Tristão e Isolda, Joseph Bedier


Autor: Joseph Bédier

Lenda Medieval / Clássico / 

Editora: WMF Martins Fontes

Páginas: 138



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{lido em jan 2020} Estava um dia desses ouvindo um trecho da ópera de Wagner inspirada na lenda de Tristão e Isolda quando me apareceu a recomendação do livro Coração devotado à morte (aqui), de Scruton, no qual o filósofo “transforma Tristan und Isolde num caleidoscópio de conceitos, textos e ritmos”. Música, filosofia e literatura juntas. ♥️ Pronto, um prato cheio para a leitora aqui.⠀

Comprei, claro! 🙈 Só tinha um problema, por conhecer a lenda (ou achar que conhecia), eu nunca me interessara em ler Tristão e Isolda. Mirando simplesmente a leitura de Coração devotado à morte (ainda suspirando com este título🤤), peguei Tristão e Isolda para “dar uma lidinha” e me deparei com uma história riquíssima, daquelas em que reconhecemos a origem de tantos outros livros (de Romeu e Julieta, inclusive).⠀

Acredita-se que Tristão e Isolda venha das lendas contadas pelos povos celtas e que tenha iniciado sua forma literária no século XI.⠀

Li a versão de Bédier e gostei bastante. A linguagem mais formal dos diálogos é um deleite à parte. Leiam-no, vale a pena – especialmente para refletir sobre originalidade.

Atualização: a editora 34 lançou uma edição em versos, de Béroul.

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Sinopse (ed. 34): A história de Tristão e Isolda, de origem celta, incendiou a imaginação de poetas, músicos, ficcionistas e dramaturgos por vários séculos, tendo inspirado a célebre ópera de Wagner. O romance de Tristão, do misterioso Béroul, uma narrativa em versos rimados e metrificados composta entre 1150 e 1190, integra o ciclo de histórias do rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, e marca o surgimento do romance moderno no Ocidente. A presente edição bilíngue, apresentada e traduzida por Jacyntho Lins Brandão, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, foi vertida diretamente do francês arcaico e recupera, em nossa língua, todo o brilho, o frescor, a inventividade e o colorido dos 4.485 versos dessa indiscutível obra-prima da literatura medieval

Tenho monstros na barriga, Tonia Casarin

 

Autora: Tonia Casarin

Literatura infantil

Editora: Tonia Casarin

Páginas: 44

Ano: 2018

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Um dia desses eu estava no parquinho com meu filho e, ao se balançar rapidamente e até “muito” alto, ele gritou: ai minha barriga!! Naquele momento, me lembrei de todas as borboletas que já voaram (e ainda voam) na minha barriga e fiquei pensando em como eu poderia ajudá-lo a controlar essas sensações.⠀

Contei-lhe dos bichinhos que também já habitaram minha barriga, contei-lhe um montão que coisas… até que, dias depois, vi, do nada [a internet – assustadoramente – lê pensamentos] este livro. Comprei, uai! Eu só não imaginava que seria tão bom!⠀

Ele fala de 8 emoções – alegria, tristeza, raiva, medo, coragem, curiosidade, orgulho e ciúme. Cada emoção é um monstrinho na barriga do personagem Marcelo, e os exemplos são bem fáceis de serem compreendidos, pois envolvem situações bem corriqueiras do mundo infantil.⠀ De todos os livros infantis que li que falam sobre emoções e sentimentos, este é o mais direto, acessível e mais compreensível. Ganha pela simplicidade. Já sinto cheiro de favorito por aqui.

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Sinopse: O primeiro passo para o desenvolvimento das habilidades sociais e emocionais é a identificação dos sentimentos. Portanto, esse livro busca aumentar essa consciência dos sentimentos, com base em uma história de uma criança e seus monstrinhos. Além da história em si, o livro traz atividades e brincadeiras interativas para as crianças fazerem com seus pais!

Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa

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Autor: Mario Vargas Llosa
Nobel / Romance /
Lit. Latino-americana / Paris
Editora: Alfaguara
Páginas: 375
Ano: 2006

 

Comecei a ler Travessuras da Menina Má anos atrás, por recomendação – e muita insistência – do meu pai. Li algumas páginas e abandonei. Por mais que me dissessem que o livro era incrível, coloquei na cabeça que não iria gostar. Minha teimosia falou mais alto até… dias atrás, quando finalmente resolvi dar uma segunda chance. Ou seria terceira?

Que livro maravilhoso! Só não estou mais arrependida de não ter insistido antes na leitura porque penso que, de fato, li na hora certa. Talvez, talvez!, eu não tivesse mesmo gostado dele naquela época, quem sabe?!

Mario Vargas Llosa inicia seu romance na década de 50, no nobre bairro de Miraflores, em Lima, onde o ainda adolescente Ricardo, que tinha por objetivo de vida ir morar em Paris, se apaixona por Lily, uma chilena recém chegada ao país, que causa alvoroço por onde passa. Mas, Ricardo, o “bom menino”, vai descobrir que a menina má não é bem quem ela diz ser. Aliás, vai passar todo o livro redescobrindo isso.

Riu com prazer quando perguntou pelos meus planos a longo prazo e eu respondi: Morrer de velho em Paris

Não conto-lhes mais. Não devo. Não devem saber mais que isso. Não procurem saber mais que isso. Deixem que a surpresa lhes arrebate. Deixem que a aparente simplicidade no texto do autor lhes surpreenda. Deixem que esses personagens tão imperfeitos lhes encantem. Deixem-se levar por tantos caminhos, por tantas mentiras, por tantas insanidades. Entreguem-se, como eu deveria ter me entregado desde as primeiras páginas. Não o fiz. Só fui sugada depois do primeiro terço da história.

Tive raiva, muita raiva. Muita, muita raiva. E o que era para ser uma protagonista detestável, está aqui, marcada no meu peito. E o que era para ser um protagonista sem graça, de personalidade fraca, sem ambição, também está aqui, para sempre no meu coração. Que personagens incríveis! Memoráveis!

Quando você se depara com uma narrativa tão fluida como essa, você percebe o quanto já banalizou o uso dessa palavrinha em outros tantos comentários. O texto parece completamente despretensioso, como se o autor estivesse sentado lhe contando com extrema franqueza e naturalidade sua história. Aliás, é um relato tão sincero que autor e narrador se confundem e você tem certeza de que aquele escritor viveu muito daquilo.

Se pararmos para pensar com frieza, essa espontaneidade dá lugar a um texto muito bem estruturado. Mesmo com uma narrativa linear, seus capítulos parecem histórias dentro da história, com lugares e personagens secundários que aparecem, lhe conquistam e somem, como círculos que se fecham e juntos formam o romance.

Ao longo de todo o livro acompanhamos – com muitas alfinetadas – um pouco do cenário sociopolítico da segunda metade do século XX, especialmente da América Latina. E é aí que narrador e autor se mesclam ainda mais, embora Ricardo, já tradutor da UNESCO e vivendo em Paris, não se metesse muito com política.

Na verdade, Ricardo não se metia em muita coisa, a não ser que a sua menina má estivesse no meio. Aí, sim, ele corria o mundo para alcançá-la. E como ela aprontou! Argh…! Quantas pessoas tem a sorte de ter um Ricardito em suas vidas e o imenso azar de menosprezá-lo?

É uma história de amor, de um amor louco, intenso, obsessivo, que destrói tudo que toca. É uma história de encontros e desencontros, de uma paixão cega, eterna e insana, que chega a dar raiva no leitor. Mas é também uma história que nos faz pensar em quantas Lilys existem por aí, em quantas Lilys não já desperdiçaram seu Ricardito por pura ambição e vaidade. Será que uma pessoa tão gananciosa pode ser feliz na calmaria de uma vida comum? Teria sido feliz se não tivesse tentado tudo que quis ou teria passado a vida se questionando onde estaria se…

Que livro! Que final! Que personagens! Só posso insistir que leiam, mas não deixem que minha euforia gere tantas expectativas. É um livro simples e genial ao mesmo tempo. É uma história comum, de gente comum, mas que tem algum pozinho mágico inexplicável em suas páginas que emociona e cativa o leitor. E, se ao terminar a leitura, você estiver destroçada, precisando de um abraço, é isso aí, você sentiu tudo que senti.

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Sinopse: O peruano Ricardo vê realizado, ainda jovem, o sonho que sempre alimentou – o de viver em Paris. O reencontro com um amor da adolescência o trará de volta à realidade. Lily – inconformista, aventureira e pragmática – o arrastará para fora do pequeno mundo de suas ambições. Ricardo e Lily – ela sempre mudando de nome e de marido – se reencontram várias vezes ao longo da vida, em diferentes cidades do mundo que foram cenários de momentos emblemáticos da História contemporânea. Na Paris revolucionária dos anos 60; na Londres das drogas, da cultura hippie e do amor livre dos anos 70; na Tóquio dos grandes mafiosos dos anos 80; e na Madri em transição política dos anos 90. Assim, ao mesmo tempo em que conta a história de um amor arrebatador, Travessuras da menina má traça um quadro vigoroso das transformações sociais européias e convulsões políticas da América Latina. Muitas das experiências de vida de Vargas Llosa aparecem aqui, por meio de seus personagens – os tempos de penúria em Paris, seu trabalho como tradutor, sua simpatia pela revolução cubana e a ligação permanente com seu país de origem, o Peru. Criando uma tensão entre o cômico e o trágico, numa narrativa ágil, vigorosa e terna, que conduz o leitor nesta dança de encontros e desencontros, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para contar uma história em que o amor se mostra indefinível, senhor de mil faces, como a menina deliciosa e má.

 

 

Os Tambores de Outono (Outlander #4), Diana Gabaldon

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AUTORA: DIANA GABALDON
ROMANCE HISTÓRICO
EDITORA: Arqueiro
PÁGINAS: 576 (apenas PARTE I)
ANO: 2016
SÉRIE: OUTLANDER #4

 

A Arqueiro anunciou para março o lançamento da primeira parte do livro 4, Os Tambores de Outono. Minha resenha foi escrita em 2014, a partir da leitura das partes 1 e 2 das edições da Rocco (esgotadas). Portanto, meus comentários são das duas partes desse 4º livro, sem spoilers, claro!


Ou meu humor não anda nada bem ou esse livro me decepcionou, o que é duro de admitir, já que aprendi a amar essa série com todo meu coração. Fanatismos à parte, senti falta da Diana impactante dos livros anteriores, da Diana que me deixava ora com raiva ora suspirando, da Diana que me roubava o ar e me fazia ter vontade de jogar o livro na parede, da Diana da paixão avassaladora, das surpresas e da ansiedade. Parece que ela só acordou na segunda metade do livro, ainda assim, um pouco sonolenta.

Pensei ser praticamente impossível falar desse livro sem entregar seus segredos, e qual não foi minha surpresa quando li a sinopse ao término da leitura e constatei que está tudo ali. Tudo. Claire e Jamie resolvem, depois de algum tempo, que tentarão a vida na América e se fixam em uma propriedade concedida pelo Governador. Do outro “lado do tempo”, no “futuro”, acompanhamos um pouco do relacionamento de Roger e Brianna e suas descobertas sobre a vida de Jamie e Claire. Falarei menos que a sinopse, e se você não a leu, aconselho que não o faça. Os dois jovens descobrem algo importante que vai mudar (e movimentar) o rumo da história.

Parte I – Dói um pouco ter que admitir que as partes sobre Jamie e Claire na primeira metade do livro não eram as mais interessantes. Roger e Brianna roubaram a cena, mesmo que elas tenham sido pontuais. A autora escreve, escreve, escreve, e não diz muita coisa. Diana É prolixa, eu sei – e até gosto, mas aqui ela exagerou.

Parte II“Ufa, Diana acordou”, pensei. De fato, a história cresce significativamente e tem seus momentos dignos de aplausos. Há um encontro super emocionante e incrivelmente bem escrito, que é, para mim, o ponto alto de todas as mais de mil páginas. A história que se desenrola nessa segunda metade é muitíssimo interessante, mas mal aproveitada. Uma simples falta de diálogo – que não deveria ser comum entre Jamie e Claire e sua evidente maturidade – teve uma consequência que se arrastou até quase o final do livro.

Se gostei do livro? Sim, gostei. Citarei uma frase que a autora usa para descrever um acontecimento do livro e serve bem para resumir minhas impressões sobre ele. “É como no beisebol – assegurei a ela. – Longos períodos de tédio, pontuados por curtos períodos de intensa atividade.”

Deixo claro que não tenho problema com livros longos, mas não gosto quando as páginas e os pensamentos se repetem em demasia. Talvez tenha sido esse o problema em Os Tambores de Outono, mas, esperançosa de reencontrar a autora que me encantou, seguirei firme na série, especialmente porque, além de Jamie e Claire, agora existe a figura de Roger, que muito me agradou. A teimosia de Brianna me impediu de morrer de amores por ela, mas, verei o que me aguarda.

Em suma, uma excelente história, mas que decepcionou na forma em que foi contada. Ainda assim, recomendo a continuação da série. 😉

4 corações 4 Estrelas

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Os Tambores de Outono nas edições da Rocco ❤

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*** Alerta de Spoiler *** 

Minha maior birra foi o estupro, definitivamente. Por que todos os personagens têm que sofrer algum abuso sexual? Acontecera com Jamie, com Fergus, com Ian e com Mary. Com Claire não foi estupro, mas ela “vendera” seu corpo como moeda de troca. E aqui em “Tambores” mais um. E um que me incomodou bastante, não pelo fato em si, mas pela tara da autora pelo assunto. Ficou caricato, passou do limite. Espero, sinceramente, que ela não o extrapole ainda mais nos próximos livros.

*** Fim do Spoiler *** 

Resenha dos outros livros da série:

A Viajante do Tempo

A Libélula no Âmbar

O Resgate no Mar

Sinopse: Será possível alterar o passado? 

Após tomar a difícil decisão de deixar a filha no século XX e viajar no tempo novamente para reencontrar seu grande amor, Claire Randall tem mais um desafio: criar raízes na América colonial do século XVIII ao lado de Jamie Fraser. Eles partem rumo à Carolina do Norte para encontrar um novo lar e contam com a ajuda de Jocasta Cameron, tia de Jamie e dona de uma propriedade na região.

Enquanto isso, em 1969, Brianna Randall se une a Roger Wakefield, professor de história e descendente do clã dos MacKenzie, para encontrar as respostas sobre as próprias origens e sobre Jamie, o pai biológico que nunca conheceu. 

Em meio às buscas, ambos encontram indícios de um incêndio fatal envolvendo os pais de Brianna. Mas Roger não pode lhe contar isso, porque sabe que a namorada tentaria voltar no tempo e salvá-los. Por outro lado, Brianna também não compartilha sua descoberta, pois tem certeza de que Roger tentaria impedi-la.

Um teto todo seu, Virginia Woolf

um teto todo seu

 

Autora: Virginia Woolf
Não Ficção / Literatura Inglesa / Feminismo
EDITORA: TORDESILHAS
PÁGINAS: 190
ANO: 2014

 

Feminismo na sua melhor forma: culto e ponderado

Ler Virginia Woolf, apesar de requerer muita concentração, é sempre um deleite, mas falar sobre o que se leu não é das tarefas mais fáceis, pois o brilhantismo com o qual aborda os temas nos deixa atônitos, sem palavras, como se não nos restasse nada a dizer além de repetir seus pensamentos.

Um teto todo seu surgiu a partir de duas palestras, intituladas As mulheres e a ficção, que ela ministrou em uma universidade em 1928. Alterando os textos e ampliando a palestra, ela traça um panorama sobre o papel da mulher na ficção (e na sociedade). Utilizando-se da ficção, Virginia sai de cena para dar lugar a uma ensaísta, Mary Benton, que vai ao Museu Britânico colher informações sobre a produção literária feminina e o que se escrevia sobre as mulheres até então. Ao longo do livro Virginia critica, com o humor refinado que lhe é peculiar, o machismo que encontra nas prateleiras do Museu, analisa escritoras como Jane Austen, Charlotte e Emily Bronte, e até cria uma irmã para Shakespeare, tão talentosa quanto ele, e nos explica com maestria o porquê dela não ter sido tão genial quanto o irmão.

De maneira concisa e clara nos leva à sua conclusão de que para se escrever bem há que se ter um teto todo seu e 500 libras no bolso por ano, há que se ter um espaço próprio, com chave para que ninguém lhe interrompa, e uma renda fixa para que a mente esteja tranquila, livre de preocupações e, principalmente, de amargor.

Diferente da maioria das feministas, especialmente das atuais, Virginia não exalta a mulher em detrimento do homem. Para ela ambos podem escrever bons livros, desde que esqueçam seu sexo e escrevam livres disso.

“É fatal, para qualquer um que escreva, pensar no próprio sexo. É fatal ser um homem ou uma mulher pura e simplesmente. […] E fatal não é uma figura de linguagem; pois qualquer coisa escrita sob esse preconceito consciente está fadada à morte. Deixa de ser profícua. Por mais brilhante, efetiva, poderosa e magistral que possa parecer durante um dia ou dois, vai murchar ao cair da noite.” (p.146)

“A totalidade da mente precisa estar aberta para termos a sensação de que o escritor está transmitindo sua experiência com perfeita plenitude. É preciso haver liberdade, é preciso haver paz. (p.147)

Por mais que Virginia tenha escrito esse ensaio em 1929, ele, provavelmente, nunca ficará obsoleto em sua essência. É impossível não trazer seu conteúdo para os dias atuais e ver o que evoluiu, e se evoluiu. Certamente, se Virginia “acordasse” hoje e piscasse os olhos três vezes para poder crer no que via ela pediria para dormir novamente e só acordar daqui a uns outros 85 anos. Não é que o feminismo tenha andado para trás ou para frente, mas é como se ele tivesse se perdido ali no meio do caminho.

A ideia de querer que a mulher seja totalmente igual ao homem é completamente equivocada, e Virginia, bem à frente do seu tempo (e do nosso!), já dizia isso:

“Seria mil vezes uma pena se as mulheres escrevessem como os homens, ou vivessem como eles, ou se parecessem com eles, pois se dois sexos é bastante inadequado, considerando a vastidão e variedade do mundo, como faríamos com apenas um?”(p.126)

“Toda essa peleja de sexo contra sexo, de qualidade contra qualidade; todo esse clamor por superioridade e essa imputação de inferioridade pertencem ao estágio colegial da existência humana, no qual há ‘lados’ e é necessário que um lado derrote o outro, e é de extrema importância subir em uma plataforma para receber das mãos do próprio diretor um troféu ornamentadíssimo. Conforme amadurecem, as pessoas deixam de acreditar em lados ou em diretores ou em troféus ornamentadíssimos.”(p.149)

Virginia conclui nos incentivando a escrever “todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja”, e espera que tenhamos dinheiro suficiente para viajar e vagar, e, claro!, para ter um teto todo nosso.

Esse livro não foi nada do que imaginei – e que audácia (leia-se tolice) minha ter tido a pretensão de imaginar seu conteúdo! Um livro fantástico, daqueles para se ter à mão na cabeceira da cama. Leitura mais que recomendada.

4 corações 5 Estrelas

um teto todo seu virginia

Sinopse: Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época.
Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.
 

 

Consequences: Consequences, Truth, Convicted – Aleatha Romig

Li a trilogia Consequences, da autora Aleatha Romig, no início de 2014 e ela entrou, sem dúvidas, na minha lista de melhores do ano. São livros tão cheios de reviravoltas que precisamos comentar com alguém, gritar, desabafar… não foi à toa que insisti para que algumas amigas lessem. Eu quis torturá-las, admito! Como prometido, vou colocar aqui as resenhas tal qual as escrevi quando terminei a leitura.

Consequences (Consequences #1)

 

consequences

 

 

 

Autor: Aleatha Romig
Thriller Psicológico / Dark Romance
Editora: Romig Works
Páginas: 372
Ano: 2011

 

Que essa resenha vai ser a mais confusa que já escrevi é a única certeza que tenho no momento. Uma hora da madrugada e eu penso “não tenho condições de digerir o que acabo de ler, preciso me recompor e amanhã escrevo meu comentário”. Mas, ora bolas, PERDI MEU SONO!

Consequences aparecia há um bom tempo na minha lista de recomendações do GoodReads e sua classificação bem alta chamou a minha atenção. No entanto, vi que alguns leitores haviam usado a tag “erotica” para classificá-lo e cansada de “mais do mesmo” no gênero deixei a recomendação de lado até poucos dias atrás. Então, devo esclarecer, esse livro NÃO é erótico e me pergunto se quem pensa assim leu todas as páginas dessa história. Provavelmente, não.

É o primeiro livro de uma trilogia (há mais livros, mas são apenas pontos de vistas e outras explicações) e conta a história de Claire Nichols, uma meiga e doce bartender que sonhava com sua carreira de meteorologista até ser brutalmente raptada pelo mega milionário Anthony Rawlings. Claire acorda em um quarto luxuoso na mansão de Anthony e para sobreviver vai ter que seguir suas duras regras. Anthony a faz acreditar que eles têm um acordo: ele assumiu suas dívidas e quando considerar que estão pagas, ela terá sua liberdade de volta, mas, para isso, precisa se comportar e ser treinada.

Esse livro me prendeu de uma forma absurda desde as primeiras páginas e mesmo quando eu pausava e fazia qualquer outra atividade, meus pensamentos continuavam nele.

Claire começa a desenvolver a Síndrome de Estocolmo e se o leitor não tiver um perfeito entendimento de tal, não compreenderá suas atitudes nem suportará essa personagem, que foi a criatura mais submissa e obediente de tudo que já li e se você detesta personagens submissas é provável que não consiga chegar ao final (de tirar o fôlego) dessa história e, assim sendo, não vai entender nada. NADA! Por isso, repito, tenha em mente os sintomas da síndrome, não questione o porquê de Claire não tentar fugir e, aconteça o que acontecer, chegue até a última página.

Síndrome de Estocolmo “é uma síndrome na qual as vítimas começam por identificar-se emocionalmente com os sequestradores, a princípio como mecanismo de defesa, por medo de retaliação e/ou violência. Pequenos gestos gentis por parte dos raptores são frequentemente amplificados […]. O complexo e dúbio comportamento de afetividade e ódio simultâneo junto aos raptores é considerado uma estratégia de sobrevivência por parte das vítimas.”

Existe abuso? Sim. Talvez se eu tivesse lido a sinopse eu não teria lido esse livro, como fiz com tantos outros com o mesmo tema. Mas se esse é seu medo, devo dizer que a autora fez tudo muito tolerável. As cenas existem, estão ali, mas não são gráficas, não são detalhadas e, portanto, suportáveis.

Claire se viu ora apaixonada por Anthony, ora com ódio, mas sempre submissa. Sempre. Os pequenos gestos bondosos de Tony eram recebidos com um brilho no olhar e ela tentava botá-los sempre antes dos pontos negativos – que não eram poucos. Existem momentos “mágicos” nesse livro que deixam o leitor sorrindo até que você para e se pergunta “o quê?! Por que estou torcendo por ele? Por que quero ajudar esse psicopata? Por que quero pensar que ele pode ser uma boa pessoa?”. Sim, caro colega, somos acometidos pela síndrome tanto quanto a Claire. A autora maestralmente manipula nossa mente, torce, esgana, esgaça e espreme até você querer gritar e correr para o psicólogo mais próximo. Sim, há momentos em que você se vê apaixonada por um raptor e isso requer tratamento, não? Em outros você o repudia com todas as suas forças. Arghh…torturante!

Apesar do espiral de sensações, a leitura é fluida até os 50% do livro. A partir daí fica um pouco mecânica e repetitiva, mas dos 80% em diante tudo se explica – ou se complica – e a tensão do início parece boba se comparada a desses 20% finais. O coração acelera, palpita, lateja; a respiração falha, falta, sufoca; tudo desaba, tudo.

Nunca, nunca!, eu imaginaria um final desses e nada poderia ter me preparado para tal. As peças começam a se encaixar e todos os momentos vividos tem algum significado. É um thriller psicológico dramático de enlouquecer qualquer um. Não tenho como colocar em palavras a raiva que senti de um dos personagens ao terminar esse livro. Muita, muita raiva. O que? Como? Não! WTF! WTF! WTF! What the fuck!!. Ao passo que tudo se mexia dentro de mim, eu pensava “Que autora genial! Que desfecho de tirar o fôlego!”.

Consequences mexe tanto com o leitor que é difícil recomendá-lo, mas é tão genial que é mais difícil ainda não o fazer. Classificá-lo é ainda mais complicado, mas uma coisa é certa, se for ler, repito, chegue até a última página, caso contrário vai achar que se trata de um reconto da Bela e a Fera, e não, isso não é um conto de fadas.

5 corações 5 Estrelas

 

Truth (Consequences #2)

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AUTOR: ALEATHA ROMIG
THRILLER PSICOLÓGICO / DARK ROMANCE
EDITORA: ROMIG WORKS
PÁGINAS: 480
ANO: 2012

 

Assim como Consequences, Truth deveria vir com acompanhamento psicológico incluso. Esses livros, um tanto incomuns, manipulam sua mente e mexem com seus conceitos e convicções de tal forma que você mal se reconhece. Você pode amar ou odiar essa história e seus personagens, mas jamais ser indiferente. Sim, eu fui das que amei (e é preciso um pouco de coragem para dizer isso, rs), no entanto, entendo bem os motivos dos que não a suportaram.

Contém, inevitavelmente, spoilers do primeiro livro, Consequences. Se não leu o primeiro livro, pare por aqui 😉 

Terminamos Consequences enfurecidos, clamando por vingança e querendo que Anthony Rawlings apodreça na cadeia e pague por todos os seus erros. Queremos ver Claire se vingar, seguir em frente, encontrar o emprego dos seus sonhos e um novo amor. Mas…digamos, essa história não é tão previsível assim.

Truth começa pouco mais de um ano após a prisão de Claire, com o pedido (misterioso) de perdão aceito pelo Governador de Iowa. Perdoada, ela tenta seguir em frente e refazer sua vida, com novos amigos e novos ares, longe da perseguição e da loucura de seu ex-marido. Harry e Amber aparecem na vida de Claire dispostos a lhe ajudar, mas são tão perfeitos que eu me perguntava se alguma surpresa me aguardava nas páginas seguintes.

Harry, oh! (pausa para um suspiro), é o melhor “amigo” que alguém poderia querer, mas…(e é aqui que preciso do psicólogo) apesar de ter me conquistado e eu ter querido que ele e Claire se envolvessem, não era por ele que eu torcia. Pode um leitor em sã consciência querer que o raptor que abusou Claire física e sexualmente se torne uma boa pessoa? Arghhh… Sim, eu quis que o Tony se transformasse, mudasse, aprendesse a amar, se arrependesse, se rendesse. Talvez eu seja uma amante das “causas perdidas” (na literatura, que fique claro!), dos badboys durões que relutam em se apaixonar, dos homens poderosos que terminam vulneráveis, perdidos de amor. Mas como esquecer tudo que ele fez? Arghhh…impossível? É uma luta constante entre o amor e o ódio.

Pode alguém que nunca foi amado aprender a amar?

Conhecemos mais do passado de Tony, ou Anton, e por mais que nada justifique seu comportamento, nos ajuda a compreendê-lo um pouco, a entender seus sofrimentos e motivos, ainda que, repito, injustificáveis.

A história não tenta nos fazer esquecer o mal que Tony causou, nem fingir que ele nunca existiu. A questão é: pode Claire perdoar Tony e seguir em frente? Ou ainda, pode seguir em frente com ele? Perdoar implica em nunca cobrar do perdoado a dor, a dívida ou o sofrimento causado. Diante de um certo fato que acontece com Claire, como não entender sua decisão? Para os que a julgam, devemos lembrar que, sim, ela foi forte, resistiu, lutou e tentou até onde pôde. Do lado de cá das páginas é fácil pensar e agir com a razão, mas e do lado de lá e na situação em que ela se encontra?

“Perdoar é um dos mais nobres gestos de que é capaz o ser humano […] Quem sabe perdoar, praticamente atingiu a perfeição” (Pe. José Artulino Besen)

Que o devido crédito seja dado a essa autora, ela sabe como manter o leitor entretido, curioso e completamente dentro da trama. É daqueles livros que mesmo fora da leitura você se pega pensando na cena em que parou, com o coração apertado e uma sensação de que está vivendo aquilo. A leitura é cativante, apesar de nos dar a impressão de ser mais longa do que deveria. Admito que esperava um pouco mais, tendo em vista o primeiro livro, mas gostei do que li e de como a autora buscou sempre nos surpreender. Por mais que prevíssemos algo e pensássemos que já tínhamos resolvido as charadas, ela sempre nos trazia uma nova surpresa, um novo rumo, uma nova informação. Ela nos trouxe, inclusive, um vilão maior, o verdadeiro manipulador das peças desse jogo. Argh, e como eu não queria que fosse essa pessoa!

É provável que os capítulos que envolvem a personagem Sophia sejam importantes para o terceiro livro, mas aqui eles foram bem entediantes. Sophia e Derek não me prenderam nem um pouco.

Em contraponto, ver Tony “evoluindo”, tentando se controlar, se redimindo e se rendendo foi de aquecer o coração. A autora não o transforma em um anjo, nem tenta mudá-lo da noite para o dia, o que seria muito pouco plausível. As mudanças ocorrem paulatinamente e, não sem esforços, vemos Anthony lutando para ser menos controlador e tentar conquistar sua Claire.

Mal posso esperar para ler o desfecho dessa história, descobrir todos porquês e, apesar de já torcer para que Tony seja uma pessoa digna de perdão e de ser amada, espero que ele não me decepcione com nenhum erro, por menor que seja. Ele não pode ser menos que perfeito para que eu admita que, sim, merece a doce Claire, seu amor (e meu perdão!)

5 corações5 Estrelas

 

Convicted (Consequences #3)

convicted

 

 

AUTOR: ALEATHA ROMIG
THRILLER PSICOLÓGICO / DARK ROMANCE
EDITORA: ROMIG WORKS
PÁGINAS: 400
ANO: 2013

 

A série Consequences foi feita para aqueles que acreditam que as pessoas cometem erros – alguns gravíssimos, mas principalmente para aqueles que acreditam que essas pessoas podem mudar, se arrepender, pagar por seus deslizes e, um dia talvez, serem perdoadas. O terceiro livro, Convicted (Culpado), traz o desfecho – incrível – da história de Claire e Tony e fecha todas as lacunas abertas desde as primeiras páginas de Consequences. São três livros bem diferentes um do outro, cada um cheio de distintas e fortes sensações, que se completam perfeitamente.

Contém, inevitavelmente, spoilers dos dois primeiros livros, Consequences e Truth. Se ainda não os leu, melhor pular essa resenha 😉

Consequences nos apresentou aquele Anthony poderoso, amargo, cheio de ódio e vigantivo, um Anthony que nunca foi amado e não sabia o que era amar. A autora manipulou nossos sentimentos e brincou com o amor e o ódio; fez-nos detestarmos a nós mesmos por desejar que Tony, no fundo, fosse uma pessoa boa; e nos deu raiva, ó, céus, muita raiva. Então, o leitor entra em Truth querendo vingança, torcendo por uma Claire forte e racional. Conhecemos Harry e Amber, e quase até torcemos por Harry, quase. Verdades vêm à tona e temos um Tony mais dócil, um Tony que aprende a pedir perdão e que começa a entender as entrelinhas do amor. Existe um sonho que vai mudar todo o rumo da história – Oh! Pausa para um suspiro! A autora disponibilizou essa cena escrita pelos olhos de Anthony no GR e a preocupação que eu tinha dela não ter sido consensual evaporou em poucas linhas. O final de Truth, apesar de aceitável, foi um pouco esquisito, e só nesse terceiro livro o compreendemos.

O início de Convicted me deu medo. Mesmo. Muito. A história é reiniciada no ano de 2016 e o que lemos não é nada animador. Aliás, é apavorante. Ficamos curiosos para saber o que aconteceu para estarmos diante de tais fatos e seus porquês. A autora começa a intercalar cenas de 2016 com o “passado”. As verdades começam a surgir, as peças começam a se encaixar e, aos poucos, tudo vai se esclarecendo.

Em um determinado momento do livro, mesmo compreendendo as revelações feitas, eu tinha dúvidas (e receios) sobre como a autora faria para que o leitor perdoasse Tony por completo. Que explicações seriam plausíveis o suficiente para o que aconteceu no primeiro livro? E Aleatha Romig surpreendeu! Fez-nos perdoá-lo da melhor maneira possível. Alguns atos simplesmente não tem explicação ou justificativa aceitável, e o fato da autora não ter tentado inventar desculpas mirabolantes mereceu meu aplauso.

O que começou como um thriller psicológico fantástico termina como uma bela história de amor, de aprender a amar e ser amado. Como Tony saberia o que era o amor se nunca havia sido amado na vida? Se jamais tivera o carinho dos pais? Se seu maior exemplo era um avô arrogante e bruto? Claire, com sua doçura e seu amor incondicional, faz o coração de Tony derreter, faz com que ele queira ser uma pessoa melhor, digna e merecedora de seu carinho.

Ah, já ia me esquecendo de Meredith, como poderia?! Imaginem que ela foi fundamental nessa história. Meredith e Courtney nos trouxeram momentos en-can-ta-do-res nesse livro, dignos de verdadeiras amigas. Emily continuou me dando nos nervos. Arghh… E Sophia, não teve jeito, não me conquistou nem achei que merecesse tantos capítulos nesses dois últimos livros. Não posso deixar de mencionar Phil, também peça chave e não vou dizer se para o bem ou para o mal, para não tirar-lhes a graça. Harry e Amber, er…prefiro não comentar. Catherine, quem é ela mesmo?

Trilogia incrível, bem escrita, muitíssimo bem desenvolvida e sem pontas soltas. Uma trama perfeita, entre culpados e inocentes, entre o amor e o ódio, entre a vingança e o perdão.

É uma bela história de amor e de perdão, cheia de mistérios, dor, mentiras e arrependimentos, cheia de muros altos a serem escalados e de espinhos que machucam e fazem sangrar. Mas, além de tudo, é uma história que mostra que, sim, o amor pode mudar uma pessoa. O amor, sim, mudou o Tony como nunca imaginei que pudesse mudar.

5 corações5 Estrelas

Consequences-Series

A série fez tanto sucesso que a autora resolveu sair escrevendo mais outros tantos livros dentro dela. São livros contados pelo ponto de vista de Anthony e outras explicações (ou revelações?). Não senti necessidade alguma de ler mais do que os 3 livros principais, que já tem começo, meio e fim muito bem definidos. Aliás, não gosto quando os autores “se aproveitam” de uma história de sucesso e saem lançando mais um monte de “acréscimos”. No entanto, deixo aqui a ordem completa (e o apelo para só lerem os demais livros após os 3 principais, mesmo o #1.5 ou #2.5).

#1 – Consequences (2011)

#1.5 – Behind his eyes – POV de Anthony de Consequences (2014)

#2 – Truth (2012)

#2.5 – Behind his eyes – POV de Anthony de Truth (2014)

#3 – Convicted (2013)

#4 – Revealed – The Missing Years (2014)

#5 – Beyond the Consequences (2015)