialmente dada a pouca quantidade de páginas.

Conta o reencontro de dois amigos – grandes amigos, melhores amigos! – após 41 anos de separação. Ou, mais precisamente, 41 anos e 43 dias, contados, aguardados, ensaiados… Por um determinado motivo, na busca de uma determinada resposta. Ou não…

Entramos no castelo de Henrik, o general, na Hungria e só conseguimos parar quando viramos a última página do livro. E nem deveríamos ler tal preciosidade tão rápido, é um livro para ser degustado lentamente. Além de ter um texto riquíssimo, a estrutura da narrativa e a ordem em que os fatos nos são apresentados são irretocáveis. Passado e presente se unem ali, naquela noite, no tão esperado encontro, naquele duelo cheio de amargura, naquele monólogo cujas palavras são como dolorosas punhaladas no peito.

Ah, o monólogo! Ou melhor, O monólogo. Meticuloso, intenso, de uma paciência angustiante, raras vezes interrompido por Konrad, o amigo. Sándor Márai inquieta e aflige o leitor lá por dentro, parece remexer com todos os nossos sentimentos. Ficamos atormentados, mas maravilhados.

Muito mais do que uma simples história, As Brasas nos traz a força das palavras – das ditas e das não ditas. Faz-nos refletir sobre amizade, inveja, traição e o imenso peso da dúvida. Mostra-nos as consequências de nossas decisões e a fragilidade dos nossos sentimentos. Um deslize, uma escolha… um desejo de vingança e a cegueira toma-lhe o brilho da vida.

De uma sensibilidade penetrante, As Brasas merece ser saboreado por todos os amantes das letras. Sensacional!

5 corações 5 Estrelas

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Sinopse: Romance sobre a amizade, a paixão amorosa e a honra. Conta a história de dois homens que não se vêem há 41 anos. Foram amigos inseparáveis na infância, mas um dia, em 1899, um deles desapareceu. Algo muito grave aconteceu naquele dia, e é esse o enigma que agora, já no fim da vida, eles vão decifrar. Move-se entre os dois o fantasma de Kriztina, por quem eles travarão um duelo que se inicia como um civilizado jogo de esgrima, mas logo se torna uma luta árdua, embora os duelistas só disponham de uma arma: as palavras.

O húngaro Sándor Márai nasceu em 1900. Exilou-se em 1948, inconformado com a implantação do comunismo em seu país. Em 1979 fixou-se nos Estados Unidos, onde se suicidou. As brasas é sua primeira obra lançada no Brasil.

A Revolução dos Bichos, George Orwell

a revolução dos bichos george orwell

 

 

Autor: George Orwell
Clássico Moderno / 1001 livros / Sátira
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 147
Ano: 2007
Ano de Publicação Original: 1945

 

Sempre quis ler 1984, obra-prima de George Orwell, mas A Revolução dos Bichos não estava nos meus planos, confesso. Até que, revirando as páginas de “1001 livros para ler antes de morrer”, me deparei com sua recomendação. Era um livro curtinho, ótimo para intercalar com as 2500 páginas da minha leitura atual. George Orwell utiliza uma granja e seus animais para satirizar o socialismo soviético e faz isso com brilhantismo. Que leitura incrível!

Major, um porco velho, discursa e deixa algumas recomendações para os animais pouco antes de sua morte. Cansados de serem explorados pelo sr. Jones e querendo seguir os preceitos do Major, os animais se rebelam. Liderados pelos porcos Napoleão {Stalin} e Bola-de-Neve {Trotski}, expulsam o granjeiro e começam uma nova sociedade, uma sociedade igualitária, justa, sem hierarquias ou mordomias – ou assim eles sonhavam. Porém – rapidamente – o poder os corrompe e a utopia desmorona. Napoleão expulsa Bola-de-Neve, torna-se um líder único, tirano, cheio de luxos, e o que parecia um regime ideal mostra-se algo pior do que viviam antes.

É um manifesto contra o comunismo, sem dúvidas, mas ele extrapola. É uma fábula sobre poder, traição e ganância. A Revolução dos Bichos desmancha e desmonta não só a utopia do socialismo soviético, mas qualquer (des)governo autoritário. É incrível como ele cai como uma luva para o momento em que vivemos, infelizmente. [Estou fazendo um esforço tremendo para não falar de política, pois não é minha intenção.]

Os animais, que se queixavam de ter que trabalhar para Jones, passam a trabalhar para consumo próprio. E trabalham, e trabalham… cada dia mais. Às vezes, eles têm a impressão de que estão trabalhando mais do que antes, mas logo chega Garganta, um porco com um poder de persuasão enorme, e lhes faz crer que antes da Revolução tudo era pior, que eles eram quase escravos e passavam fome. E, tolos e ignorantes que são, os animais acreditam.

Disciplina, camaradas, disciplina férrea! Esse é o lema para os dias que correm. Um passo em falso, e o inimigo estará sobre nós. Por certo, camaradas, não quereis Jones de volta, hein?

A vida agora tinha muito mais dignidade. Havia mais canções, mais discursos, mais desfiles.

Qualquer semelhança com a atualidade é pura imaginação de vocês! 😉 E o que falar de transformar em monstros seus inimigos?

Suponhamos que tivésseis decidido seguir Bola-de-Neve, com suas miragens de moinho de vento – logo Bola-de-Neve, que, como hoje sabemos, não passava de um criminoso.

Orwell nos mostra a arte de negar derrotas e transformá-las em vitórias, a arte de ludibriar os outros e fazer com que propaguem mentiras como se fossem verdades.

E o discurso que Napoleão fez congratulando-se com a atuação deles, pareceu-lhes que, afinal de contas, haviam obtido uma grande vitória.

Napoleão bem sabia dos maus resultados que poderiam advir caso a verdadeira situação alimentar da granja fosse conhecida […] deu ordens para que as tulhas do depósito, que estavam quase vazias, fossem recheadas de areia quase até a boca, depois completadas com cereais e farinha grossa.[…] Whymper foi ludibriado e continuou a dizer lá fora que, absolutamente, não havia falta de alimento na Granja dos Bichos.

E quanto a liberdade, o lazer, a qualidade de vida? Claro! Praticamente pilares do comunismo!

Napoleão fez saber que haveria trabalho também nos domingos à tarde. Esse trabalho era estritamente voluntário, porém o bicho que não aceitasse teria sua ração diminuída pela metade.

E as mordomias? Ah!, as mordomias… Os luxos, antes tão criticados, se tornam um deleite, completamente indispensáveis. Ah, somente aos líderes, claro.

Era absolutamente necessário […] que os porcos, sendo os cérebros da granja, tivessem um lugar calmo onde trabalhar.

Redução? Jamais. Reajuste, sim.

Naquele momento, de fato, fora necessário realizar um reajuste de rações (Garganta sempre se referia a ‘reajustes’, nunca a ‘reduções’), mas em comparação com o tempo de Jones, a diferença para melhor era enorme.

As citações falam por si só, o livro foi/é de suma importância. É preciso mencionar também a coragem de Orwell em escrever tal livro em plena II Guerra Mundial. Quanta audácia, sr. Orwell!

George foi extremamente perspicaz, inteligente e conciso. O texto flui facilmente, é claro, sagaz e, eu diria, memorável. Ele usa a ironia e o sarcasmo com tanta maestria que me fez rir de sua destreza durante a leitura. Sarcasmo esse um pouco debochado, mas sem jamais perder a fineza.

Um livro sensacional, leitura obrigatória e elucidativa. Finalizo com a melhor e mais forte citação do livro, na minha opinião:

Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros.

5 Estrelas5 coraçõesfavoritos

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer” (Clique aqui para ver mais sobre o Projeto 1001 livros e as resenhas já feitas da lista)

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Sinopse: Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, “A Revolução dos Bichos” é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos
Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista.
De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos – expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História – mimetizam os que estavam em curso na União Soviética.
Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A Revolução Dos Bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.

O Homem sentado no corredor – A doença da morte, Marguerite Duras

o homem sentado no corredor a doença da morte

 

Autora: Marguerite Duras
Literatura Francesa / Clássico Moderno / Contos
Editora: Cosac Naify
Páginas: 112
Ano: 2007

 

 

Poucos dias depois que li O Amante (resenha aqui), ainda curiosa para ler mais de Marguerite Duras, entro em um canal de vídeos que gosto e vejo a recomendação desses dois contos da autora. Pronto, seria – e foi – minha próxima leitura.

Duras escreve com uma melancolia de quem está a beira de amargas lágrimas. É como se seu texto escondesse um coração amargurado que finge que não se importa.

Os dois contos são bons, mas não me encantaram tanto assim. Novamente a escrita se sobrepõe ao enredo e, tal qual em O Amante, a sensação um ou dois dias depois é diferente da do momento do término da leitura.

Ao terminar a leitura a impressão que tenho é que aquilo foi pouco, que faltou algo, que tudo não passa “apenas” de uma bela escrita. Dias depois me pego pensando na cena de cada conto e eles crescem exponencialmente, ganham forma e se fixam na memória (justamente como aconteceu com o Amante).

Os dois contos fazem parte de um volume da incrível Coleção Mulheres Modernistas da Cosac Naify. Eles são bem curtinhos e para justificar o volume a edição vem com fonte grande e margens enormes, o que decepciona um pouco – no sentido de que queríamos mais ou talvez de que fomos enganados, de certo modo.

O homem sentado no corredor foi o conto que mais gostei. Uma leitura rápida, cujas cenas se passam em câmera lenta, bem arrastadas, sem pressa alguma. Marguerite consegue ficar bem em cima da tênue linha que separa o vulgar do elegante.

A Doença da Morte, embora bem mais profundo que o primeiro conto e aberto a muitas interpretações, é meio sem graça.

Os dois contos são ótimos para quem quer conhecer mais o estilo da autora, mas recomendar, recomendar mesmo, de coração, não é bem o caso.

3.5 Estrelas 3 corações

marguerite duras contos

Sinopse: O Homem Sentado no Corredor – A Doença da Morte – Depois de publicar três autoras de língua inglesa, a coleção Mulheres Modernistas traz a sua primeira escritora francesa. As duas novelas de Marguerite Duras (1914-1996) – conhecida principalmente pelo romance O amante e pelo roteiro do filme Hiroshima mon amour – que compõem este livro chamam a atenção pelo caráter fortemente confessional e amoroso, mas de uma amorosidade esquiva, rara e, sobretudo, muito distante do que costumamos encontrar nos textos de tônica amorosa. Os dois textos, de 1980 e de 1983, respectivamente, como que anunciam um tempo de amores rápidos, do pânico da intimidade e de uma velocidade inaugurada com “A uma passante”, de Baudelaire. Nas duas narrativas, é pelo desencontro, pela ausência e pela falta que se dá o embate amoroso entre os pares anônimos. A grande novidade no discurso amoroso de Duras se dá na invenção de um tipo de texto breve e intenso, no qual a narrativa já se inicia com a situação posta. O volume traz, ainda, um breve posfácio da autora sobre A doença da morte, a lista completa de suas obras – ficção, teatro, cinema, adaptações, gravações – e uma bibliografia sobre Duras no Brasil. A tradução do dramaturgo, poeta, ator e diretor Vadim Nikitin privilegia a crueza e a oralidade dessa prosa. A edição conta também com raras aquarelas do artista plástico alemão Anselm Kiefer.

O Amante, Marguerite Duras

o amante marguerite duras cosac naify

 

Autora: Marguerite Duras
Literatura Francesa / romance / clássico moderno
Editora: Cosac Naify
Páginas: 112
Ano: 2007
Publicação Original: 1984

 

Antes de tudo, é preciso desmistificar Marguerite Duras. Sempre ouvi falar que seu estilo era para poucos e confesso que deixei O Amante guardado na estante por um bom tempo, esperando o momento de estar disposta a lê-lo com bastante atenção, afinal, era um livro “difícil”. Então, digo, não é esse bicho de sete cabeças que pintam.

O Amante conta um período da vida de uma mulher quando, aos 15 anos e meio, ela inicia precocemente sua vida sexual. A menina, que um dia foi rica, é pobre, mas é branca e vive na colônia francesa na Indochina – onde hoje é o Vietnã. Lá conhece um chinês, um homem mais velho que passa a ser seu amante, o amante de Cholen, em um relacionamento que envolve dinheiro. Marguerite nos conta como foi essa relação, tendo como pano de fundo a família problemática da protagonista: uma mãe depressiva, um irmão mais velho viciado que rouba o que pode da mãe e um irmão mais novo e frágil.

O livro é considerado a obra mais autobiográfica de Duras, a própria autora admite isso, mas há os que acreditam que ela construiu o próprio mito, que ninguém jamais saberá o que aconteceu de fato, que ninguém jamais saberá quem ela foi de verdade. Diz-se, ainda, que O Amante surgiu a partir de um conjunto de fotografias, quando seu filho pediu-lhe que ela narrasse os momentos gravados naquelas imagens. De fato, a leitura nos dá a sensação de realmente estarmos ouvindo uma senhora contar parte de suas memórias de adolescente, com um misto de nostalgia e melancolia. 

A história em si é muito simples. A arte está na brilhante estrutura da narrativa, que foge completamente dos padrões clássicos. Marguerite nos presenteia com um estilo original, um texto fragmentado, cheio de memórias soltas. A impressão que temos é a de que aquilo jamais formará uma história coesa – mas forma, claro! Aliás, eis aí a genialidade da autora.

Ela brinca com os tempos verbais magistralmente. Escreve sobre o passado ora no pretérito, ora no presente; às vezes, em primeira pessoa, se aproximando da personagem, às vezes, em terceira, se distanciando dela, como se falasse de outra mulher.

Amei a história? Não tanto. É um daqueles livros que vou marcar para reler daqui a uns dez anos, para ter uma nova percepção e ver tudo com um olhar um pouco mais maduro. Ainda assim, foi uma ótima leitura, com um texto de uma sensibilidade que salta aos olhos.

É um livro indispensável para quem gosta de literatura e admira uma narrativa irretocável. É uma aula de escrita concisa e elegante, como um tapa na cara de autores prolixos.

E aqui estou, finalizando esta resenha e pensando: por que escrevi que não gostei tanto da história se ela não me sai da cabeça, se todas as memórias lidas parecem vivas e se tenho a sensação de que elas jamais se apagarão? Não sei, vai ver é o poder dos bons escritores. 😉

5 Estrelas

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marguerite duras o amante

Sinopse: O Amante – Considerado o livro mais autobiográfico da escritora, dramaturga e cineasta Marguerite Duras (1914-1996), “O amante”, escrito em 1984, recebeu o Prêmio Goncourt, o mais importante da literatura francesa e se consagrou como sua obra mais célebre. O romance narra um episódio da adolescência de Duras: sua iniciação sexual, aos quinze anos e meio, com um chinês rico de Saigon. Se as personagens e fatos são verídicos, a escrita os transfigura e transcende; não sabemos em que medida a história é verdadeira. Os encontros amorosos são, ao mesmo tempo, intensamente prazerosos e infinitamente tristes; a vida da família contrapõe amor e ódio, miséria material e riqueza afetiva. A presença da mãe, sua desgraça financeira e moral, do irmão mais velho, drogado, cruel e venal, e do irmão mais novo, frágil e oprimido, constituem uma existência predominantemente triste, e por vezes trágica, de onde Duras extrai um esplendor artístico que se reflete em sua própria pessoa – personagem enigmática, quase de ficção. Tem sido dito que ler este livro é como folhear um álbum de fotografias – a narrativa se desenrola em torno de uma série de imagens fascinantes. Esse trabalho primoroso com as imagens também pode ser verificado nos mais de vinte filmes dirigidos por Duras e na possibilidade de seus textos se transformarem em filmes, como o fez Jean-Jacques Annaud com “O amante” em 1991.

Paris é uma festa, Ernest Hemingway

paris é uma festa

 

Autor: Ernest Hemingway
Nobel / Memórias / Clássico moderno
Editora: Bertrand
Páginas: 240
Ano: 2007
Ano de Publicação Original:1964

 

Paris é uma Festa é uma coleção de memórias da vida de Hemingway nos seus anos em Paris, na década de 1920. O livro foi publicado originalmente em 1964, após a sua morte, tendo sido editado com a ajuda de sua quarta e última esposa, a partir de notas e manuscritos deixados pelo autor. Paris é uma Festa foi reeditado – no original, A Moveable Feast – recentemente, em 2009, por um de seus netos e essa edição, “Restored Edition”, tem sido fortemente criticada, especialmente por antigos amigos do autor, que reportam que a alteração foi feita para modificar algumas partes que constrangiam a sua avó Pauline, segunda esposa de Hemingway. A versão que lemos no Brasil ainda é a original, portanto, meus comentários são sobre ela.

Paris é uma Festa nos presenteia com as memórias de Hemingway sobre seus anos em Paris e os cafés que frequentava, as ruas por onde caminhava e os amigos com quem convivia. Apresenta-nos um Hemingway que deixava de comer, mas não deixava de apreciar um vinho nem tomar um café. Conseguia fazer o café render toda uma manhã para que pudesse ficar ali, sentado, observando a charmosa e louca Paris dos anos 20 e escrevendo o que lhe conviesse. Mostra-nos um Hemingway que era bom ouvinte e tinha bons amigos, como Sylvia Beach, dona da Shakespeare and Company, que lhe emprestava quantos livros quisesse, e outros tantos escritores famosos. E a partir desses empréstimos, vemos Hemingway lendo pela primeira vez autores como Dostoievski e Tolstói, e tecendo uns poucos comentários sobre eles.

Foi mais que um deleite reconhecer alguns de seus amigos, àquela época ainda reles mortais, hoje grandes e importantes nomes como Gertrude Stein, Erza Pound, Scott Fitzgerald, Ford Madox Ford e James Joyce. É inimaginável que alguém tenha convivido com todas essas ilustres pessoas, tanto que se fosse uma obra de ficção seria fantasiosa em demasia.

Paris vale a pena e retribui tudo aquilo que você lhe dê.

“Na Europa, então, todos consideravam o vinho tão normal e sadio como qualquer bom alimento, além de grande fonte de alegria e bem-estar. Beber vinho não era esnobismo ou sinal de sofisticação, nem uma espécie de culto. Era tão normal como comer e, para mim, igualmente necessário.” 

Sobre Scott Fitzgerald: “Ele me contara no Closerie des Lilas que, quando escrevia contos que julgava bons, talvez bons demais para o Post, fazia modificações neles, piorando-os para que se tornassem comerciais e pudessem ser aceitos pela revista.” 

“O marido tem duas garotas bonitas a seu lado quando acaba de trabalhar. Uma delas é nova e desconhecida e, se ele não tiver sorte, acabará amando as duas.”

A escrita é uma delícia, despretensiosa, nos leva àqueles dias e nos faz sorrir a cada recordação. É um livro curto, mas para ser degustado lentamente e relido algumas vezes ao longo da vida. É um livro para se amar Paris ainda mais, para se amar a verdadeira essência da capital francesa que tanto inspirou – e inspira – grandes escritores.

4 corações 4.5 Estrelas

paris é uma festa hemingway 2


 
Sinopse: Amor, ironia, humor, saudade. Ernest Hemingway foi sempre contrario ao sentimentalismo. Seus contos, seus romances mostram o homem em busca de si próprio, descobrindo-se nos momentos de dor, perigo ou derrota. Nenhum idealismo diante da vida: ela deve ser enfrentada como um desafio, e vencida sem arrogância ou perdida sem lamúrias.

Paris é uma festa mostra-nos um Hemingway diferente, o escritor e o homem fazendo uma viagem sentimental à década de vinte, quando o mundo se abria diante dele e seus companheiros eram a gente anônima das ruas e gente famosa como Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald.

Da cidade, seus perfumes, seus encantos, de si mesmo, de seus amigos e inimigos Hemingway nos deixou, neste livro póstumo, uma série de vinhetas inesquecíveis, escritas com amor e ironia, com humor e saudade.