Ex-Libris: Confissões de uma leitora comum, Anne Fadiman

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Autora: Anne Fadiman
Não Ficção / Ensaios / Livros sobre Livros
Editora: Jorge Zahar
Páginas: 162
Ano: 2002

 

 

Não tem nada que me anime tanto a furar uma lista de livros para ler do que um livro sobre livros. Uma pequena frase na capa resume perfeitamente bem o que é Ex-Libris: Confissões de uma leitora comum e o que sentimos ao ler suas páginas: uma declaração de amor aos livros. Exatamente isso, sem tirar nem pôr.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que Anne Fadiman não é uma leitora tão comum assim. É uma leitora voraz, uma completa viciada em livros e tudo que eles podem lhe oferecer, uma típica bibliófila apaixonada. Seus ensaios são um convite para uma conversa deliciosa entre duas leitoras, um passeio por seus pensamentos e pelas minúcias de sua família, cujos membros são tão obcecados pelo mundo da leitura quanto ela.

Facilmente nos identificamos com os Fadiman, com alguns de seus costumes e manias, com algumas de suas loucuras, com muitos de seus pensamentos. Imaginem o que é viver em uma família na qual todos são obsessivamente apaixonados por livros, pela arte de escrever e por escritores! Aos poucos, ensaio após ensaio, vamos entrando na intimidade desses personagens da vida real, e logo nos sentimos parte da família.

É quase como um diálogo, já que muitas vezes a respondi praticamente em voz alta, algumas vezes concordando com tudo, outras vezes discordando com um grito abafado “não, não faço isso”, mas sempre rindo.

Ela entra também em pontos importantes, como o porquê de algumas crianças gostarem de ler e outras não. Identifiquei-me bastante quando ela disse que sempre viu seus pais lendo, pois foi o que sempre aconteceu comigo. Na cabeceira do meu pai sempre teve um livro, assim como uma estante cheia deles em outro quarto. Nunca cheguei na casa do meu avô para não interrompê-lo no meio de uma leitura. Lia sentado em uma cadeira no terraço, mas sempre encontrei livros espalhados por toda a casa e sua biblioteca era como um paraíso cheio de magia. Muito pouco – ou nada – adianta mandar uma criança ler se quem ela admira e tem como exemplo nunca está lendo.

“Minha filha está com sete anos, e alguns outros pais de alunos da segunda série se queixam de que seus filhos não leem por prazer. Quando visito suas casas, o quarto das crianças se encontra atulhado de livros caros, mas o dos pais está vazio. Essas crianças não veem os pais lendo, como acontecia comigo a cada dia da minha infância.” 

Anne nos convida a novas experiências – novas para mim, pelo menos – como ler em voz alta. Demoraria muito para terminar um livro em voz alta, não é? Ela nos faz refletir que isso talvez não seja tão ruim assim.

“Ler em voz alta significa não pular trechos, não passar os olhos apenas, não fazer recortes. Na velocidade em que estamos indo, levaremos seis meses para por Ulisses em casa, em Ítaca – o que não é tão mal assim se considerarmos que ele levou dez anos. Na verdade, nosso ritmo vagaroso pode mostrar que tem algumas vantagens. O poema vai se desdobrando de forma gradual, sua velocidade numa marcha mais apropriada para jônios do oitavo século a.C. do que para novaiorquinos estressados dos dias de hoje, e, à medida que avança, vai nos desacelerando também. Ao começarmos, senti que éramos muito ocupados para ler Homero. Agora sinto que somos muito ocupados para não lê-lo.”

Fala dos livros usados, do prazer de visitar um sebo, dos que gostam das páginas surradas e dos que preferem os livros com cheirinho de novo. Eu adoro livros novos, Anne Fadiman diz que um dia já foi assim, e fiquei me perguntando se eu mudaria também.

“Nem todo mundo gosta de livros usados. As manchas, as marcas, os sublinhados e as migalhas de torradas ossificadas deixadas pelos donos anteriores podem provocar um certo nojo em leitores mais delicados, como roupa íntima de segunda mão.”

Repito, é um diálogo incessante: ela fala, você responde; você fala, logo ela lhe responde também. Adorei conhecer essa família e cada pequena loucura sua, adorei identificar alguns detalhes que temos em comum e adorei querer ser como eles, querer um dia ler todas aquelas obras incríveis dos gênios que já passaram por aqui. Foi um deleite, uma leitura maravilhosa para quem ama livros. Eu estava um pouco errada, não é um livro sobre livros, é um livro sobre amantes de livros.

4.5 corações 4.5 Estrelas

ex libris meu

 

Sinopse: Anne Fadiman conta nesse livro uma serie de acontecimentos de sua vida como leitora que os leitores conseguem se identificar . É , como diz em sua capa, uma declaração de amor aos livros.

A vida do livreiro A.J.Fikry, Gabrielle Zevin

a vida do livreiro ajfikry

 

Autora: Gabrielle Zevin
Ficção Realística / Livros sobre Livros
Editora: Paralela
Páginas: 192
Ano: 2014

 

Saiu hoje o resultado do Goodreads Choice Awards 2014, com os livros vencedores de cada categoria na importante votação popular que acontece uma vez por ano no GR. Na categoria Ficção, A vida do livreiro A.J. Fikry ficou com o 3° lugar.

A vida do livreiro A.J. Fikry chamou a minha atenção justamente pela palavrinha mágica livreiro. É natural que as pessoas que gostam de ler se interessem por livros que falam de livros, e aí minha imaginação já entra em parafuso e começo a ver magia para tudo quanto é lado, começo a imaginar uma bela livraria, uma pequena cidade e muitos leitores apaixonados. Bem, não é por aí que esse livro se desenrola, ele é realístico e pé no chão.

A.J. Fikry é o dono da única livraria de Alice Island, a Island Books, e está amargurado, de mal com a vida, sofrendo pela morte de sua mulher. As vendas vão mal e A.J. não se importa muito, continua rabugento. Até que um certo dia encontra algo no chão de sua livraria que vai mudar sua vida e fazer com ele se abra para a possibilidade de amar novamente.

A história é daquelas completamente plausíveis, daquelas que você até relaciona os personagens com pessoas que você conhece de tão real e corriqueira que ela é. Não tem firulas, enfeites e confetes. Não tem grandes mistérios, reviravoltas, amores arrebatadores nem nada. Ela é simples e é aí que está sua beleza.

A.J. é um personagem que você aprende a gostar ao longo do livro. Adorei o cinismo que a autora imprimiu no seu gosto literário e a maneira que ele se orgulha em criar Maya para ser uma nerdMaya é, para mim, a personagem central e me conquistou completamente com sua fofura e esperteza. Amelia também tem seu charme, tem uma paixão especial pelo que faz e uma simplicidade e carisma que envolvem o leitor.

Dos secundários, Ismay não me cativou, mas Lambaise é tão, mas tão típico que não tem como não simpatizar com ele. É aquele delegado que, bem, não lia, mas que de tanto aparecer na livraria e ter que comprar livro por um certo motivo, passa a lê-los para não desperdiçar o dinheiro gasto. Claro, encontra seu gênero literário favorito (ou se encontra nele) e passa a ser um leitor voraz. Daniel Parrish, apesar de não ser envolvente (e nem era a intenção da autora, talvez), é muito bem construído e tem um certo clichê, acredito eu, inerente a muitos escritores.

A escrita é…digamos…esquisita, mas não em um mau sentido. É difícil explicar, pois ao passo que me diverti bastante também achei um pouco…marcada demais. Não é que seja ruim, só não é comum, é como se fosse pausada. Boa, gostosa, mas, ao mesmo tempo, um pouco seca.

A edição brasileira tem alguns erros de revisão bem grosseiros, nada que atrapalhe demais a leitura – mas sentimos falta do capricho, não é verdade?

No geral, A vida do livreiro A.J. Fikry é uma leitura agradabilíssima, incrivelmente realística e um tanto divertida. É daquelas histórias para se ler em uma sentada, em um domingo à tarde, comendo pipoca. Tem um quê de tristeza, mas tudo é colocado de uma forma bem natural e bonita, demonstrando que a vida segue seu caminho, seu ciclo, que ela se renova e continua. Não superou minhas altas expectativas, mas, sem dúvidas, recomendo para todos aqueles que amam livros que falam de livros.

3.5 corações

4 Estrelas

a vida do livreiro

Sinopse: Uma carta de amor para o mundo dos livros “Livrarias atraem o tipo certo de gente”. É o que descobre A. J. Fikry, dono de uma pequena livraria em Alice Island. O slogan da sua loja é “Nenhum homem é uma ilha; Cada livro é um mundo”. Apesar disso, A. J. se sente sozinho, tudo em sua vida parece ter dado errado. Até que um pacote misterioso aparece na livraria. A entrega inesperada faz A. J. Fikry rever seus objetivos e se perguntar se é possível começar de novo. Aos poucos, A. J. reencontra a felicidade e sua livraria volta a alegrar a pequena Alice Island. Um romance engraçado, delicado e comovente, que lembra a todos por que adoramos ler e por que nos apaixonamos.