O legado de Eszter, Sándor Márai

 

 

Autor: Sándor Márai
Lit. Húngara / Clássico
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 113
Ano: 2001
Ano de Publicação Original: 1939

 

Sabe quando você lê um livro e gosta tanto que compra – cega e obsessivamente -todos os outros do autor? Foi o que aconteceu quando li As Brasas, comprei tudo que encontrei de Sándor Márai, e não me arrependo.

O Legado de Eszter foi escrito uns poucos anos antes de As Brasas, e eu diria que é como uma prévia do que viria a ser a obra-prima do escritor. Como sempre, o enredo é muito simples e o foco está na condição humana, nos sentimentos, nos comportamentos.

Eszter e Nunu, uma antiga criada, recebem um comunicado de que Lajos voltará para lhes fazer uma visita, após vinte anos de ausência. Todos naquela casa se preparam para a chegada daquele homem sem caráter, sem escrúpulos, que fora cunhado de Eszter e o único homem que ela amou na vida.

Sem reviravoltas ou grandes floreios, Márai nos leva para dentro daquela casa, nos faz sentir todo o peso que paira sobre aquele lugar, sobre tudo que ele poderia ter sido e vivido. Vai nos sufocando com palavras carregadas de angústia e amargura, nos enfeitiçando com um texto limpo e delicado e, pouco a pouco, vai tirando as camadas que cobrem e sustentam Eszter, até que ela se transforme em pó, como se não aguentasse tamanha nudez.

Quem gostou de As Brasas certamente gostará de O legado de Eszter, pois segue a mesma linha intimista e dolorosa. Só não esperem que seja superior, não é, é um livro bem mais simples, mas maravilhoso. Vale a pena!

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“Passado algum tempo não é possível ‘acertar-se’ nada entre as pessoas; compreendi essa verdade desesperançada ali, no banco de pedra. O homem vive e remenda, repara, constrói e depois, por vezes, estraga a vida; mas com a passagem do tempo percebe que o todo, que se erigiu daquela forma, a partir dos erros e acasos, não é modificável. Lajos já não podia fazer mais nada. Quando alguém emerge do passado e anuncia em tom comovido que deseja acertar ‘tudo’, o propósito só pode suscitar compaixão e riso; o tempo já ‘acertou’ tudo, a seu modo singular, o único possível.”

Sinopse: Eszter e a velha criada Nunu já se acomodaram a uma existência de aldeia, quase solitária, pacata, acreditando-se livres das memórias de uma época em que a energia e o encanto de Lajos aturdiam a todos na casa. Naquele tempo, enfeitiçados por suas promessas, os pais e os irmãos de Eszter entregaram- lhe quase tudo o que tinham.

Entretanto, Eszter e Nunu recebem um dia um telegrama: Lajos anuncia que voltará, depois de uma ausência de vinte anos. As duas se debatem entre a esperança de que virá para saldar suas dívidas e o pressentimento do perigo – talvez venha em busca de algum resto da herança miúda deixada pelo pai de Eszter.

Atordoada por um turbilhão de sentimentos contraditórios, ela se prepara para a chegada. Lajos – que entre juras de amor por ela, Eszter, desposou sua irmã Vilma -, o falsificador de promissórias, o descrente, o fugitivo, o indigno de confiança, o que mente com lágrimas de verdade, foi o único homem que Eszter amou.

Assistimos, incrédulos, aos passos sedutores de Lajos, ensaiados, e à entrega angustiada mas inevitável de Eszter. Um fim paradoxal revela a lei ausente dos manuais de ética: o que um dia se iniciou tem de ser encerrado. Descobrimos que ´as decisões solenes e definitivas, que traçam o relevante na linha do destino de nossas vidas, são bem menos conscientes do que acreditamos mais tarde, nos momentos de rememoração e lembrança´. Na prosa límpida e precisa de Márai, ao emergirem das páginas, Eszter e Lajos se alinham aos personagens inesquecíveis da literatura universal.

O Labirinto dos Espíritos (O Cemitério dos Livros Esquecidos #4), Carlos Ruiz Zafón

 

 

AUTOR: CARLOS RUIZ ZAFÓN
LITERATURA ESPANHOLA / mistério
EDITORA: planeta
PÁGINAS: 928
ANO: 2016

 

O Labirinto dos Espíritos é o quarto e último livro de O Cemitério dos Livros Esquecidos, uma das minhas séries favoritas. Os livros podem ser lidos fora de ordem, pois as histórias se sobrepõem e se complementam. Como o autor diz, é uma história com quatro portas de entrada diferentes, e isso é o mais mágico de tudo. Contudo, ainda prefiro a ordem de lançamento: A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo, O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos.

A Sombra do Vento tem seu foco em Daniel Sempere, O Jogo do Anjo em David Martín e Isabella Gispert e O Prisioneiro do Céu conecta os dois primeiros livros e nos dá um pouco mais de Fermín. Então, o que traz o quarto livro? Traz mais uma personagem forte, nos traz Alicia!

O enredo se desenvolve em torno do sequestro de Mauricio Valls, vilão já conhecido do leitor. Alicia e Vargas são contratados para ajudar a desvendar o caso, mas terminam descobrindo muito mais do que deveriam e arriscando suas vidas. Claro, os mistérios estão conectados com os livros anteriores.

É o mais policial dos quatro livros, especialmente a primeira metade – a que mais gostei. Como lhe é peculiar, Zafón recheia suas páginas com intrigas, desaparecimentos, assassinatos, drama, paixão e uma pitada de humor.

A sombria Barcelona de outrora continua a encantar, o cemitério continua mágico e inspirador e a livraria dos Sempere ainda nos deixa com aquele sorriso bobo no rosto.

O que dizer de Alicia? Essa personagem, uma referência a Alice no país das maravilhas, me encantou profundamente. Bem construída, cheia de camadas, dramática, complexa e, ao mesmo tempo, tão transparente. Vargas? Prefiro não entregar o jogo… (Zafónzito, quiero matarte!)

Assim como nos demais volumes, em O Labirinto a metaliteratura está sempre em cena. Zafón nos presenteia com uma literatura que referencia – e reverencia – grandes obras, mas de forma despretensiosa e sutil. É um livro de entretenimento de qualidade, bem escrito, muitíssimo bem construído e com personagens inesquecíveis. INESQUECÍVEIS! Como esquecer Daniel Sempere?! Impossível!

A história é toda redondinha, sem pontas soltas, mas tem algo que pode incomodar aos mais cricris. Ao longo das investigações, repete-se muito as mesmas informações, sempre com algum acréscimo, mas ainda assim são muitas repetições. Elas ajudam, na verdade, o leitor a não se perder em meio a tantas épocas e tantos fatos distintos. Fiquei o tempo todo pondo em ordem os acontecimentos, puxando da memória o que eu já sabia e rabiscando as novas peças do quebra-cabeças. Uma delícia!

É bom? Muito bom! Amei? Sem dúvidas! Porém senti falta de um algo a mais, talvez de um final mais apoteótico e mais surpreendente. Senti vontade de abraçar o livro em diversos momentos, mas, apesar de a história estar completíssima, queria mais. Queria que superasse A Sombra do Vento… e não supera. É o único defeito.

São quase mil páginas e eu leria outras tantas. Zafón consegue prender o leitor do começo ao fim, com um ritmo frenético e uma linguagem elegante e quase poética, com personagens que exalam amor pelos livros e faz derreter o coração daqueles que compartilham dessa paixão.

Assim como um dia encontrarei aquele guarda-roupa que leva a Nárnia e aquela plataforma que leva a Hogwarts… Cemitério dos livros esquecidos, me aguarde, um dia lhe encontrarei.  ❤

4.5 Estrelas 5 corações

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resenha dos demais livros da série

A Sombra do Vento (aqui)

O Jogo do Anjo (aqui)

O Prisioneiro do céu (aqui)

Sinopse: Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere, já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo. Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível. “O Labirinto dos Espíritos” é uma história electrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com “A Sombra do Vento”, que alcança aqui toda a sua intensidade e tracejado, que por sua vez desenha uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

Liturgia do Fim, Marilia Arnaud

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Autora: Marilia Arnaud
Literatura Brasileira
Editora: Tordesilhas
Páginas: 150
Ano: 2016

 

Quando Liturgia do Fim chegou, eu tinha uma pilha de livros em andamento e nenhuma intenção de começar mais uma leitura. Ao abrir o livro para folhear, me deparei com a informação de que a autora era minha conterrânea. Curiosa, pensei em ler os primeiros parágrafos para saber se valeria a pena lê-lo algum dia. Não consegui mais parar. Não dá pra parar. Não tem como parar.

Marilia Arnaud nos conta a história de Inácio, um professor e escritor apaixonado pelas palavras, que, expulso de casa aos 18 anos, vai viver na cidade grande, forma família, mas, sem conseguir se desligar do passado, retorna à casa trinta anos depois para ver como tudo está e o que sobrou de Perdição, lugar onde nasceu.

A primeira surpresa foi o fato de termos uma narrativa em primeira pessoa, com um personagem masculino, escrito por uma mulher. Isso nem sempre dá certo, mas, se comecei com a imagem da escritora na cabeça, poucas páginas depois ali só existia Inácio e ninguém mais. Muito convincente e verossímil.

A escrita da autora é a alma do livro. Marilia não tem a intenção de ser simplória, pelo contrário, usa e abusa do rico vocabulário da língua portuguesa. Sem medo, vale salientar. Usa regionalismos à vontade, sem, no entanto, cair no caricatural, acorda palavras adormecidas e traz outras tantas que eu nem imaginava que, de fato, existissem no dicionário. E o melhor, seu rebuscamento não soa pedante nem tira a fluidez da leitura.

Assim como seu personagem, a autora certamente é uma amante das letras. É notável o cuidado que teve em não repetir as palavras ao longo do livro. O resultado de tudo isso é um texto bonito, poético, de um lirismo que nos traz aquela vontade de ler em voz alta. E, confesso, li boa parte assim.

Outro ponto que gostei foi o fato de Marilia ter usado os diálogos “dentro” dos parágrafos, sem interrupções, sem formalidades, separados apenas por diferentes flexões verbais.

A história é um triste e duro retrato de um dos tipos de família sertaneja, daquela que gira em torno do patriarca machista, bruto, ignorante e intransigente. Revela em suas entrelinhas a esposa submissa, temente e sofrida; a mãe tensa e preocupada, que oculta do marido até as menores travessuras dos filhos para protegê-los; a doméstica que abdica de sua vida para tornar-se criada, para doar-se a uma família que não é a sua; os parentes “encostados”, sempre presentes; as crenças e os costumes regionais. Faz-nos questionar se realmente “o fruto não cai tão longe da árvore”.

Liturgia do Fim, além da boa forma, é de uma sensibilidade impressionante. É possível sentir a dor, a angústia e o desespero do personagem durante toda a leitura, que mais parece uma ferida aberta pulsando em nosso corpo. Impossível poupar elogios, impossível não recomendar.

5 corações 5 Estrelas

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Sinopse: Inácio, escritor e professor universitário, um homem assombrado pela memória e pelos fantasmas de um segredo familiar, abandona a mulher e a filha, as salas de aula e a literatura para voltar a Perdição, lugar onde nasceu e viveu até os 18 anos. Com essa idade foi expulso de casa pelo pai, um homem rude e autoritário que educou os filhos com rigor e frieza. Numa narrativa descontinuada e sinuosa, em que presente e passado se alternam e se misturam, Inácio narra a infância e a adolescência em Perdição, a vida em família, a relação difícil com o pai, o terno entendimento com a mãe, a obsessão pela tia louca, os medos noturnos, o primeiro e único amor, a paixão pelos livros.

 

O lado feio do amor (Ugly Love), Colleen Hoover

o lado feio do amor ugly love
Autora: Colleen Hoover
New Adult / Romance
Editora: Galera Record
Páginas: 336
Ano: 2015

 

Lido e resenhado em Agosto de 2014, pelo original Ugly Love. O Lado Feio do Amor será lançado no Brasil esse mês e, portanto, merece destaque por aqui 😉

Como falar de um livro da Colleen sem parecer uma adolescente-fantática-ensandecida delirando pelo seu ídolo? Não, não sei como. Não consigo só gostar das suas histórias, simplesmente. Eu as amo intensamente, cada uma delas, cada detalhe, e elas levam sempre um pedacinho de mim, me emocionam, me empolgam, me conquistam, me ganham… Colleen Hoover, my queen, you did it again! O lado feio do amor – Ugly Love é lindamente delicioso.

Não sei o que eu esperava desse livro, mas certamente não era o que li. A autora definitivamente saiu da sua zona de conforto do young adult e escreveu brilhantemente uma história para um público mais maduro do que estava habituada.

A história começa com Tate Collins se mudando para São Francisco para o apartamento de seu irmão, Corbin, piloto de uma companhia aérea, onde pretende ficar até encontrar um lugar só seu. É lá que ela conhece o também piloto Miles Archer, amigo e vizinho de seu irmão. Miles e Tate, em seus vinte e poucos anos, têm algo em comum: além da forte atração que sentem um pelo outro, eles não querem se envolver com ninguém. Tate está focada em sua carreira; Miles não quer amar ninguém, nunca…nunca mais. Ninguém! Então, eles fazem um acordo.

Não se enganem com a aparência de enredo comum ou batido, pois a autora sabe como lhe tocar lá no fundo da alma. Começa com a leveza de sempre, divertido e apaixonante, com aquele flerte que só a Colleen consegue deixar tão sexy, tão “suspirante”, tão cheio de tensão e expectativas. Contudo, você sabe que o drama vai chegar, e ele chega sem piedade.

A história é contada em primeira pessoa, intercalando passado e presente, sob os pontos de vista de Tate e de Miles. São duas histórias contadas em paralelo que fez meu coração palpitar mais depressa, que me deixou curiosa e tensa. Sempre falo que essa autora me tira o ar e, por mais repetitivo que pareça, não vejo como não dizê-lo, já que é exatamente assim que fico durante a leitura. Sem ar. Completamente sem ar! Sabe aquela vontade de parar e sugar o ar profundamente porque a última respirada lhe deu a impressão de ter sido curta demais, insuficiente demais? Chamo de Efeito Colleen: Mãos suadas, palpitação, falta de ar, olhos cheios d’água, boca seca…

Miles. É o personagem central. Sério e responsável, vai fazer você suspirar de amores e morrer de aflição. Sofri com ele e por ele, muito, muito, muito. Quis abraçá-lo, colocá-lo no colo, confortá-lo. Quis saber ansiosamente o que tinha acontecido para que ele se fechasse tanto, sangrasse tanto, repulsasse tanto o amor, se negasse tanto. Amei-o com todo meu coração – mas também quis esmurrá-lo em alguns momentos.

Tate. Perseverança é seu nome, esperança, sobrenome. Tate é forte e fraca, é real, crível, palpável. Tate não desiste, insiste, não se esconde, não se envergonha. Ela tenta, erra, se engana, sofre, chora, luta, ama. Como não se identificar com ela?

Rachel. Primeiro eu tive ciúmes, muito… depois, gostei dela. Então, sofri com ela e a entendi. Até que tive raiva e quis culpá-la. Por fim, a perdoei. 😉

Corbin. Os personagens secundários da autora são sempre feitos com esmero, e com Corbin não foi diferente. Eu o adorei! Adorei o amigo que ele era para o Miles e o irmão mais velho e demasiadamente protetor para a Tate. Adorei como o ciúme e suas atitudes foram tão bem mensurados. Yeah, Corbin! As pequenas discussões entre os irmãos e os amigos foram um deleite à parte.

Cap. Não poderia esquecer desse sábio velhinho, mesmo que ele tenha sido “apenas” o cara que aperta o botão do elevador. Cap foi fundamental!

Esse livro é mais do que uma historinha de amor, é mais do uma historinha de duas pessoas que se apaixonam, é mais, é muito mais. É impactante! É sobre a vida e o quão feia ela pode ficar, o quanto ela pode machucar; é sobre a sensação de culpa que sufoca, penaliza e rouba a esperança, rouba os sonhos, a felicidade e os sorrisos daqueles que a carregam. É sobre o medo de sofrer e de fazer sofrer, sobre o medo de errar.

Ugly Love nos mostra que quem ama espera, acredita, persevera, mesmo que isso lhe doa imensamente. Quem ama escuta o coração e sonha que tudo um dia pode ser diferente, que você pode fazer o feio voltar a ser belo, que você pode trazer brilho aos opacos olhos de quem há muito já não crê na felicidade.

É, talvez, o mais simples, menos ambicioso e menos dramático de seus livros, mas não menos encantador. Como não recomendar um livro que faz você ouvir cada risada dos personagens, que faz você sentir cada respiração, cada som ofegante de paixão? Como não recomendar uma história que você escuta o estalar dos lábios se tocando, o barulho dos beijos calorosos e dos grunhidos involuntários? Recomendo, recomendo mil vezes… O amor vale a pena, vale o risco, e ele, e só ele, permite que a dor se apazígue, só o amor pode deixar tudo belo de novo. Espero que vocês gostem tanto quanto eu, sofram e chorem tanto quanto eu, sorriam e amem tanto quanto eu.

5 corações 4 Estrelas

ugly love o lado feio do amor

Sinopse: O Lado Feio do Amor – Quando Tate Collins se muda para o apartamento de seu irmão, Corbin, a fim de se dedicar ao mestrado em enfermagem, não imaginava conhecer o lado feio do amor. Um relacionamento onde companheirismo e cumplicidade não são prioridades. E o sexo parece ser o único objetivo. Mas Miles Archer, piloto de avião, vizinho e melhor amigo de Corbin, sabe ser persuasivo… apesar da armadura emocional que usa para esconder um passado de dor.O que Miles e Tate sentem não é amor à primeira vista, mas uma atração incontrolável. Em pouco tempo não conseguem mais resistir e se entregam ao desejo. O rapaz impõe duas regras: sem perguntas sobre o passado e sem esperanças para o futuro. Será um relacionamento casual. Eles têm a sintonia perfeita. Tate prometeu não se apaixonar. Mas vai descobrir que nenhuma regra é capaz de controlar o amor e o desejo.

As Luzes de Setembro, Carlos Ruiz Zafón

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AUTOR: CARLOS RUIZ ZAFÓN
MISTÉRIO / JOVEM ADULTO / LIT. ESPANHOLA
EDITORA: SUMA DE LETRAS
PÁGINAS: 232
ANO: 2013
TRILOGIA DA NÉVOA #3

 

Zafón diz que seus quatro primeiros livros foram escritos pensando nas histórias que ele gostaria de ter lido aos treze anos. Apesar de concordar que são enredos juvenis, penso que são mais do que isso, são histórias que queremos ler na idade adulta, com um ar meio nostálgico, pensando que seria o que gostaríamos de ler na adolescência. São histórias que nos transportam aos treze ou quinze anos e, mesmo que não tenhamos vivido nada parecido com aquilo, facilmente nos identificamos com as sensações, os sabores e os medos. Dizer que as descrições de Zafón são perfeitas é quase um pleonasmo, pois, mesmo que o enredo não lhe convença ou lhe encante, não há como não delirar com suas minuciosas e poéticas palavras ou se imaginar em seus cenários ricamente detalhados.

As Luzes de Setembro se passa em 1937 na Normandia, para onde Irene, sua mãe e irmão se mudam após uma proposta de trabalho de Lazarus, um magnífico engenheiro dono de uma enorme – mágica e macabra – fábrica de brinquedos. Irene, perto dos 15 anos, conhece Ismael, por quem se apaixona e com quem vai viver a história mais tenebrosa e assustadora de sua vida ao tentar desvendar os mistérios que envolvem a magnânima mansão do fabricante de brinquedos.

Já nas primeiras páginas Irene me ganhou. Mais do que isso, comecei a entendê-la e a sentir tudo que sentia. Nessas mesmas primeiras páginas, o engenheiro Lazarus também mereceu um cantinho no peito e nem sei explicar o porquê. Talvez a magia que envolve brinquedos – brinquedos de verdade, sem botões ou manual de instrução – tenha me feito confiar nesse personagem e torcer para que sua intenções fossem as melhores. Porém, às vezes, quando as histórias envolvem brinquedos trazem com elas, além de seu lado mágico e fantástico, o lado macabro, melancólico e pavoroso. Quem nunca sonhou que os brinquedos falam – e festejam e brigam e lutam – enquanto você dorme? Quem nunca ouviu uma fábula sinistra sobre um anjo de madeira ou uma boneca de porcelana? E são essas lembranças de fatos que nunca nem aconteceram que Zafón nos traz à memória.

Devo lembrar, esses quatro livros juvenis não devem – nem haveria como – ser comparados com seus livros adultos. Leiam!, mas leiam para sentir a magia de anos que não voltam, leiam para se deleitar com a incrível evolução do autor, para deixar a nostalgia em primeiro plano, para sentir a época em que ter quinze anos e ser inocente podiam estar juntos na mesma frase, leiam para salivar com as maravilhosas descrições e vivenciar deliciosos e fantasmagóricos lugares, mas jamais leiam esperando A Sombra do Vento, pois ela não virá.

Se eu tentar classificar seus livros juvenis em ordem de preferência teria Marina no topo, seguido de As Luzes de Setembro e depois, empatados, O Príncipe da Névoa (aqui) e O Palácio da Meia-Noite (aqui). Mais que recomendo esse autor que tanto me encantou em A Sombra do Vento e que continua a me encantar, mesmo em seus livros mais simples. Como sempre, um Zafón é sempre um Zafón. 😉

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Sinopse: As Luzes de Setembro – Durante o verão de 1937, Simone Sauvelle fica de repente viúva e abandona Paris junto com os filhos, Irene e Dorian. Eles se mudam para uma cidadezinha no litoral da Normandia, e Simone começa a trabalhar como governanta para Lazarus Jann, um fabricante de brinquedos que mora na mansão Cravenmoore com a esposa doente.

Tudo parece caminhar bem. Lazarus demonstra ser um homem agradável, trata com consideração Simone e os filhos, a quem mostra os estranhos seres mecânicos quecriou: objetos tão bem-feitos que parecem poder se mover por conta própria. 

Irene fica encantada com a beleza do lugar – os despenhadeiros imensos, o mar e os portos – e por Ismael, o pescador primo de Hannah, cozinheira da casa. Ismael tem um barco, entende tudo sobre navegação e gosta de velejar sozinho, até conhecer Irene e vê-la de maiô… Os dois logo se apaixonam.

Entre Simone e Lazarus parece nascer uma amizade. Dorian gosta de ler e, muito curioso, quer entender como os bonecos de Lazarus funcionam. Todos estão animados com a nova vida quando acontecimentos macabros e estranhas aparições perturbam a harmonia de Cravenmoore: Hannah é encontrada morta, e uma sombra misteriosa toma conta da propriedade.

Irene e Ismael desvendam o segredo da espetacular mansão repleta de seres mecânicos e sombras do passado. Juntos enfrentam o medo e investigam estranhas luzes que brilham através da névoa em torno do farol de uma ilha. Os moradores do lugar falam sobre uma criatura de pesadelo que se esconde nas profundezas da floresta.

Em As luzes de setembro, aquele mágico verão na Baía Azul será para sempre a aventura mais emocionante de suas vidas, num labirinto de amor, luzes e sombras.

 

Livros do autor:

 

Romances Juvenis: (para todas as idades rs)

♣ Trilogia da Névoa (podem ser lidos fora de ordem):

#1 – O Príncipe da Névoa (1986) resenha aqui

#2 – O Palácio da Meia-Noite (1998) resenha aqui

#3 – As Luzes de Setembro (2005)

     – Marina (1999) ❤

Romances Adultos:

♣ O Cemitério dos Livros Esquecidos: (eles podem ser lidos como livros independentes, mas é preferível que se siga a ordem ideal)

#1 – A Sombra do Vento (2001) resenha aqui

#2 – O Jogo do Anjo (2008) resenha aqui

#3 – O Prisioneiro do Céu (2012) resenha aqui

#4 – ainda a ser publicado 😉

A Libélula no Âmbar (Outlander #2), Diana Gabaldon

A libélula no ambar

 

 

AUTORA: DIANA GABALDON
ROMANCE HISTÓRICO
EDITORA: SAÍDA DE EMERGÊNCIA
PÁGINAS: 944
ANO: 2014

(Resenha de Outlander #1 aqui)

 

Não sei se conseguirei expressar o que senti com a leitura desse livro, talvez meus comentários se alternem entre frustração e admiração pela autora. O primeiro livro, A Viajante do tempo é fantástico, une uma escrita sem defeitos, uma história de amor arrebatadora e um panorama histórico extraordinário. É perfeito, e quando um autor escreve um livro assim, tem, na sua sequência, a difícil missão de cumprir as expectativas do leitor. E as minhas eram altas, altíssimas.

Diana Gabaldon abre o livro no ano de 1968 e isso me assustou. Muito! Bem, não o ano, mas o fato de Claire estar com sua filha de 20 anos, Brianna Randall. Randall?! Vinte anos?! Mais algumas páginas e o que descobrimos é como um balde de água gelada na cabeça. Não, não pode ser. Por que, Diana, por que?! Fechei o livro, me irritei, não quis acreditar… depois, esperando alguma mágica, me recompus e retomei a leitura, pois a ansiedade já me consumia. Eu me vi virando longas páginas, em uma ânsia incansável por respostas. Talvez eu já as tivesse, mas eram tão duras que o que eu buscava mesmo era um milagre, uma daquelas reviravoltas impossíveis que só os autores de ficção conseguem fazer. Esse início cruciante foi uma sacada de mestre, mas também foi uma faca de dois gumes. Eu não diria decepcionada, mas me vi frustrada e isso, certamente, atrapalhou um pouco a leitura. Mas, voilà

A autora é brilhante, não há como negar. Escreve com maestria e parece que gosta do tom de sua própria voz, pois não nos poupa de pormenores ou fatos que servem apenas para a caracterização e contextualização da época e do lugar. Há trechos em que ela se aproxima mais de um livro de História do que de um romance e, não fosse o fato de termos um casal de protagonistas mais do que cativantes, teria sido difícil passar por todos aqueles capítulos. Não me entendam mal, é interessante, nos leva àquelas batalhas, nos faz viver a pompa da Paris do século XVIII e as campestres Highlands escocesas em toda sua brutalidade, seus clãs e costumes. Faz-nos sentir a ignorância diante das doenças, muitas vezes consequência da falta de higiene. É fascinante e nos transporta àquela difícil época, todavia o excesso de informações que não mudariam em nada o rumo do romance desanima um pouco. Eu não gosto de encurtar os livros, adoro adjetivação em demasia e todos os floreios que um autor pode utilizar, mas aqui eu tenho a petulância de dizer que tiraria algumas páginas. Uai, são 944!

Ainda assim, continuo dizendo que Diana é incrível. Ora! Ela nos tira da zona de conforto, extrapola todos os limites, é crua, dura, sai do lugar-comum, foge de coisinhas pequenas e do eu-te-conheci-me-apaixonei-e-acabou. Vira e mexe traz à tona o estupro do livro passado e, ó, céus, isso dilacera meu coração e eu sofro tudo de novo. Aos desavisados, se preparem, pois não para por aí. É como se ela tivesse um estranho fetiche por cenas nauseantes, cenas de estupro, de sexo como moeda de troca, de prostituição de menor e de inflição de dor nas partes baixas masculinas. Tudo extremamente detalhado e gráfico. Causa-nos nojo, pavor, repulsa e até pena.

No entanto, quando ela quer, faz-nos derreter de amor, faz-nos sorrir e salivar. Jamie e Claire são personagens apaixonantes, dignos de reverência. Claire é forte, decidida, determinada. É prestativa, mas sem ser boba; é doce, mas não é ingênua. Oh, Claire! O que ela fez pelo Jamie foi de uma coragem que só um amor verdadeiro é capaz, e me abalou, muito…me angustiou… Jamie, Ah, o Jamie!, o que dizer desse grandalhão que dá vontade de botar no colo? O que dizer de sua honestidade e franqueza? O que dizer de seu amor incondicional pela Claire e das palavras carinhosas (e engraçadas) que lhe diz? E sua inocência, tão bem mensurada que aquece a alma? E seu senso de humor? E sua coragem e bravura? E seus cabelos ruivos, seu corpo caloroso e sua beleza estonteante? Jamie e Claire são personagens perfeitos! Geralmente personagens assim são tão inverossímeis que entedia, mas aqui ocorre o oposto. Eles foram o que manteve aceso o romance e o que fez cada infinita página valer a pena.

Apesar de termos um amor e uma amizade forte entre o casal, senti falta das provocações bem humoradas que existiam no primeiro livro e queria ter visto um pouco mais de paixão. A paixão ficou já bem para o final do livro, e, repito, quando a autora quer, ela faz com esmero. Fez-me tremer, queimar por dentro, de dor e de amor, de medo e de desespero.

É difícil dar 5 estrelas a um livro que não lhe emocionou como você queria. Tão difícil quanto, é diminuir uma estrela de tamanha veracidade, de uma trama tão grandiosa e bem desenvolvida, de um trabalho primoroso de pesquisa histórica, com personagens tão amados e bem construídos. Recomendo? Ora, claro!

4.5 corações 5 Estrelas

 

Minha coleção <3 - Em destaque o livro #2, A Libélula no âmbar, na época o mais difícil de encontrar ;)

Minha coleção ❤ ainda da editora Rocco

Sinopse: O soldado Jamie Fraser, por quem Claire se apaixona, precisa ajudar o príncipe Carlos Stuart a formar alianças que o apóiem na retomada do poder. Pressente-se, entretanto, que a rebelião fracassará. De fato, a tentativa de devolver o trono aos católicos arruinará os clãs escoceses. Enfrentando um velho rival, Claire tenta impedir muitas mortes cruéis e salvar o homem que ama. Assim são os primeiros capítulos de A libélula no âmbar , segunda etapa de Outlander, série de Diana Gabaldon, que começou com A viajante do tempo . O romance tem início quando, depois de assistir a uma cerimônia celta, Claire atravessa séculos de história e cai no mesmo lugar, só que no ano de 1743, e encontra Jamie, seu grande amor.

Lolita, Vladimir Nabokov

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AUTOR: VLADIMIR NABOKOV
clássico/ romance
EDITORA: alfaguara
PÁGINAS: 392
 ANO: 2011

 

Antes de ler esse livro eu só sabia que Lolita era uma polêmica história de um homem de meia idade que se apaixonava por uma adolescente – ou melhor, por uma ninfeta – e nada mais. Temi iniciá-lo pois as palavras amor e pedofilia na mesma frase já me davam náuseas. No entanto, em um daqueles momentos que todo leitor ávido tem de procurar diversas listas de “melhores livros do século” ou “1001 livros para se ler antes de morrer”, notei que Lolita aparecia em todas. Em todas! E, claro, pensei, por que não?

Devo, antes, dizer que li umas 80 páginas e parei a leitura, interrompendo-a por um ou dois meses. Digo isso para encorajar os que fizeram o mesmo, ainda que sem motivo, como eu. Sugiro, ainda, que não retomem de onde pararam, mas que a reiniciem com novo frescor. Valeu cada palavra.

Humbert Humbert é um professor de literatura perto dos seus quarenta anos que se muda para a pequena Ramsdale para escrever um livro. Aluga um quarto na casa de Charlotte Haze, mãe de Dolores – Dolly, Lola, Lo, Lolita – a ninfeta de 12 anos por quem Humbert se apaixona perdidamente. Per.di.da.men.te!

“Tinha sido amor à primeira vista, à última vista, às vistas de todo o sempre.”

O primeiro amor de Humbert foi uma garota de 12 anos, Annabel, quando ele ainda era adolescente. Ela morreu quatro meses após o início da tórrida paixão juvenil, e por isso ele tenta nos convencer de que sua obsessão por ninfetas é, de certa forma, uma busca pela Annabel perdida. Humbert casa-se com Valeria, em uma tentativa frustrada de acabar com sua obsessão por ninfetas, mas Valeria também morre! E é após esses acontecimentos que nosso narrador muda-se para Ramsdale.

A narrativa é em primeira pessoa pelo que é chamado de narrador não confiável, uma vez que Humbert conta-nos o que lhe convém, muitas vezes (ou sempre) tentando convencer-nos de suas boas intenções.

O que você deve saber – que eu não sabia – é que o narrador vai lhe manipular e, por vezes (por muitas vezes!), vai lhe fazer acreditar em cada linha que ele escreve. Julguem-me: eu não vejo o Humbert Humbert como um pedófilo pervertido, vejo-o como um homem que enlouqueceu de amor. Percebe como esse livro pregou uma peça em mim?

Não há como negar que o que Humbert sente por Lolita é amor. Um amor ilícito, mas amor; doentio, obsessivo, ainda assim, amor; possessivo, egoísta, mas amor. Apaixona-se por ela desde a primeira vez que a vê e pretende manter esse amor para si. Bem, assim ele o diz. Convence-nos de que Lolita sempre lhe provocou, que a atração era mútua e de que foi ela quem tomou todas as iniciativas.

“Senhoras e senhores do júri, não fui seu primeiro amante.”

É uma leitura perturbadora, mas não me foi nauseante. A escrita é tão incrível que burlou meus pensamentos e me deixou boquiaberta aplaudindo de pé. A adjetivação contida nessas páginas é de fazer qualquer um babar, é inacreditável a capacidade de Nabokov com as palavras. Quantas vezes ele descreveu Lolita? Inúmeras! E todas únicas e fantásticas. A narrativa é rica, poética, meio hipnotizante, de uma estética encantadora.

Apesar de tudo, os personagens são extremamente irritantes, inclusive a “doce” Lolita, o que não deu brechas para que eu tivesse piedade dela. Mesmo diante dos favores sexuais exigidos por Humbert Humbert em troca de algumas moedas ou concessões, não consegui convencer-me completamente de sua inocência. Lembrem-se, foi o Sr. Humbert quem me contou a história!

É engraçado que há uma outra figura, Clare Quilty, e este sim é um pedófilo pervertido que dá nojo. Mais uma jogada de Nabokov?

Ao término da leitura, certa ou errada, convenci-me de que Lolita não era realmente ingênua, que não foi estuprada pelo HH e que no início correspondia aos seus flertes. Não sei dizer se ela um dia o amou – ou se algum dia foi capaz de amar alguém, tendo sido tão precocemente iniciada na vida sexual. Porém, torci para que ela fosse feliz e senti pena das lágrimas do amor incondicional, maluco e intenso do obcecado Humbert.

Para quem tem medo da leitura, aviso: as cenas não são gráficas, mas é inevitável que elas se formem na sua cabeça. No entanto, a elegância da prosa é tamanha que você vai lendo e lendo… Acima de tudo, Lolita é uma obra prima da literatura e merece ser lida, degustada e apreciada.

3 corações

5 Estrelas

* Está na lista dos “1001 livros para se ler antes de morrer”, de Peter Boxall (Clique aqui para ver mais resenhas da lista)

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Outras capas ❤

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Sinopse: Lolita é um livro imprescindível, e um dos mais importantes romances do século XX. Polêmico, irônico, tocante, narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que desperta seus desejos mais agudos.
Mas a obra-prima de Nabokov, agora em nova tradução, não é apenas uma assombrosa história de paixão e ruína. É também uma viagem de redescoberta pela América; é a exploração da linguagem e de seus matizes; é uma mostra da arte narrativa em seu auge. Na literatura contemporânea, não existe romance como Lolita.