A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói

Autor: Lev Tolstói

Lit. Russa / Clássico / Novela / 1001 Livros

Editora: 34

Páginas: 96

Ano: 2006

Ano de Publicação Original: 1886

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A morte de Ivan Ilitch foi a terceira novela que li de Tolstói e, sem dúvidas, a mais impressionante. O autor surpreende não só pelo texto irretocável, mas por conseguir ser tão atual quanto se o tivesse escrito hoje.

Não é surpresa para ninguém que Ivan Ilitch morre. Está ali no título, está na primeira página da novela. Começamos com a notícia de sua morte e só depois passamos a conhece-lo, a saber o que fazia, quem era e como vivia.

Ivan era um juiz de instrução que, ao receber um bom cargo, termina tendo uma vida confortável. Viveu para o trabalho, para o sistema corrupto que lhe empregou, foi infeliz no casamento e vivia cercado de pessoas interesseiras, os ditos amigos. Até que, certo dia, uma doença lhe atinge e daí para frente ele só piora.

Tolstói alfineta não só o sistema judiciário russo da época, como também as relações de falsa amizade dos colegas de trabalho, que fingem ser amigos, mas na verdade estão de olho no cargo e na vida um do outro. Quão atual não é isso?

Ivan se vê sozinho, abandonado, despedaçado, enquanto o mundo ao seu redor continua a girar sem sua presença, ou melhor, sem se importar com sua ausência. Tolstói nos choca, sem piedade. Faz-nos ouvir os gritos e o silêncio de quem sabe que está morrendo, faz-nos sentir na pele o arrependimento de não ter cultivado melhores amizades, de não ter dado a devida atenção a quem merecia.

Tolstói nos mostra também como tratamos a morte com artificialidade. Não sabemos lidar com a morte. Não sabemos lidar com quem está morrendo. Mente-se. Finge-se.

E ainda que eu lhes diga todos os temas tratados, não há como ter noção da dimensão desse texto. É quase inacreditável que alguém o tenha escrito de tão sensacional. Você  se vê triste pelo enredo e pela dor de quem morre, mas estupefato pela narrativa grandiosa. Não importa quantas páginas tem, A morte de Ivan Ilitch é monumental.

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer” (Clique aqui para ver mais sobre o Projeto 1001 livros e as resenhas já feitas da lista)

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Sinopse: Esta obra mostra a história de um burocrata medíocre, Ivan Ilitch, um juiz respeitado que depois de conseguir uma oferta para ser juiz em uma outra cidade, compra um apartamento lá, para ele, sua mulher, sua filha e seu filho morarem. Ao ir para o apartamento, antes de todos, para decorá-lo, ele cai e se machuca na região do rim, dando início à uma doença.

 

Pais e Filhos, Ivan Turguêniev

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Autor: Ivan Turguêniev
Literatura Russa / Clássico / 1001 livros
Editora: Cosac Naify
Páginas: 352
Ano: 2015
Ano de Publicação Original: 1862

 

Pais e Filhos foi lançado em 1862 e para que entendamos bem a grandiosidade desta obra devemos contextualizá-la muito bem. A Rússia passava por um momento de grande impacto social: o fim da servidão, regime em que o camponês era propriedade do dono da terra. Turguêniev, brilhantemente, não só faz um panorama deste novo cenário, como se aproveita dele para nos mostrar com mais intensidade as relações entre pais e filhos e as divergências de pensamento entre essas diferentes gerações.

Arkádi acaba de terminar a faculdade e resolve retornar, ao lado de seu amigo Bazárov, à propriedade de seus pais. Eis onde tudo começa. Da propriedade da família de Arkádi à da família de Bazárov, passando – estrategicamente (e, por que não, romanticamente?) – pela casa de Ana Serguêievna, Turguêniev vai nos apresentando as ideias e as atitudes das diferentes gerações, desde o pai que tenta se modernizar, às mães e seu amor irrestrito, até o tio conservador que não aceita tudo facilmente.

Bazárov se considera um niilista, aquele que não crê em nada, que se recusa a seguir regras e a reconhecer autoridades. É um personagem fantástico, mas de uma arrogância que me deu raiva. Turguêniev o coloca – aparentemente – em um pedestal, como se ele fosse o herói de tudo. Mas… mas… aparentemente. Ou, ironicamente!, já que o autor nos mostra que o niilismo de Bazárov não se sustenta por completo.

Então, quem estava certo? Os tradicionalistas ou os niilistas? Nem um, nem outro. Nem Pável, o tio conservador de Arkádi, nem Bazárov, seu antagonista. Turguêniev alfineta os dois lados, ambos sucumbem – aqui e acolá – ao que rechaçam.

E os pais? Sempre os pais! Sempre presentes, sempre ali, faça chuva ou faça sol! Dispostos a tudo, inclusive a não falar com seus filhos, se assim o desejarem. Como somos imaturos aos 20 e poucos anos! Como entendemos pouquíssimo da maternidade quando ainda não somos mães… Deu para sentir o que sentiram os pais de ambos os jovens, sem que Turguêniev precisasse sequer nos descrever.

O amor, diante de tanta negação, é, talvez, o maior vencedor desse livro. Ou sou eu que vejo amor em tudo… É para os braços dos pais que os filhos voltam, é nos braços da amada que os jovens querem estar, por mais que queiram romper com qualquer ideia do romantismo.

Turguêniev abordou diversos temas de forma simples, contando uma história que quase não tinha o que contar, mas que, incrivelmente, traz uma profunda reflexão para o leitor acerca das relações humanas. Nem niilismo, nem tradicionalismo, Pais e Filhos é muito mais que meros conceitos. Muito bom!

5 Estrelas

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Sinopse: Traduzido pela primeira vez diretamente do russo para o português, este clássico é responsável por uma das maiores polêmicas da literatura russa. No início da década de 1860, dois eventos transformaram significativamente a sociedade russa: o fim da servidão e a fundação do movimento Terra e Liberdade, organização secreta que lutava contra as autoridades e instituições oficiais. A abordagem desse contexto fez com que Pais e filhos despertasse uma das maiores fendas da história da literatura russa. O termo “niilista” se popularizou e Ivan Turguêniev (1818-1883) foi acusado de ser responsável por atos criminosos cometidos por radicais influenciados por sua obra. Na trama, o jovem Arkádi Nikolaitch, acompanhado de seu amigo e mentor Bazárov, volta à propriedade de sua família após formar-se na universidade. Bazárov é um personagem singular: despreza qualquer autoridade, é antissocial e se autoproclama um “niilista”.

Uma Criatura Dócil, Fiódor Dostoiévski

uma criatura dócil a dócil

 

Autor: Fiódor Dostoiévski
Clássico / Lit. Russa / Novela
Editora: Cosac Naify
Páginas: 128
Ano: 2013
Ano de Publicação Original: 1876

 

Uma criatura dócil foi mais um daqueles livros que comprei no escuro, sem ler sinopse, confiando apenas no autor e na seleção da editora, e não me arrependi.

Dostoiévski narra a história de um penhorista, um homem egoísta, machista e irritante, que tenta entender a morte de sua esposa. Diante de seu corpo morto, ele, o narrador sem nome, nos conta como conheceu sua esposa, as circunstâncias do casamento e um pouco do cotidiano, refazendo sua trajetória a fim de descobrir as causas daquela morte.

A história em si não me agradou, mas a escrita é tão incrível que fica difícil achar algo ruim. A angústia daquele homem que não quer se culpar é sentida nas palavras e suas repetições. O conflito enorme que se passa em sua cabeça é exposto com maestria e é impossível não sentir um pouco de piedade, mesmo diante de um chato egocêntrico.

Pelos olhos do narrador, Dostoievski nos traz dois personagens cheios de camadas, complexos e muito bem apresentados, e critica aquele tipo de casamento, a impotência da esposa e a infelicidade de ambos.

O que dizer da última linha do texto? Será? É, talvez seja quase sempre assim, só percebemos quando não mais temos.

4 Estrelas 3 corações

uma criatura dócil dostoievski

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Sinopse: Nesta pequena obra-prima, Fiódor Dostoiévski se entrega a uma narrativa fantástica – como ele mesmo definiu – buscando compreender a relação de um casal marcada pela opressão e pela dominação. O leitor vai se deleitar com a singularidade do processo narrativo usado pelo autor para desenvolver a trama e transmitir suas ideias: um caminho tortuoso, repleto de guinadas e reviravoltas.

“Em cada linha sentimos a mola do ressentimento, o erotismo da intimidação, a anatomia da maldade. O diabo está nos detalhes.” [Augusto Massi]

Felicidade Conjugal, Lev Tolstói

FELICIDADE_CONJUGAL
AUTOR: LEV TOLSTÓI
CLÁSSICO / LITERATURA RUSSA / novela
EDITORA: 34
PÁGINAS: 128
ANO: 2010
PUBLICAÇÃO ORIGINAL: 1859

 

Comecei a ler Felicidade Conjugal esperando encontrar tudo, menos felicidade. Fiquei esperando o Tolstói amargo de A Sonata a Kreutzer (resenha aqui), e nada. Aquela doçura, aquele ar de romantismo, de amor bonitinho, estava soando estranho e sem propósito. Não conseguia entender qual era a do autor, já que estava tudo tão simples, tão…tão…comum, básico, normal.

O livro conta a história de uma menina do interior que perdera seus pais e passa a ser criada por uma governanta. Ela termina se encantando por um homem bem mais velho que ela, que era amigo de seu pai e fora encarregado de cuidar das partes legais da família. Eles se casam, apaixonados, mas esse amor tende a mudar, ou melhor, a se transformar.

Continuei a leitura pensando que o que lia era um Tolstói que ainda não desabrochara, um Tolstói ainda contido, até que, opa, como de supetão, lá pelos 60% da leitura, passo a enxergar um pouco suas intenções. Digo um pouco porque, mesmo tendo pensado que enxergara tudo, o que Tolstói quer nos falar de verdade aparece apenas nas últimas linhas.

E nessas últimas linhas tudo se conecta ou meio que se desmancha, como se todas as páginas anteriores desabassem sobre você. E então eu vi o quão delicado é todo o livro, como se tudo estivesse pendurado por um frágil e fino cordão prestes a se romper.

Tolstói fala sobre o amor conjugal e sua transformação em um texto de uma simplicidade impressionante, que parece que não vai levar a nada. Com um ar despretensioso, ele nos apresenta uma história super sensível, que abre caminho para uma reflexão profunda e que nos deixa uma mensagem triste, de certa forma, por “desromantizar” o amor, mas ainda assim singela e completamente realística.

4 Estrelas

4 corações

felicidade conjugal tolstoi

Sinopse: Publicada em 1859, quando o escritor tinha pouco mais de trinta anos, Felicidade conjugal é talvez a primeira obra-prima de Lev Tolstói e prenuncia um tema que terá importância fundamental na vida do autor russo — o tema do desejo, neste caso apreendido do ponto de vista feminino. Ao contrário do que ocorre em A Sonata a Kreutzer (1891), obra de andamento vertiginoso e com a qual este livro forma um estranho díptico, o tom dominante é dado aqui pela delicadeza da Sonata ao Luar, de Beethoven, peça que a narradora executa nas páginas de início e fim da novela.
Com um talento incomum para descrever os estados de alma de suas personagens, Tolstói põe em destaque a figura da jovem e bela Mária, que narra as várias etapas de sua vida amorosa, desde o primeiro despertar dos sentidos até o momento em que, tendo experimentado por si mesma o absurdo da existência, ela pode, enfim, voltar à própria vida.
Combinando sutileza e gravidade, o “observador genialmente perspicaz” que foi Tolstói — segundo as palavras de Boris Schnaiderman, que assina a tradução, as notas e o posfácio — escreveu uma novela em que “o humano e o literário encontram o seu máximo de expressão”.

The Night Before Christmas ‘Noite de Natal’, Nikolai Gogol

the night before christmas

 

 

Autor: Nikolai Gogol
Literatura Russa / Clássicos /
Conto / Folclore Ucraniano / Natal
Editora: Penguin
Páginas: 65
Ano: 2007
Ano de publicação original: 1832

 

The Night Before Christmas – ou Noite de Natal*¹ – caiu em minhas mãos por fazer parte de uma pequena coleção da Penguin de clássicos natalinos. Adoro histórias de natal e comprei a coleção de olhos fechados, sem saber o que me aguardava. Que bom que o fiz, pois se tivesse lido a sinopse, provavelmente teria perdido um livro fantástico.

Essa história não é o típico conto de natal, é quase o oposto. Não tem a magia do espírito natalino, mensagens bonitas ou nada parecido. É praticamente uma sátira sobre o natal, com um humor refinado e muita, muita crítica. Faz parte do folclore ucraniano e é contada até hoje, pasmem, às crianças. Ele não tem nada de infantil, mas, folclore é folclore, hum. Aliás, só a título de curiosidade, falei em folclore ucraniano – e não russo – porque Gogol nasceu em uma cidade do império russo onde hoje é a Ucrânia. Russos e ucranianos brigam pela “posse” do escritor, mas como escreveu em russo, sua obra é considerada literatura russa.

Em The Night Before Christmas temos o ferreiro Vakula, que pintara o diabo terrivelmente em uma parede da igreja. Vakula era apaixonado por Oksana, mas não era muito bem quisto pelo pai da menina, Chub, e portanto não ousaria visitá-la enquanto ele estivesse em casa. Pensando nisso (não vou contar os porquês), para se vingar, o diabo resolve roubar a lua e deixar todos em uma completa escuridão. Oksana era uma bela moça e, ciente de sua beleza, desprezava a todos. Ela impõe um certo presente para se casar com Vakula, e ele vai usar o diabo para consegui-lo. Temos ainda uma bruxa, mãe de Vakula, um diácono, um alcaide e alguns sacos de carvão.

Parece meio bizarro, não é? E é bizarro! Mas ao mesmo tempo o texto é tão atraente e imprevisível que você vai lendo sem parar e visualizando tudo perfeitamente. Não dá para imaginar que alguém consiga, em tão poucas páginas, contar tantos acontecimentos e, ao mesmo tempo, criticar todos eles. A ironia, a crítica e o humor permeiam toda a narrativa.

É uma história excêntrica, meio maluca, sem pé nem cabeça, daquelas que não daria certo de maneira alguma se escrita por um qualquer. Não sei o que me encantou tanto nessa história, fico pensando e não sei responder. Talvez tenha a ver com o fato de que Gogol está longe de ser um qualquer.

Recomendo, sem dúvidas!

3.5 corações

*¹ No Brasil essa história foi traduzida como Noite de Natal e foi publicada no livro O Capote e outras histórias, da Editora 34.

Encontrei o conto gratuitamente online no site da Época. Para ler clique aqui.

O livro deu origem a ópera Cherevichki, de Tchaikovsky.

the night before christmas nikolai gogol

Sinopse: It is the night before Christmas and devilry is afoot. The devil steals the moon and hides it in his pocket. He is thus free to run amok and inflicts all sorts of wicked mischief upon the village of Dikanka by unleashing a snowstorm. But the one he d really like to torment is the town blacksmith, Vakula, who creates paintings of the devil being vanquished. Vakula is in love with Oksana, but she will have nothing to do with him. Vakula, however, is determined to win her over, even if it means battling the devil.Taken from Nikolai Gogol s first successful work, the story collection Evenings on a Farm Near Dikanka, The Night Before Christmas is available here for the first time as a stand-alone novella and is a perfect introduction to the great Russian satirist.

A Sonata a Kreutzer, Lev Tolstói

A sonata a kreutzer leon tolstoi

 

 

Autor: Lev Tolstói
Clássico / Literatura Russa
Editora: 34
Páginas: 120
Ano: 2010
Publicação Original: 1889

 

Não foi o fato desse livro ser considerado uma das melhores obras de Tolstói que despertou meu interesse, foi o título. Como fã de música clássica e em especial da de Beethoven, eu não resisti ao ver sua linda sonata para violino e piano nº9 op.47, A Sonata a Kreutzer, estampada na capa de um livro escrito por ninguém menos que Tolstói.

Sabendo que, obviamente, se tratava de um livro de domínio público, procurei sua versão digital gratuita e comecei a leitura. Não foi minha primeira tentativa em livros de domínio público, foi, talvez, a décima. E a última! Cheguei a conclusão de que não adianta insistir nelas, ou você paga por uma boa tradução (ou tem a sorte de, vivendo no Brasil, morar em uma cidade que tenha uma biblioteca decente) ou é melhor deixá-las de lado. São péssimas traduções! Ainda li uns 30% e me perguntava se aquelas frases desconexas eram propositais. Não eram. Criei vergonha na cara e comprei a edição da editora 34 que, diga-se de passagem, tem feito um trabalho majestoso na tradução diretamente dos originais russos. (não é publipost)

Voilà! Retomei a leitura do início e, wow!, nem parecia a mesma história que eu iniciara antes. Incrível! A escrita é fantástica e leva o leitor a entrar nos devaneios e alucinações do personagem principal, que, por menos provável que seja, não é o narrador.

Trata-se de um diálogo – praticamente um monólogo – entre o narrador e um homem que assassinara sua esposa por achar que ela o traíra com um pianista. Eles se encontram em um trem e o tal assassino começa a contar o que o levou a cometer tal crime enquanto devaneia sobre casamento, amor, sexo e o papel da mulher na sociedade.

São visões super pessimistas e controversas que fazem com que o leitor crie uma repulsa em relação ao personagem – ou ao autor, já que a linha que os separa é bem tênue e, dizem, Tolstói estava bastante deprimido quando escreveu essa história.

…supõe-se em teoria que o amor é algo ideal, elevado, mas na prática o amor é ignóbil, porco, sendo repugnante e vergonhoso falar e lembrar-se dele. […] as pessoas fingem que o repugnante e vergonhoso é belo e sublime.

Tolstói fala que a mulher é sempre vista como um objeto de prazer e para que assim não o seja ela deve manter-se casta por toda a vida.

Veja toda a poesia, toda a pintura, toda a escultura, a começar pelos versos de amor e pelas Vênus e Frineias despidas, o senhor vê que a mulher é um instrumento de prazer; ela é assim nas ruas de Trubá e de Gratchovka, e também no baile da corte. E observe a artimanha do demônio: ora, um prazer, um deleite, podia-se bem admitir isso, dizer que a mulher é um bocado doce. Não, a princípio, os cavaleiros afirmavam venerar a mulher (veneravam, mas assim mesmo olhavam-na como um instrumento de prazer). E agora asseguram que respeitam a mulher. Uns cedem-lhe o lugar, levantam-lhe um lenço; outros reconhecem o seu direito de ocupar todos os cargos, de participar no governo, etc. Fazem tudo isso, mas o modo de encará-la é sempre o mesmo. Ela é um instrumento de prazer. O seu corpo é um instrumento de prazer. E ela sabe disso.

Alfineta a relação entre mãe e filho, a medicina e os médicos, o feminismo e o cavalheirismo, religião e casamento. Dá, inclusive, a entender que a música perverte o ser humano. Por fim, já nas horas que antecedem o assassinato, seu diálogo rodeia o ciúme e a dúvida. Um ciúme doentio que cega e tem consequências graves. E a dúvida que o persegue, ela o trai ou não? Por mais que a pessoa não queira verdadeiramente uma resposta, ela quer saber a verdade, como se, no fundo, tivesse alguma esperança de suas desconfianças serem infundadas.

Até lembro confusamente, que tendo cravado o punhal, no mesmo instante o retirei, querendo corrigir, deter, o que já fora realizado. Por um instante, fiquei imóvel, esperando o que ia acontecer, procurando ver se era possível corrigir aquilo.

E mostra-nos arrependimento, mesmo que passageiro, mostra-nos a inconseqüência dos atos impensados e imaturos, de agir com a cabeça quente, sem pensar.

É possível que você seja contra tudo que é citado em um livro e ainda assim o achar fenomenal? Foi bem o que me aconteceu nesse livro. A história é narrada com maestria, prende e instiga, e, por mais que irrite, não há como não gostar.

Devo apenas mencionar minha decepção em relação a sonata que tanto amo e que, a meu ver, não teve esse destaque todo. Digo a meu ver pelo que li da história em si, sem contar com o posfácio, que explica melhor a influência que tal música teve nessa história.

5 Estrelas3 corações

* Está na lista dos “1001 livros para ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

a sonata a kreutzer tolstoi

Despeço-me deixando o link da sonata no youtube interpretada pela majestosa violinista alemã Anne-Sophie Mutter e pelo grande pianista Lambert Orkis. Na história de Tolstói a esposa assassinada é a violinista e o suposto traidor, o pianista. A música, o motivo da traição.

Sinopse: A Sonata a Kreutzer – O tema da infidelidade no casamento já havia ocupado Tolstói na década de 1870, quando redigiu ‘Ana Karênina’, uma de suas obras-primas. Em ‘A Sonata a Kreutzer’, que veio à luz mais de dez anos depois, o tema retorna com uma intensidade fora do comum, potencializada pelos anos de crise religiosa do escritor. Aqui, para além da questão da fidelidade no matrimônio, Tolstói investiga de forma aguda o desequilíbrio nas relações entre homens e mulheres, e a hipocrisia de que se reveste o comportamento sexual da sociedade.

Lançando mão de sua própria experiência, bem como de idéias, fatos e motivos que colheu à sua volta, Tolstói produziu um texto excepcional. Como observa Boris Schnaiderman no posfácio desta edição, se por um lado é impossível concordar com as teses levantadas pelo protagonista Pózdnichev, que em parte refletem posições do próprio escritor, também é impossível permanecer indiferente a esta narrativa absolutamente singular, que arrasta os leitores com seu tom exaltado e arrebatador.

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

Noites Brancas Dostoievski

Autor: Fiódor Dostoiévski
Literatura Russa / Novela / clássico
Editora: 34
Páginas: 96
Ano: 2009
Ano de Publicação Original: 1848

 

Novela publicada em 1848, Noites Brancas é considerada a maior aproximação de Dostoiévski com o romantismo. Escrito em primeira pessoa por um personagem sem nome que sofre de uma solidão profunda, esse livro é tão singelo que passamos as páginas com delicadeza para não machucá-las.

A história se passa em São Petersburgo, em noites brancas – no verão, durante alguns dias, o sol não chega a se pôr completamente, deixando as noites quase tão claras quanto o dia, as noites brancas. O narrador é um solitário sonhador que, vagando pela rua, se depara com uma moça chorando, a segue e por ela se encanta. Nástienka é uma ingênua menina que vive atada à saia da avó, que é cega, por um alfinete para que não fuja de casa e espera, apaixonada, pelo retorno prometido de seu amor.

Na primeira noite, Nástienka pede ao narrador que por ela não se apaixone. Na segunda, ele lhe conta sua história de isolamento, em um discurso tão elevado que Nástienka se maravilha, mas pede que fale de modo mais simples, pois não saberá falar à altura. Em outra noite, ela é quem lhe conta de sua vida, de sua espera e de seu amor que já deveria ter retornado. Sobre a última noite não lhes digo nada, para não tirar a surpresa, mas conto que entre esses dias, o narrador vai ajudar a moça por quem se apaixonou a reencontrar seu prometido, mesmo que aquilo lhe doa no peito, mesmo que não vá ter nunca o amor de Nástienka para ele.

É uma singela e bonita história de amor, de desprendimento, de amar sem ser amado, de ser amado sem amar. É um amor genuíno, delicado, puro e, eu poderia dizer, sutil, mas não, não é sutil. É forte e extrapola, mesmo que apenas dentro do coração do solitário sonhador, que guarda para si o sentimento por temer que sua libertação afaste sua amada.

Leitura mais que recomendada, rápida e, vou ter que repetir, singela. Um deleite!

4.5 corações

 

** Vale a pena investir na edição da Editora 34. Ela tem se destacado nos (re)lançamentos dos clássicos russos, com traduções sempre muito bem elogiadas. Ah, e isso não é um publipost, ok?, não ganho NADA da editora 😉

noites brancas banner dostoievskiSinopse: Durante uma das singulares “noites brancas” do verão de São Petersburgo, em que o sol praticamente não se põe, dois jovens se encontram numa ponte sobre o rio Nievá e dão início a uma história repleta de fantasia e lirismo. Publicado em 1848, na contracorrente de sua época, que privilegiava o Realismo, este livro é, na obra de Dostoiévski, aquele que mais se aproxima da escola romântica. Não apenas pelo tipo do Sonhador, figura central da novela, mas também pela atmosfera delicada e fantasmagórica, que envolve a trama, o cenário e os protagonistas. Aqui, a própria cidade de São Petersburgo — com seus palácios e pontes, seus espaços monumentais — revela-se como personagem. Não por acaso, Noites brancas atraiu a atenção de diretores de cinema como Luchino Visconti e Robert Bresson, que procuraram traduzir para a tela todo o encanto desta que se tornou uma das obras mais famosas de Dostoiévski — agora pela primeira vez no Brasil em tradução direta do russo.